Bernardo e Bianca na Terra dos Cangurus (1990)
É bastante estranho olhar a liste de animações da Disney lançadas durante a Renascença e se deparar com Bernardo e Bianca na Terra dos Cangurus entre os listados. O resto dessas obras formam um corpo de trabalho tão homogêneo, compartilhando diversos elementos em comum perfeitamente identificáveis, que ver este filme de 1990 que destoa tanto de todos eles ali o faz parecer como um penetra. Além de seus estilos, outra óbvia diferença é que a Renascença é responsável por trazer muitos dos filmes mais populares e conhecidos do estúdio, enquanto que Bernardo e Bianca na Terra dos Cangurus é possivelmente um de seus trabalhos mais desconhecidos e esquecidos pelo tempo — eu mesmo demorei anos da minha vida para finalmente assisti-lo, com a obra fazendo parte do seleto grupo de filmes (junto com As Muitas Aventuras do Ursinho Pooh, O Cão e a Raposa e a extrema maioria dos filmes feitos durante a Segunda Guerra) que eu nunca cheguei a assistir durante a infância. E quando eu finalmente parei para assisti-lo, três anos atrás, eu tive muita dificuldade de lembrar o que acontecia nesse filme quando eu refleti sobre ele mais tarde. Então… seria esse filme tão ruim assim? Teria ele feito por merecer seu lugar no ostracismo, ou é na realidade uma obra prima injustiçada e subestimada? Embarquem em suas águias e preparem-se para decolar, porque hoje estamos falando do filme que quase matou as sequências para a Disney para todo o sempre, Bernardo e Bianca na Terra dos Cangurus.
Como seu título sugere, Bernardo e Bianca na Terra dos Cangurus é uma sequência para a obra de 1977, Bernardo e Bianca, sendo assim a primeira sequência a ser de fato produzida pela Disney — durante sua história, ideias para continuações de filmes esporadicamente pipocavam por entre as paredes do estúdio, mas ou esta ideia era descartada, ou então o projeto acaba se transformando em outra coisa completamente diferente. Faz sentido que Bernardo e Bianca tenha sido o primeiro filme a ganhar tal tratamento pelas mãos dos animadores, porque ele foi estranhamente popular na época de seu lançamento, fazendo rios de dinheiro em um período onde a Disney estava mal das pernas, chegando até a superar a bilheteria do primeiro Star Wars, seu contemporâneo, em alguns países (apesar de que, hoje, o filme esteja longe de figurar o mesmo espaço que os grandes clássicos da Disney, não que ele seja desconhecido, ao menos é mais relembrado que sua continuação, mas a própria Disney parece evitar celebrar o filme, o que tem mais a ver com o período de sua história em que ele foi lançado do que com a obra em si). Mas nos anos oitenta, a Disney ainda não tinha se recuperado do estado calamitoso em que se encontrava, e não podia simplesmente se dar ao luxo de ignorar um de seus maiores sucessos recentes por ele estar associado a um período negro de sua história, e daí surge a ideia de uma continuação para Bernardo e Bianca, começando a ser escrita em 1986, e estreando nos cinemas em 16 de novembro de 1990, dirigida pelos estreantes Hendel Butoy e Mike Gabriel.
Bernardo e Bianca na Terra dos Cangurus conta primariamente a história de Cody, um menino australiano de fortes laços com a natureza e animais, que liberta uma águia rara de uma armadilha, mas, em troca é sequestrado pelo terrível caçador Percival C. McLeach, que quer extrair dele onde se encontra o ninho do animal. O sequestro do garoto chega até a sociedade dos ratos ajudantes, que decide mandar seus melhores agentes, Bernardo e Bianca, para a Austrália ajudá-lo. Lá, eles são auxiliados pelo rato-canguru Jake, que se interessa por Bianca, despertando os ciúmes de Bernardo, tudo enquanto ele tenta pedir a mão de sua parceira em casamento.
