Fenômeno das redes sociais aumenta a sensação de crescimento do ativismo político
O que ocorre, na verdade, é o aumento da confiança em expor manifestações políticas na internet
Jennifer Pontes, Matheus Fernandes e Rhauanny Queiroz
As redes sociais costumam ser o lugar onde as pessoas expressam seus pensamentos e opiniões. Nesta eleição de 2018, não está sendo diferente. É visível o crescimento do número de publicações sobre a política nacional, tanto por grupos fechados, quanto por pessoas sozinhas.
Na Baixada Santista o maior grupo, das redes sociais, que representa os interesses da ideologia política de direita é o “Direita São Paulo” (DSP), que existe desde maio de 2016. O núcleo santista, por sua vez, existe desde julho de 2017. Fundado por Edson Salomão (presidente), Douglas Garcia e Jorge Luiz (vice-presidentes). No Facebook, a página do núcleo de Santos tem mais de 3800 curtidas. No Estado de São Paulo inteiro são 1.5 milhão de curtidas.
Mesmo assim, a influência não é traduzida perfeitamente para as mídias. Por e-mail, o DSP conta que a mídia mainstream não os representa. “Raramente a imprensa tradicional nos dá espaço e, em boa parte dessas raras vezes, deturpa ou distorce o que foi dito”, explica o representante. Nesse cenário, encontraram a solução de sempre gravar ou filmar as entrevistas de seus representantes, postando depois em suas redes sociais. Ao mesmo tempo eles encontraram, em toda essa situação, um crescimento grande de uma mídia alternativa com um viés mais tradicional. Isso explica o crescimento exponencial da direita, incluindo o candidato a presidência pelo PSL, Jair Bolsonaro.
Enquanto isso, do lado da ideologia política de esquerda, a aproximação é muito mais tímida. Apesar de visível a movimentação individual nas redes sociais entre jovens e adultos que estão interessados em mudanças e mexer com o status quo do que é a política atual, entre páginas virtuais e mobilizações sociais, a interação é quase nula. O Centro dos Estudantes de Santos e Região da Baixada Santista (CES) conta com 450 curtidas no Facebook e até páginas maiores, como a União Juventude Socialista (USJ), que nacionalmente conta com 91 mil seguidores, possui na Baixada Santista um núcleo menor, com apenas 1.1 mil curtidas. É essa interação maior nas redes sociais que as páginas buscam, como conta o Presidente do CES desde o início de 2018, Caio Yuji de Souza Tanaka, de 20 anos. Ele comenta que ainda tem dificuldades para falar com seus seguidores. “A internet hoje é um potencializador das nossas ideias, um caminho novo, e a gente tem que ver isso como uma aliada nossa, porque nem sempre acaba sendo”, explica.
Ironicamente, os grupos sociais de esquerda também não se sentem representados pelo que a mídia mainstream reporta sobre eles. Mas as motivações são diferentes. “O que a televisão reporta hoje é apenas o que é de interesse dos grandes poderes. Todos os assuntos que são falados importam apenas para eles porque existe uma agenda a ser seguida. Existe um recorte muito grande, e precisam ser ouvidos todos os lados, coisa que não está acontecendo”, argumenta Caio. Exatamente por isso, também por parte da esquerda, uma mídia alternativa tem crescido cada vez mais, com páginas como o Mídia Ninja, Quebrando o Tabu, entre outras.
Segundo o professor de teoria política da Universidade Católica de Santos, César Agenor Fernandes da Silva, o ativismo político seria a forma como membros da sociedade se agrupam em torno de um objetivo político em comum. “O ativismo político não é somente aquele ligado à política em torno dos poderes do estado, é também relacionado a grupos sociais, das mais variadas formas, que se reúnem e vão atrás para conseguirem uma pauta que eles defendam”, diz.

César explica que há momentos pontuais de participação política por parte dos ativistas. Porém, no Brasil, tais movimentos não são constantes, atuando sempre em um determinado momento e depois se diluindo. “Não daria para dizer que teve uma decadência, isso vem de uma impressão muito maior que a gente tem hoje de que as pessoas estão mais ativas politicamente do que já estiveram. O que acontece agora é que todo mundo nas redes sociais quer falar alguma coisa de política, e a gente fica com a sensação de que está todo mundo envolvido”, conta.
No século 21, é crescente a utilização das redes sociais como forma de demonstração do ativismo político. As vantagens desse modo de ativismo, segundo o professor, é o alcance que isso causa nas pessoas, já que as redes sociais conseguem disseminar conteúdos de forma extremamente rápida. Por outro lado, o uso das redes sociais para esse fim vem trazendo uma grande desinformação e disseminação de ódio, através de um fenômeno muito preocupante: as Fake News. “Quando a gente para e pensa no ativismo político, não precisamos fazer de um modo achando que o outro lado não serve para o diálogo, que ele é inimigo. Ele é um concidadão. A democracia não é a imposição da maioria sob a minoria, mas é a garantia de que a minoria não vai ser massacrada pela vontade da maioria”, afirma.
Para o professor, o aumento do engajamento político na internet não necessariamente significa uma diminuição do ativismo nas ruas. O que ocorre é que nas redes sociais muitas pessoas possuem “coragem” de mostrar suas opiniões e convicções, já que este é um ambiente de certo modo anônimo. “Acontece que na rede social é fácil ser ativista, você escreve, compartilha uma matéria. O que é perigoso são os grupos que tentam manipular as informações”, argumenta.
Nas eleições de 2018 o ativismo nas redes sociais já causa algumas consequências. Segundo o especialista, nesta eleição, mais pessoas estão dando atenção às campanhas eleitorais, além de realizarem um maior número de debates entre si. “Você vê pessoas que teoricamente não se interessavam por política e agora estão atentas no processo eleitoral”, diz. Outra consequência bastante marcante nesta eleição, para o professor, é o uso do ativismo em redes sociais como estratégia de divulgação de ideias dos candidatos. “Esse ativismo político tem uma certa relevância, não é ele que decide eleição, mas ele de forma alguma pode ser menosprezado”, afirma.