Em meio ao sofrimento, familiares encontram na fé uma forma de lidar com o luto

Mídias Digitais 2018
Nov 1 · 9 min read

Mulheres relatam a morte inesperada de seus filhos e como convivem com a dor

Jennifer Pontes, Natã Cajaíba e Wânia Mara Gomes

No dia 02 de novembro é celebrado o dia dos finados. Uma data que muitas pessoas utilizam para homenagear seus entes queridos. É através da fé que essas pessoas conseguem conviver com a morte dos familiares.

Para Célia Ferreira Gomes, de 48 anos, o mês de maio remete muitos sentimentos. Sua filha, Giovana Érica Ferreira Barbosa, na época com dois anos e meio, foi atropelada em 30 de maio de 2002, em Praia Grande. Ela brincava na porta de casa com seu pai, quando uma motorista embriagada avançou pela calçada e os arrastaram. Giovana morreu na hora. Já o pai, teve apenas ferimentos leves. “Não teve chance alguma de socorrê-la. Eu vi tudo e tenho até hoje a cena em minha mente”.

Célia e sua filha Giovana em seu aniversário de dois anos. (Foto: Arquivo pessoal)

Foram iniciadas as investigações, porém, o inquérito foi arquivado. Célia conta que a motorista morava na mesma rua de sua casa e que por vezes a encontrava pelo bairro. “Eu não quis seguir com as investigações, pois o sofrimento era grande e não me importava com mais nada”. Após o sepultamento, ela, seu marido e sua filha mais velha Gleice, de 10 anos, mudaram de residência, pois não suportavam viver no local em que a criança faleceu.

Emocionada, ela diz ter perdoado a autora da morte de Giovana. “Não adiantava eu culpar, ou encher de ódio o meu coração para justificar a morte da minha filha. O que pensei no momento era que se a mulher teve culpa de alguma coisa, que Deus tomasse conta. Da minha parte, hoje eu não tenho raiva nem rancor. Ela está perdoada”. Célia encontrou em seu trabalho e na família uma maneira de superar a dor e o sofrimento diário.

Célia, junto com seu marido e filhos. (Foto: Arquivo pessoal)

No nascimento de Giovana, ela faria uma laqueadura, pois não tinha mais intenção em engravidar. Porém, o procedimento não foi realizado. Acometida, após a tragédia, voltou em sua ginecologista, e no dia 08 de maio do ano seguinte, Gabriel nasceu. Hoje, ela segue a vida ao lado do marido, da filha Gleice, de 27 anos, Gabriel de 16 e Júlia com 10. Os caçulas sabem da morte da irmã, pois a mãe nunca escondeu o que aconteceu.

Com a família unida, ela prioriza cada momento, e juntos compartilham a dor da saudade por Giovana. “A morte não é mais uma surpresa, temos que aceitá-la. A dor e a saudade sempre existirão. Tem dias que acordo pela madrugada e fico pensando e lembrando dela, mas sei que é o processo da vida. Ela só veio para ficar dois anos e meio. Minha fé em Deus me ensina a agarrar no amor que tenho pelas pessoas à minha volta”.

A funcionária pública de 51 anos, Silvana de Carvalho Vitkaoskas, perdeu seu filho, Davi de Carvalho Vitkaoskas, em 11 de outubro de 2012. Davi tinha apenas 25 anos quando morreu. Sua morte foi atribuída aos policiais. Quando soube da notícia, ficou desesperada. “Uma mãe nunca espera receber uma notícia dessas”. Um ano antes, seu marido havia falecido.

No dia do acontecimento, Davi havia planejado roubar uma imobiliária. Nas palavras de Silvana, um dos seguranças do local atirou em seu filho no momento do roubo, mas sua morte foi posteriormente atribuída aos policiais. Ela também revela não ter prosseguido com as investigações por medo de que algo acontecesse com seu outro filho, que tinha apenas 15 anos na época. “O filho da tchau para a mãe dizendo que vai trabalhar e nunca mais volta. O meu morreu dessa forma. É um medo constante”.