Fica evidente logo de cara o quanto Bernardo e Bianca na Terra dos Cangurus difere de praticamente toda a Renascença, o que justifica parcialmente o fato de ele ser ofuscado, por simplesmente estar agregado à um grupo bastante similar de filmes com o qual ele não possui muitos elementos em comum. Ao contrário de seus contemporâneos, o filme não é uma releitura de um conto de fadas em formato musical, não traz consigo aquele senso de ludismo e fantasia que esses filmes possuem, e não é tão atrelado a imagem que temos da Disney, imagem essa que foi cimentada durante este período de sua história, da companhia como sendo a casa de todos os contos de fadas e da magia infantil. Esse filme ainda é uma obra bastante infantil, e tem certos elementos fantásticos em si, como o próprio fato de seus protagonistas serem camundongos falantes, mas a sua maior identidade não é a de um conto de fadas fantasioso, musical e lúdico. Não, Bernardo e Bianca na Terra dos Cangurus tem muito mais em comum com seu antecessor, obviamente, e, consequentemente com os filmes daquela época, que precederam a Renascença, com suas histórias menos polidas e mais simples e inconsequentes, normalmente estrelando animais antropomórficos entrando em confusão, e sendo mais básicas. Mas este Bernardo e Bianca não se limitou e simplesmente ser idêntico ao original, e ele adicionou mais a este formato, o que conseguiu devido aos avanços técnicos do período em que foi feito e ao próprio momento em que a Disney se encontrava, estando mais bem estabelecida e segura de si do que estava no final da década de setenta, e, por isso, podendo ousar mais.
O que se foi adicionado neste segundo Bernardo e Bianca, que faltava no primeiro, foi um maior senso de aventura e de ação, fazendo com que ele se fechasse de forma mais épica e menos inconsequente que a obra de 1977. A própria identidade do filme foi pautada por este viés, e ele foi vendido de tal maneira em seu marketing à época de seu lançamento, ecoando muito mais filmes como Indiana Jones e Crocodilo Dundee, que estavam em alta durante o processo de produção desta obra — o final dos anos oitenta — do que A Pequena ou A Bela e a Fera. Até tentou-se trabalhar este viés na obra, se cogitando o uso de canções aqui, mas no meio do processo de produção a ideia foi descartada, quando se foi decidido que Bernardo e Bianca na Terra dos Cangurus apostaria a fundo no viés de aventura e ação, se aproveitando de sua ambientação nas florestas e no deserto australiano para se contar de forma mais frenética e aventureira, como um filme do Indiana Jones, indo de sequência épica para sequência épica, de forma rápida e agitada, sempre jogando mais e mais para o espectador, de forma a deixá-lo se agarrando à sua cadeira com a rapidez e a essência movimentada e extasiada da história. E, para a surpresa de muitos, o filme funciona muito bem assim.
Eu digo surpresa porque o primeiro Bernardo e Bianca era um dos filmes mais simples do estúdio, sendo bem básico e sem muitos acontecimentos marcantes, apesar de que, sim, haverem acontecimentos exuberantes e frenéticos naquele filme, mas ele não apostava totalmente neles e sempre voltava para sua zona de conforto, para alguma cena dos animaizinhos fofos em um momento cômico (sendo esse uma das minhas maiores críticas ao mesmo). Mas sua sequência aposta quase todas as suas fichas no campo frenético da aventura, e surpreendentemente este filme sobre dois ratinhos que quase ninguém conhece pode muito bem ser um dos filmes mais aventureiros e épicos da Disney, sabendo usar do gênero da ação em si de forma surpreendente, se utilizando das sequências épicas e agitadas para investir o espectador na própria narrativa, de forma a quase nunca deixar a peteca cair, e sempre jogando mais e mais momentos tensos em si, sem nunca ficar cansativo, e, pelo contrário só se tornando mais interessante de se acompanhar. Então sim, eu realmente gostei de Bernardo e Bianca na Terra dos Cangurus desta vez que o assisti, ele foi uma grata surpresa para mim, e fiquei me perguntando como posso tê-lo deixá-lo escapar de minhas memórias até mesmo depois de finalmente tê-lo assistido, porque o filme que eu assisti no presente momento é digno de ser notado. Existem pessoas que defendem este filme, dizendo que ele é uma das melhores obras da Disney, não devendo em nada para seus filmes mais famosos, e uma grande joia subestimada, e, sim, eu não sei se eu o colocaria neste patamar, mas após assistir ao filme, estou meio que inclinado a concordar que este filme merece mais reconhecimento do que tem.
