Falta de candidatos LGBT na Baixada Santista é preocupante

População LGBT representa menos de 0,5% dos candidatos do estado de São Paulo nas eleições desse ano.

Natã Cajaíba e Thais Prado

A representatividade das minorias vem se tornando uma preocupação entre os eleitores, que buscam candidatos que lutem por seus direitos no Palácio do Congresso Nacional. Na Baixada Santista, dois candidatos representam a causa LGBT.

Valter Corrêa Junior de 38 anos candidato a deputado estadual, que nas urnas adota o nome de Chiclete, pelo qual é popularmente conhecido, é morador de São Vicente e militante do movimento LGBT há quase 20 anos na baixada santista. Chiclete ganhou esse apelido, durante seu trabalho como palhaço e locutor o qual exerceu por 25 anos, e destaca o amor pela profissão, “Sempre amei o que fiz, adoro levar alegria para as pessoas, a população já sofre muito”. Para o candidato, a razão da dificuldade em se ter representatividade no campo político, se dá por uma cultura antiga que precisa ser desmistificada “Eu acho que não temos mais representantes por que o público LGBT em sua maioria não vota em candidatos LGBT. Somos poucos mais existe um crescimento em relação às eleições passadas”. Chiclete tem como objetivo reforçar a segurança para a comunidade LGBT, ele pretende implantar a delegacia da diversidade que defenda e proteja as minorias e as vitimas de preconceito.

Valter Corrêa Junior, candidato a deputado estadual

Além de Chiclete, a baixada tem mais uma representante Crystal da Silva, uma mulher trans de 32 anos moradora de Peruíbe e candidata a deputada federal, Crystal foi a primeira mulher transgenero de sua cidade a mudar de nome e sexo, também a primeira a casar no cartório. Atualmente ela vive da arte, como cantora e atriz. “ Meus projetos são para reforçar as leis que dão direitos a diversidade, e conseguir melhorias referentes a elas” explica Crystal

Crystal da Silva, mulher trans, candidata a deputada federal

Segundo dados da plataforma da Aliança Nacional LGBTI+ referentes aos pré-candidatos das eleições 2018, dos 3.800 candidatos a deputados federais e estaduais do Estado de São Paulo, foram registradas apenas 15 candidaturas de candidatos LGBT, não contando aliados a causa. O número representa uma parcela de 0,4% dos parlamentares.

A área política exige grande exposição e contato com o público, isso acaba distanciando grande parte da população LGBTI do envolvimento político, por causa do medo do preconceito e do julgamento. A diretora de ensino da CMDS — (Comissão Municipal de Diversidade Sexual de Santos) e mulher transexual Márcia Oliveira diz que grande parte dos transexuais e travestis não consegue ter uma representatividade, pois são pessoas em situação de rua, marginalizadas pela sociedade e enfatiza “Independente se a pessoa for homossexual, transexual, negra, ela passará pelo julgamento”.
O medo de perder o eleitorado mais conservador é um dos motivos para candidatos não se posicionarem a favor da causa. Para Márcia, a questão vai muito além do que apenas ter o nome vinculado à causa e alerta que “O candidato tem que estar preparado para sofrer a pressão, as pessoas vão tentar desmoralizá-lo de todos os jeitos e formas possíveis”.

De acordo com o cientista político Rafael Moreira, é preciso levar em conta o nível social e conservadorismo presente nos moradores da Baixada Santista. Além disso, ele também aponta uma falha institucional “Estamos em uma das regiões mais tradicionalistas, de um dos estados mais conservadores do país. Além disso, existem fatores institucionais, há falhas nos partidos de abrirem espaço para este tipo de representação”. Para o especialista este quadro não vai mudar com apenas uma medida. O primeiro passo para a mudança é reconhecer o problema, e começar a procurar soluções para reverter essa situação.
Com o surgimento de movimentos sociais e coletivos que tem buscado maior visibilidade para as minorias, a população LGBT agora tem a oportunidade de ocupar espaços de poder que antes lhe eram negados.

Muitos jovens percebem essa falta de representatividade, ao não se enxergar na política brasileira, e buscam se aliar a pessoas com os mesmos objetivos, em coletivos que lutam pelas minorias. Um dos coletivos que tem ganhado notoriedade é o #VOTELGBT, que surgiu em 2014, a partir da junção de voluntários com o objetivo de identificar candidaturas a favor de pautas LGBT, fossem elas candidaturas de pessoas LGBTS ou simpatizantes. Em 2016 o #VOTELGBT criou uma plataforma, aonde os candidatos responderiam 14 perguntas sobre direitos humanos para ingressar no programa. “Dos 5000 candidatos que entraram na plataforma em 2016, apenas 1000 concluíram a inscrição, e o restante abandonou o processo no meio”, explica Evorah Cardoso, doutora e mestre em sociologia jurídica e uma das integrantes do coletivo #VOTELGBT.

De acordo com Evorah, os eleitores que utilizam a plataforma são muito jovens. Cerca de 150 mil pessoas utilizaram a plataforma em 2016, sendo 70% mulheres, a maioria delas jovens de até 24 anos. “Enquanto as pessoas não verem candidaturas com as caras delas, elas vão achar que esses espaços de poder são espaços que não podem ocupar”, completa

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