Nos momentos de tristeza, Silvana diz que se apegava muito a sua crença em Deus. “O que me fez superar a morte dele foi a fé, sem isso a gente não aguenta”. Ela se lembra dos dias em que pedia a Deus forças para continuar a viver sem seu filho. Seu período de luto durou aproximadamente um ano, mas afirma que nunca vai esquecer a dor e os momentos de sofrimento após a morte de Davi. “Para uma mãe que perdeu um filho, o mundo parece que perde a cor”.

Na época do ocorrido, Davi tinha uma filha de apenas quatro anos. Hoje, ela possui 11 anos. Silvana lembra que sua neta sofreu muito com a perda do pai, e que até hoje sente as consequências desse trauma. “Ela vai mal na escola, tem sintomas de ansiedade e faz acompanhamento na psicóloga”. Muito emocionada, ela fala sobre sua vida sem o filho, e reforça a importância da fé. “O sofrimento fica adormecido, mas a dor fica e a gente lembra todo dia deles, não da para esquecer. Se eu não tivesse fé em Deus não aguentaria tudo isso”.

No réveillon de 2005, um aneurisma interrompeu a vida de Róger Seidi Nishida, de 28 anos. A mãe, Elnice Moreira Nishida, dona de casa de 62 anos, conta emocionada sobre o último ano da vida do filho, que cursava engenharia e havia conseguido recentemente um novo emprego. “Era um menino muito bom, responsável e estudioso. Era meu bem mais precioso”.

Em uma manhã, Elnice o encontrou desacordado em seu quarto. Imediatamente, Róger foi levado ao hospital, e submetido a um coma induzido, seguido de morte cerebral. “Ele havia reclamado de dor de cabeça, que sentia há dias. Ao ir no pronto socorro, os médicos sempre o diagnosticavam com sinusite e mandavam ele de volta para casa”. Ela recorda com pesar a conversa que teve com seu filho desacordado, antes de sua morte. “A mãe te ama muito, mas se Deus quer você eu abençoo e te entrego”.

No mesmo período, ela se dividia entre cuidar de sua mãe que estava em estado terminal, e seu esposo, que faria um exame cardíaco de alta complexidade. Evangélica e temente a Deus, Elnice encontrava na fé uma motivação para prosseguir sua vida sem seu único filho. A dona de casa ainda precisou lidar com a dor do luto novamente ao perder sua mãe, 20 dias após o falecimento de Róger.

A religião como forma de ajuda

Para o padre Kleber Luiz Cardoso, de 43 anos, a fé é a experiência de acreditar que Deus existe, e que a nossa vida não é em vão. “Uma vez terminada a existência na terra nós temos a esperança de ter uma existência fora da terra. No caso seria o que nós chamamos de vida eterna”. Na visão da religião católica, o que aconteceu com Jesus é algo que acontecerá com todos, não sendo a morte um ponto final.

Padre Kleber acredita que no momento da fragilidade do luto é de extrema importância que a pessoa tenha por perto familiares e amigos. O suporte e apoio de pessoas próximas facilita a superação dessa etapa do luto. “A morte de alguém é uma das piores experiências que um ser humano pode ter, pois a gente se sente muito impotente nesse momento”.

A igreja católica possui a crença da relação com pessoas falecidas através da oração. A religião acredita que a reza auxilia na proteção dos falecidos. Dessa forma, não existe uma ruptura completa entre os vivos e os mortos, mas sim uma interseção entre um e outro. “Uma família que possui um familiar que já faleceu mantém essa comunicação pela reza, pedindo sempre pela proteção espiritual de Deus”.

O dia de finados, 02 de novembro, significa uma homenagem aos já falecidos. No catolicismo, por exemplo, há a celebração da memória dos entes queridos já falecidos, com uma perspectiva de esperança na vida sob a morte. “Para nós é um dia em que refletimos sobre a realidade da morte. Hoje, vivemos em um momento onde ninguém quer falar mais disso, mas é importante. A morte faz parte da existência”.

Na visão do padre, quando se vive somente a dimensão do tempo presente às pessoas podem se esquecer dos planos futuros de Deus. É necessário ter consciência de que uma hora a morte irá chegar, mas as pessoas não devem se fechar para novas experiências. “É importante a gente saber como conviver com as pessoas e valorizar o tempo que nós temos. O amor é um sentimento tão forte que quem ama permanece para sempre na pessoa”.