Uma grande parte do que faz de Bernardo e Bianca na Terra dos Cangurus ser tão instigante e funcionar tão bem quanto uma obra de ação, assim como o maior trunfo da obra como um todo, é sua animação e toda a sua parte técnica, que elevam o filme a outro patamar e o fecham como um trunfo visual de toda a filmografia dos estúdios Disney em seus quase cem anos de história. É chocante ver o quanto a Disney avançou tanto em tão pouco tempo, se compararmos este filme com Oliver e sua Turma, de apenas quatro anos de distância, que ainda trazia muito dos vícios da xerografia, com sua arte mal-acabada e bastante pobre, enquanto que aqui os visuais estão perfeitamente realizados e magistralmente executados. É verdade que A Pequena Sereia já avançou bastante do filme de Oliver, mas Bernardo e Bianca na Terra dos Cangurus consolidou essa nova fase da Disney. O principal motivo para tal é que esta obra foi a primeira da casa do Mickey a ser inteiramente realizada com o sistema CAPS (Computer Animation Production System), que técnicos do estúdio realizaram com a recém-nascida Pixar, que havia sido apenas testado em momentos chaves de Oliver e sua Turma e A Pequena Sereia, mas só aqui passaria a ser usado como a técnica principal para se animar um filme. O CAPS simplesmente transformou o processo tradicional de animação, desenhado e pintado a mão, obsoleto, o que é uma pena, mas também se mostrou um processo muito superior esteticamente falando que a xerografia. Aqui, ao invés de uma fotocopiadora, os desenhos dos animadores eram reproduzidos digitalmente, no computador, junto com os planos de fundo, e a máquina não só possibilitava pintar esses desenhos digitalmente, mas dava total controle de composição aos animadores, com eles podendo brincar com objetos cênicos e com a montagem das cenas como um todo. Dessa forma, o resultado final se tornou muito mais polido e profissional do que não só o primeiro Bernardo e Bianca, mas muitos dos outros filmes da Disney como um todo, mais do que A Pequena Sereia, e de uma segurança que nós não víamos desde a era de Walt Disney com seus projetos desenhados inteiramente à mão. Para se notar a diferença de um Bernardo e Bianca para o outro, basta olharmos para o design dos personagens, com eles aqui estando muito mais bem-acabados, suaves e fluídos do que os do original (quiçá o mais feio, esteticamente falando, de toda a história do estúdio, sendo a maior vítima da pobreza e mal acabamento da xerografia). Assim, Bernardo e Bianca não só abriu o precedente para todos os filmes do estúdio por vir, que seriam realizados com o CAPS, mas também foi o primeiro filme da história a ser inteiramente feito de forma digital, sendo não apenas historicamente importante para a Disney, mas para o cinema como um todo, mesmo que sua existência tenha sido quase que inteiramente apagada com o passar dos anos.


Mas para além de sua importância técnica, como dito, o que a animação de Bernardo e Bianca na Terra dos Cangurus faz de melhor é como ela capitaliza e engrandece o senso de aventura e escala do filme, ajudando-o a se fechar de maneira muito mais épica do que se fecharia caso fosse feito com a animação pobre da xerografia. A coisa mais valiosa que os computadores trouxeram para os estúdios Disney foi justamente o senso de escala, com ele conseguindo capturar perfeitamente a amplitude e a vastidão das paisagens australianas, seja o deserto ou as florestas, todo o cenário é magistralmente polido aqui, e a atenção aos detalhes é exuberante. Isso é algo que eu notei também em A Pequena Sereia, mas que aqui foi elevado a máxima potência, e graças ao CAPS todos os filmes da Disney que se seguiriam poderiam ousar muito mais e ser ainda mais épicos e marcantes, ou seja, muito dos momentos mais icônicos da Renascença, como a manada de gnus em O Rei Leão, a valsa em A Bela e a Fera ou clímax em O Corcunda de Notre Dame beberam muito de Bernardo e Bianca na Terra dos Cangurus, que foi o pioneiro em muitos aspectos, o que o faz um dos filmes mais importantes não só para esta era, mas para as animações no geral. Os animadores viajaram para o deserto australiano, coisa que há muito não era feita em um filme do estúdio, para estudar com mais propriedade os cenários, chamando a atenção para a escala e a exuberância dos mesmos, fazendo com que cada cena focada na natureza seja de tirar o fôlego, e fechando o filme de forma extremamente cinemática e épica, essencial para uma história de ação e aventura. Os animadores também foram muito criativos em seu uso dos cenários, sobretudo quando estes são vistos pelos olhos dos titulares camundongos, que veem-no ainda mais grandioso e vasto e todo lugar para eles vira um ambiente totalmente místico e desconhecido, com os responsáveis pela animação sabendo muito criativamente brincar com o elemento da perspectiva desses animais, e dos diferentes usos que eles encontram para elementos que passariam despercebidos por nós humanos — como quando eles se utilizam de vagalumes como um meio de transporte para passar pela floresta.



