Jovens aptos ao voto estão cada vez mais longe das urnas

Jovens entre 16 e 17 anos que tiraram o título não somam nem 1% do total

Por Juliana Steil e Marina Marques

Gabriel Fidalgo, 16 anos, morador de Praia Grande, aos 13 começou a se apaixonar por política, motivado pelo processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Ele tenta fazer com que os amigos de escola tenham o mesmo interesse, mas sem resultado. “Sou o único que vai votar na minha turma, que hoje tem 30 alunos”. Gabriel está entre o 1,4 milhão de jovens brasileiros que já possuem título de eleitor de acordo com a estatística do eleitorado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Gabriel Fidalgo, 18, quer votar desde os 13 anos (Foto: Marina Marques)

Esse número corresponde a 0,95% do total de adolescentes de 16 e 17 anos, faixa etária em que o voto é facultativo. Esse percentual vem caindo gradualmente a cada ano, como mostram os dados de 2016, quando os jovens correspondiam a 1,33% do eleitorado — quase 2 milhões.

Os dados, segundo os jovens, refletem a instabilidade política do país e uma descrença na honestidade dos políticos em meio aos escândalos que fomentam discussões pouco abertas aos mais jovens. “Eu sentia que política era um assunto reservado aos adultos”, afirma o estudante Gabriel Dias, 17 anos, que também está prestes a exercer seu voto facultativo.

Para ele, a polarização também é razão para afastamento. “O extremismo prejudica, a pessoa se fecha e entra numa bolha social, onde todos pensam como ele. Não há debate”, conclui.

Dias entrou para o Câmara Jovem de Santos, em 2016. O programa visa unir vereadores e estudantes do ensino médio, para que compreendam o trabalho do Poder Legislativo e tenham melhor compreensão sobre política. O jovem conta que lá encontrou espaço para discutir e entender melhor sobre o assunto, o que não acontecia na escola. “Os professores até falam sobre questões ideológicas, dados e estatísticas, mas não podemos falar abertamente sobre candidatos e propostas”, afirma.

Gabriel Dias, 17 anos, ex-presidente da Câmara Jovem (Foto: Marina Marques)

O estudante também incentiva seus colegas de classe a se interessarem mais por questões públicas, se tornando uma espécie de referência quando algum deles precisa de orientação. Por não contar com uma abertura na escola, as conversas acontecem nos intervalos, na roda de amigos. “Quando alguém tem alguma dúvida, senta ao meu lado e pergunta.”, comenta.

Por outro lado, há também os jovens que não se veem influenciados pelas medidas tomadas pelos representantes da população. “Meus amigos pensam que a política e todas as decisões tomadas em Brasília, por exemplo, não os afeta. Eles não entendem que essa é uma relação bem íntima.”, afirma Fidalgo.

O desinteresse pelo cenário político pode vir, como no caso da estudante Maria Fernanda Ubida, de 18 anos, da falta de informação. “Na eleição passada, em 2016, perdi o prazo para tirar meu título de eleitor. Esse ano, já é voto obrigatório.”

Já nas redes sociais, em especial no Facebook, eles se sentem mais livres para expressar opiniões e apoiar candidaturas, mas nem sempre são visto com bons olhos pelos mais velhos. “Já fui chamado para a coordenação diversas vezes por apoiar candidaturas que vão contra a ideologia da escola.”, afirma Fidalgo, que foi aconselhado pelos docentes a apagar as mensagens.

Em relação às preferências, os jovens entrevistados demonstram apreço por diferentes aspectos das candidaturas. Para Dias, as propostas na área de educação têm prioridade, assim como a trajetória pessoal de cada candidato “para a formação do caráter”. Já Fidalgo é fiel ao candidato, seja qual for o partido em questão. E Fernanda, por sua vez, dá importância às propostas relacionadas à igualdade, principalmente nas questões relacionadas a gênero.

Para o presidente do Movimento Estudantil de Santos, Caio Tanaka, as manifestações conhecidas como Diretas Já, no final da Ditadura Militar, em 1984 são exemplo da participação de peso da juventude na política. “O jovem queria muito participar ativamente das decisões do país.”. Atualmente, sente que consegue “politizar” os assuntos de utilidade pública quando se direciona a jovens, mas não nota interesse quando se trata de política nacional. “O que existe é um sentimento antipolítica, onde as pessoas acreditam que a política é ligada a alguma ação criminosa ou a pessoas que não pensam realmente no povo”.

QUEBRA DE EXPECTATIVA

Cesar Agenor, professor doutor em cultura social pela Universidade Estadual Paulista, afirma que o afastamento da urna por parte dos jovens é um sintoma do crescente descrédito que as instituições políticas têm sofrido na sociedade brasileira. “As expectativas, as opções e as propostas apresentadas pelos postulantes aos cargos de representantes políticos parecem não conversar imediatamente com as expectativas deste público”.

Por conta disso, a falta de participação dos jovens, para ele, não é surpresa. “Se pensarmos que o primeiro emprego está cada vez mais difícil de ser alcançado e as notícias que envolvem nossa classe política estão em certa medida se misturando com o caderno policial, não é motivo de estranhamento que os adolescentes e jovens adultos partilhem de uma atitude de desinteresse pela política tradicional.”

Contudo, o professor não acredita que os espaços na política sejam fechados à participação dos jovens. “Tradicionalmente, nos partidos de esquerda, a participação de jovens sempre foi muito ativa, com as chamadas juventudes, que costumam atuar nos movimentos estudantis. Ao mesmo tempo, a porcentagem deste engajamento sempre foi baixa em relação ao conjunto deste público.”

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