Há 30 anos, O pastor Luiz Fernando Novais, do ministério evangélico “Cristo é a resposta’’, em Santos, lidera um grupo que anualmente, no feriado de finados, visitam cemitérios da região levando a palavra de Deus. “A ideia é poder trazer uma palavra de consolo para as pessoas que perderam seus entes queridos e vão ali homenagear os seus mortos. O objetivo não é agredir nem invadir a religião das pessoas de forma alguma, mas levar uma palavra de esperança da parte de Deus” conta.

Ele explica que ao longo dos anos, presenciou experiências como de uma senhora que estava muito desesperada no cemitério da Areia Branca, e após conversarem, visitou a igreja na mesma semana, para contar que estava mais tranquila. Outra experiência foi em Cubatão, com uma moça que recebeu um folheto da igreja e, meses depois entrou em contato por telefone. Ela contou que pensava muito em se suicidar e ao lembrar do folheto que recebeu decidiu procurá-los. “Temos um trabalho de atendimento telefônico e pudemos conversar, orar com ela. Após isso ela procurou uma igreja e teve sua vida transformada”, relata.

Apoio psicológico

Juliana Matias Leite, psicóloga de 36 anos, perdeu seu primeiro filho oito dias depois de seu nascimento. Em 2013, dois meses após seu casamento, ela engravidou. Toda sua gestação foi tranquila, sem riscos ao bebê. Na 34° semana, a psicóloga deu à luz a Henrique. O menino nasceu com dificuldades de respiração, e foi levado diretamente a UTI. Durante todo o período em que esteve vivo Henrique ficou internado na ala de terapia intensiva neonatal. “Eu não pude dar leite, nem segurá-lo. A condição dele era muito delicada”.

A psicóloga relata que a saúde de seu filho começou piorar dia após dia. “Ele começou a ter complicações envolvendo a pressão arterial, os rins, hemorragia e baixa oxigenação. Foi bem difícil aquele período”. Henrique morreu no dia 20 de fevereiro de 2014. Seis meses depois, ela engravidou novamente. A nova gestação se tornou um momento de apreensão entre o casal, com medo de que algo acontecesse novamente. Laís nasceu completamente saudável, e hoje está com quatro anos.

O fato de ser psicóloga ajudou Juliana a ter um olhar diferente sobre o trauma ocorrido. Ela relata que sua profissão a auxiliou a ter empatia, não criticar ou julgar o relato de outras mães e principalmente ouvir e dar atenção necessária àqueles que precisam, distinguindo o que é normal no processo do luto ou não. “Eu não recebi essa empatia quando vivi o luto. As pessoas falavam que ele viveu pouco, que foi melhor assim por não ter sofrido. Era muito doloroso escutar isso. Eu sempre quis ser mãe”.

Juliana e sua filha caçula Lara, de apenas nove meses. (Foto: Natã Cajaíba)

Por ser praticamente sua primeira experiência na maternidade, Juliana decidiu entrar em um grupo sobre o tema. Posteriormente, quando uma das participantes perdeu seu bebê poucas horas depois do nascimento, todas as mulheres se sensibilizaram com o ocorrido, e decidiram formar outro grupo, voltado ao processo de superação do luto. “Nós pensamos, por que não ajudar mais pessoas que estão vivendo isso? Não existia antes nada parecido aqui em Santos”.

Essa foi a principal motivação para o surgimento do grupo Lado a Lado, criado em 2017, que acolhe mães e pais em situação de luto após perderem seus filhos. Sua função é acalentar, ouvir e conversar sobre as histórias de perda de cada um. “É um lugar onde as famílias podem falar sobre suas dores livremente. Infelizmente a sociedade de uma forma geral não da esse espaço para o luto. Elas merecem e tem direito de viver essa dor, não importa quanto tempo demore”.

Atualmente, o grupo está em trabalho de divulgação para alcançar mais famílias que necessitem de ajuda. Os encontros são realizados mensalmente em Santos, no ultimo sábado de cada mês, e duram em torno de duas horas. No dia, são realizadas atividades e dinâmicas entre as mães, para que se sintam mais confortáveis, e para apresentar novos membros do grupo.

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