A movimentação e a cinematografia neste filme também é incrível, com o CAPS também dando a possibilidade dos animadores de testarem mais com a câmera, seja seus movimentos, suas posições, ou até resgatando os efeitos da câmera multiplano, da época de Walt Disney, que permitia que a câmera adentrasse realmente os desenhos dos animadores, e se movimentasse por eles, dando uma maior sensação de ambientação ao público. Aqui, os responsáveis pelo filme dominaram essa liberdade magistralmente, usando da câmera de forma panorâmica e brincando com os ângulos para dar escala e amplitude a obra, deixando-a ainda mais instigante de se acompanhar. A movimentação dos personagens também é fenomenal, sobretudo a da águia dourada, Marahute, que se movimenta majestosamente pelos céus do filme — a sequência inicial da obra, que ela voa pelos céus carregando Cody é simplesmente perfeita, e não envelheceu um dia sequer. Aliás, toda a abertura do filme faz um trabalho perfeito, seja em seus cenários, no design nos personagens ou na cinematografia, a passar toda a sensação de aventura e ação frenética que o filme entregará por sua duração, e mostra perfeitamente o poderio desses elementos para se construir um filme. O animador Glenn Keane foi o responsável por animar Marahute, e o estúdio pediu emprestado uma taxidermia de um museu para que ele pudesse estudar o animal e os seus movimentos — o mesmo foi feito com todos os animais que aparecem aqui, que foram estudados quando os animadores foram para a Austrália, para capturá-los e seus movimentos de forma realista. Infelizmente, Marahute só pôde aparecer nas sequências de abertura e de encerramento da obra, por ser extremamente trabalhosa e cara de se animar, mas ela é a simbolização de toda a excelência visual e cinematográfica que permeariam toda a obra.

A única parte precária da animação, aqui, é quando ela resolve fazer uso do CGI em si, ao invés de simplesmente se utilizar dos computadores apenas para auxiliar os desenhos à mão, resolvendo criar objetos cênicos e cenários diretamente pelo computador. Esses elementos se provam notoriamente datados quando vistos pelos olhares atuais, como os prédios de Nova York, a Ópera de Sydney e o caminhão do vilão, Percival C. McLeash, que não mesclam bem com o resto da animação em 2-D e estão fortemente mecanizados e artificiais, ao contrário do resto da animação. Ainda assim, o uso do CGI é só um mínimo detalhe, com os animadores não abusando da técnica, felizmente, e provavelmente quando o filme foi lançado, a quase trinta anos atrás, esses elementos eram extremamente impressionantes de se ver e um avanço tremendo, ao invés de hoje, onde já se tornaram obsoletos e envelhecidos, com o CGI tendo tempo para se desenvolver e se aperfeiçoar neste meio tempo.
Além disso, também existe a trilha sonora. Eu disse anteriormente que este filme, ao contrário da extrema maioria das obras provindas da Disney, não possuía canções em si ou números musicais, e é verdade. Mas a trilha sonora instrumental mais do que compensa por esta falta, sendo mais um elemento que capitaliza em cima do senso de ação e aventura que a obra consegue construir, deixando-a ainda mais atmosférica e envolvente para o público, com o uso de instrumentos e ritmos aborígenos em cenas chave, fazendo do filme ainda mais épico e exótico, quando escutado por ouvidos ocidentais, junto com instrumentos de orquestra, que também ajudam a incrementar as cenas mais épicas de ação, deixando-as ainda mais tensas e frenéticas. No geral, o instrumental aqui é exemplar, e contribui ainda mais para a essência aventureira de Bernardo e Bianca na Terra dos Cangurus.
