Criança vegana rejeita carne aos seis anos de idade: “prefiro morrer do que comer um animal de novo”
Após mudança de hábitos familiares, alimentação de família Santista é compartilhada nas redes sociais.
Isabela Madeira e Yasmin Vilar
“Aos seis anos ele pediu para que eu não o obrigasse a comer um animal e passava a mão no pescoço falando que não conseguiria engolir. Eu falei: ‘filho, se você não comer, você pode morrer’. Foi então que ele me disse ‘prefiro morrer do que comer um animal de novo’”. A frase dita pelo filho da santista Aline Lira, de 36 anos, foi decisiva para que uma família mudasse todos os seus hábitos alimentares. Yuri Lira Magário decidiu entrar no mundo do veganismo ainda na infância, antes mesmo de conhecer o significado do estilo de vida que está em alta.
Segundo a técnica em nutrição, Aline Lira, os primeiros passos de Yuri no mundo do veganismo foram dados antes mesmo dos dois anos de idade. “Ele ainda estava aprendendo a falar quando identificou que estava comendo ovo. Ele sabia que do ovo nasce o pintinho e daí se recusou a comer”, lembra. Em seguida, os laticínios foram cortados pelo menino, que passou a associar a imagem da vaca em embalagens ao leite tomado.
A mãe explica que seu filho sempre seguiu a lógica de que “comida é comida e animal é animal”. Aos quatro anos, tomou outra decisão. Passou a entender que os variados tipos de carnes tinham origem animal. Sem saída, a família começou a optar por alimentos mais processados, como salsichas, linguiças e demais produtos que não tivessem a aparência da carne convencional. Mas a decisão não durou muito tempo.
“Depois que ele passou a se recusar a comer carne, pediu para que ninguém comesse com ele na mesa ou que tivesse algum animal morto na geladeira. Desde então passamos a comprar tudo de origem vegetal”, comenta Aline.

A técnica conta que a decisão de seu filho exigiu um preparo da família. Procurou informação e descobriu que existiam pessoas que não consumiam carne ou qualquer tipo de produto de origem animal, conhecidos como veganos. Documentários também a auxiliaram a compreender o novo estilo de vida. Já seu esposo, médico, fez o caminho reverso. Pesquisou estudos que falavam das consequências dos insumos animais na alimentação.
“Meu marido descobriu a possibilidade de vivermos até mesmo melhor do que antes em relação à saúde, devido à segurança alimentar em não comer animais. Os exames do Yuri estão ótimos. Ele tem um ano a menos do que a turma da escola, mas acompanha no crescimento físico e se destaca no desempenho intelectual”, comemora a mãe.
Hoje, a alimentação da família é toda adaptada ao padrão exigido pelo veganismo. As carnes e produtos de origem animal são substituídos por alimentos alternativos, produzidos somente com comidas de origem vegetal. Além disso, alguns anos após a transição alimentar, eles ganharam um novo integrante, o pequeno Léo Lira Magário, de 10 meses, que crescerá seguindo o estilo de vida.
Tabu
Aline explica que o filho já sentiu incomodado com os comentários feitos a respeito das pessoas que optam pela alimentação vegana. Em um dos episódios, ocorrido em uma festa infantil com buffet preparado em sua maioria com alimentos vegetais, Yuri já ficou decepcionado e até se questionou a respeito da sua escolha.

“Dois amigos dele que estejam com a gente ficaram debochando dizendo que vegano não presta, que é um lixo. Outros convidados da anfitriã também falavam mal da comida. Ele veio até a mim, chorando, dizendo que queria não queria mais ser vegano. Mas depois explicou que só queria que eu não falasse para mais ninguém. Sinto que ele passou a se envergonhar um pouco e se sentiu muito mal com isso”, desabafa a mãe.
Digital influencer
A técnica em nutrição explica que a curiosidade das pessoas sobre o que um vegano come serviu como motivação para que passasse a compartilhar a rotina e alimentação de sua família na Internet.
“As pessoas perguntavam muito o que a gente comia e eu ficava mostrando fotos no celular. Decidi colocar tudo lá para ficar mais fácil. Mas isso me ajudou a ter mais inspiração porque descobri vários perfis veganos e passei a seguir todos”, comenta.
Atualmente, mais de 26 mil usuários acompanham as publicações da mãe santista. Com fotos coloridas, ela compartilha sugestões de pratos, indicações de lugares que atendem a esse tipo de público, assim como momentos com os filhos Yuri e Léo.
Aline ainda ressalta que muitas mães a procuram com frequência para tirar dúvidas sobre sua experiência com crianças veganas. “Sempre perguntam e chegam mães perdidas porque os filhos estão se recusando a comer animais. Imagino que hoje há uma nova geração com consciência expandida”, finaliza.
Decisões
Em contrapartida, na família de Jéssica Germano de Freitas, de 29 anos, a escolha de se tornar vegano teve influência dos adultos. Ela, seu esposo e filhas iniciaram a transição alimentar há três anos, e hoje se consideram veganos.
“Meu marido era ovolactovegetariano um ano antes de nós. Porém, os boatos de papelão na carne foi o pontapé para mim e comecei a assistir documentários. Após um deles, decidi mesmo me tornar ovolacto também”, explica a mãe.

O termo ovolactovegetariano é utilizado para se referir a pessoas que não comem carne, mas que ainda se alimentam de ovos e derivados do leite. Para a família de Jéssica, a dieta vegetariana foi um fator importante na transição.
“Quatro meses depois, fomos em um festival vegano aqui na região e decidimos mudar. Compramos um livro e seguimos”, lembra Jéssica.
Mãe de Lana, de 6 anos, e Mariah, de 6 meses, ela comenta que ainda ouve críticas em relação à alimentação da família e o veganismo na infância. “Teve muita implicância sim e até hoje lidamos. Sempre é a mesma questão de que ‘animais foram feitos pra isso’, ‘que minhas filhas ficariam doentes’ ou que ‘estávamos privando elas de escolha”, desabafa.
Ela também explica que as redes sociais serviram de apoio nesta transição. Dicas compartilhadas em perfis veganos ajudavam a tornar a transição mais simples.
Alimentação

De acordo com a nutricionista Fabiana Sanches, a dieta vegana não traz nenhum malefício à criança quando devidamente acompanhada. O veganismo é reconhecido como prática segura pela Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (SBAN), e diminui as chances de anemia, osteoporose, raquitismo e obesidade.

Segundo Fabiana, a criança que já nasce em uma casa que segue a dieta, tem maior facilidade de adaptar seu intestino. Já a criança onívora, que os pais buscam alimentação baseada em plantas, deve ter em mente um processo adaptativo e gradativo. “De uma fase para outra pode demorar meses. É preciso sempre garantir que, excluindo a carne e o leite, por exemplo, consiga ferro e cálcio em outras fontes”, explica a nutricionista.
Ela ressalta que o vegano não pode se alimentar apenas de arroz e feijão. “O prato de uma criança vegana deve conter algum alimento do grupo do feijão, algum cereal, pelo menos dois vegetais diferentes e dois tipos de verduras, preferencialmente crus.”
Outro fator importante é a atenção à vitamina B12, que está presente na carne vermelha. “O vegano deve sempre solicitar em seus exames de rotina a vitamina B12, pois dependendo do nível de deficiência, é necessária a reposição”, finaliza a nutricionista.