Então, sim, quando este filme se deu por encerrado eu estava surpreendentemente satisfeito com o que tinha acabado de assistir. Um filme que, apesar de simples, possui visuais estupendos, uma trilha sonora incrível e é magnificamente executado como uma obra de aventura. Eu provavelmente sempre irei preferir o primeiro Bernardo e Bianca porque, como eu disse no meu próprio texto sobre aquela obra, este filme fez parte da minha infância e eu sempre tive muito carinho por ele, mas até eu tenho que admitir que Na Terra dos Cangurus pode muito bem ser uma daquelas sequências raras que superam o original. Mas aí eu comecei a me perguntar — se esse filme é tão bom assim, por que eu parecia ter me esquecido completamente do mesmo após assisti-lo? Foi então que eu notei que, por mais que a obra possua muitos acertos, ela ainda é extremamente simples e básica, e não faz nada tão marcante com sua história quanto faz com seus visuais.
Porque, sim, Bernardo e Bianca na Terra dos Cangurus é um daqueles filmes que prioriza muito mais a construção de uma atmosfera, além de sua parte técnica, do que um enredo envolvente e particularmente criativo. Em seu cerne, é como eu disse, esta sequência de Bernardo e Bianca é mais um filme do estúdio estrelando animais antropomórficos entrando em algum tipo de aventura, sem fazer nada particularmente novo com essa fórmula, para além da já citada excelente animação, que deixa o filme muito mais polido e grandioso do que os seus antecessores, dos anos setenta e oitenta, que, graças ao estado calamitoso da Disney na época, se limitavam a serem o mais básico possíveis. Mas no que tange o roteiro, Na Terra dos Cangurus não inova muito, e isso contribui para o fato de ele ter se apagado de minha memória — por mais que ele seja extremamente bem-feito, não há muita substância para sustentar seus visuais, e o filme acaba como um espetáculo um tanto quanto raso. A história de Bernardo e Bianca na Terra dos Cangurus segue exatamente as mesmas batidas que o seu antecessor — uma criança é capturada e os protagonistas titulares entram em uma aventura para ir resgatá-lo, com nada muito que saia desse modelo ou se destaque, sendo um tanto quanto formulaico e previsível.
Cody não traz nada de muito novo aqui, sendo apenas a criança fofa do dia, substituindo Penny, do primeiro filme, e até Penny parecia mais bem construída que Cody, pelo fato de aquele filme dedicar mais tempo a ela, e de mostrar um pouco mais de sua personalidade, mostrando como ela sofria nas mãos da perversa Medusa e atentado para suas emoções e sentimentos naquela situação, enquanto que Cody não aparenta ter uma caracterização tão marcante; ele é só um garoto aventureiro que ama os animais, e tampouco parece estar de fato com medo do vilão aqui. Seu único objetivo e a única coisa que o move é seu carinho pelos animais, e não há tanto em seu personagem além disso, ele é apenas um arquétipo de um garoto bondoso e altruísta, nunca parecendo com uma criança de verdade (crítica que também atribuí à Penny).
Já Bernardo e Bianca estão ainda mais alheios ao enredo principal do que estavam no primeiro filme, porque eles praticamente não têm nenhuma conexão com Cody, como tinham com Penny, e os animais só encontram o garoto no final do filme. No resto da obra inteira eles são reservados à uma subtrama em seu próprio filme, e soam como o contragosto para o drama e Cody, servindo mais como alívios cômicos, e não possuindo um papel muito corpóreo no filme no final das contas. A obra tenta forçar um papel para Bernardo, com seu arco narrativo sendo superar seus medos e inseguranças e pedir Bianca em casamento, mas isso não funciona porque o filme nunca parece focar no camundongo, e toda a sua participação, como citado, soa como uma subtrama e uma adição tardia ao enredo, apenas para justificar sua participação na obra. No final, Bernardo atinge seu objetivo no filme, superando seus medos e sendo o principal responsável para salvar Cody, com o filme vendo a moral de que “não importa o seu tamanho, todos são capazes de feitos incríveis”, mas, novamente, isso não funciona, não só porque Bernardo soa como um figurante de luxo até o último terço da obra, que é quando o filme decide colocá-lo como protagonista, o que faz com que toda essa moral tenha caído do céu como um artifício tardio, mas porque Bianca e Bernardo não tem nenhuma conexão com Cody, com os personagens interagindo em menos de 3% do resultado final, então a conclusão do filme não flui muito bem e nem se interconecta com o resto da narrativa — até porque Bernardo não necessariamente aprende algo que o faz mudar de temperamento, ele é só covarde e medroso, até que deixa de ser, mais para que a história tenha uma moral do final do que algo que foi trabalhado e desenvolvido ao longo do filme.
Outro problema que eu tive com o filme é que, tirando as sequências de ação propriamente ditas, que deixam o espectador tenso e exasperado com o primor visual e com a direção confiante desses animadores, a obra meio que não inova muito e se mantém em sua zona de conforto, crítica similar a que tive com o primeiro Bernardo e Bianca. Ao invés de se focar no senso de aventura e descoberta por toda a sua duração, o filme deixa esses momentos apenas para sequências chaves de ação propriamente ditas, e nos outros momentos acaba se focando em elementos um tanto quanto bobos, e que ajudam a empobrecer o filme como um todo. Por exemplo, em um momento teremos a cena extremamente linda e fantástica de Cody voando em Marahute, mas ao invés do filme manter esse crescendo do épico e da aventura, ele reverte para alguma cena de Bernardo e Bianca servindo de alívio cômico. Mais uma vez, eu achei que faltou confiança dos animadores em apostar todas as suas fichas na ação, e eles preferiram voltar para o arquétipo infantil e um tanto quanto bobo que ditam a maioria dos desenhos animados, fazendo com que, em muitos sentidos, BeBNTDC pareça mais um episódio de desenho animado feito por uma lente cinematográfica, ao invés de um projeto cinematográfico propriamente dito. Comparemos isso com os outros filmes da Renascença, que cresciam preocupados em contar uma história envolvente e uma narrativa bem escrita, e Bernardo e Bianca inevitavelmente parecerá fraco e inferior. É mais fácil lermos este filme como um filme da Era das Trevas feito com o orçamento da Renascença do que como uma obra da Renascença propriamente dita, porque ele acaba tendo muitos dos vícios desta outra obra — o uso excessivo de alívios cômicos, como o albatroz Wilbur, que leva Bernardo e Bianca até a Austrália (ele é o irmão de Orville, o albatroz do primeiro filme — esta troca de personagens foi feita porque o dublador original de Orville faleceu antes desta sequência ser feita), que meio que não tem quase que nenhuma função na história e só aparece de tempos em tempos para quebrar a tensão da história principal, com momentos cômicos que realmente parecem ter vindo de um desenho animado, e não de um filme. Ou então os animais que Percival capturou e que compartilham a mesma cela que Cody, que também não acrescentam em praticamente nada, e só estão aqui para possuírem alguns momentos cômicos, e depois desaparecem da história — esse eu sinto que é o principal problema com Na Terra dos Cangurus; a falta de confiança dos animadores em sua própria visão, de criar um filme do Indiana Jones animado, sempre sentindo a necessidade de voltar para o que o público esperaria de um filme da Disney; animaizinhos fofinhos e piadas infantis, o que acabam quebrando a tensão e todo o senso de aventura que é perfeitamente construído pelo filme, em prol de algo mais básico e infantil.
Os melhores elementos de BeBNTDC, no que tange a história e o enredo, são, mais uma vez, seus vilões. Assim como Madame Medusa e Asdrúbal eram os grandes trunfos do primeiro Bernardo e Bianca, aqui, Percival C. McLeash e sua iguana, Joanna, também o são. Eu não diria que Percival é tão divertido quanto a espalhafatosa e perua Medusa, mas ele consegue entreter tanto quanto, sendo um típico vilão da Disney, perverso e maquiavélico, mesmo não sendo dos mais teatrais. Ainda assim, é divertido acompanhar suas maldades, ainda mais vendo o quanto ele se diverte as fazendo, e não poupa esforços para conseguir o que quer, chegando até a jogar Cody para os crocodilos. Percival também é notório por ser extremamente grosseiro com todos ao seu redor, e é aí que entra Joanna, sua iguana de estimação, e a mais constante vítima de suas maldades, com ele a chutando e a abusando de tudo o que é maneira, sempre prestes a atacar o animal, que sempre acaba atrapalhando seus planos por ser tão atrapalhado e incompetente — neste sentido, ela até que funciona como o Asdrúbal para a Medusa de McLeash, e os dois tem uma dinâmica igualmente cômica e interessante, com a dupla estrelando muitos dos melhores momentos do filme (aí está o exemplo de alívios cômicos bem integrados à narrativa, sem que venham de lugar nenhum e atrapalhem com o fluxo geral da história, como muitos deste filme).

Então, sim, eu gostaria que os animadores aqui tivessem se empenhado tanto no roteiro quanto se empenharam na animação e na construção da atmosfera, até porque a Renascença, mais uma vez, é marcante por sofisticar as histórias da Disney, e transformar suas narrativas, as deixando mais “complexas” e bem construídas, e a história de Na Terra dos Cangurus não deixa de ser bem simples e bem básica, não podendo muito bem se equiparar com seus contemporâneos, e acabando sendo engolido por A Pequena Sereia e A Bela e a Fera, seu antecessor e seu sucessor, respectivamente, não apenas porque os filmes possuem elementos em comum, e é mais fácil fazer a conexão entre eles do que com Bernardo e Bianca, mas porque eles são histórias mais “bem-feitas”, digamos, enquanto que a história de Na Terra dos Cangurus, mais uma vez, é extremamente simples, e provém mais da televisão do que dos cinemas.
Mas, com isso dito, eu não acho que a história fraca afunda o resto do filme e faz suas qualidades serem canceladas. Porque Na Terra dos Cangurus ainda é um filme extremamente divertido de se acompanhar. Ele não é tão cuidadoso com seu roteiro e seus personagens quanto o restante da Renascença, mas eu não acho que esse seja seu propósito. Claro que é óbvio que uma história bem escrita para acompanhar o senso de diversão seria cem porcento preferível aqui, mas o filme não tem a intenção de ser um A Pequena Sereia ou um Rei Leão, ele quer apenas ser uma aventura descompromissada e divertida. Acho que ninguém esperaria que uma sequência para Bernardo e Bianca seria uma das obras primas do estúdio, porque o primeiro filme também era bem simples, e a premissa de “ratos entrando em confusão” também não deixa subentendido uma história de outro mundo (os próprios livros que inspiraram Bernardo e Bianca eram livros infantis e despretensiosos, afinal) e este pega aquela fórmula e a aperfeiçoa, priorizando pelo senso de diversão e de aventura, mais do que pela história propriamente dita, e ele cumpre o que se propõem: ele diverte, e ele funciona como uma história de aventura, sabendo deixar o público tenso e estupefato com as suas sequências frenéticas e seus visuais épicos e grandiosos. Bernardo e Bianca acaba sendo um filme pequeno, assim como seus protagonistas, e não tem a capacidade de seus contemporâneos, de dialogar tanto com os adultos quanto com as crianças, se fechando mais para os pequenos do que para os demais, mas isso não é um problema se o filme cumpre com sua proposta de forma bem feita, e, no fim, Na Terra dos Cangurus faz exatamente isso, e se fecha de forma positiva.
Mas sabe quem teria um pensamento diferente do meu? Jeffrey Katzenberg. O filme falhou em seu fim de semana de abertura, arrecadando apenas 3.5 milhões, e ficando em quarto lugar, atrás de seus concorrentes; Esqueceram de Mim, Rocky V e Brinquedo Assassino 2, aquém do esperado pelo estúdio, o que fez com que Katzenberg simplesmente retirasse todo o marketing do filme, parando de promovê-lo e deixando-o morrer, o que é a maior explicação para seu esquecimento; ele não se dá tanto do contraste entre a obra e seus contemporâneos, apesar de isso ser um dos fatores, sendo mais uma decisão consciente de Disney, desde aquela época, de esconder Bernardo e Bianca na Terra dos Cangurus e guardá-lo na geladeira. Dizem as más línguas que Katzenberg já esperava o fracasso da obra em seu confronto com Esqueceram de Mim, que parecia apetecer mais às crianças do que uma continuação para um filme de treze anos atrás, e que esta decisão foi algo calculado.
É como disse o radialista Josh Spiegel: “Bernardo e Bianca na Terra dos Cangurus fracassou, mal fazendo 3.5 milhões em seu fim de semana de estreia, e Katzenberg tirou todo o marketing televisivo para o filme. Por conta própria, este não é o pior destino para um filme, mas prova que ele tinha zero confiança em sua capacidade de performar em uma época ideal do ano (o feriado de Ação de Graças). Aí é que está: a pior parte não é que Katzenberg cortou o marketing. É que a Disney programou Bernardo e Bianca na Terra dos Cangurus para falhar, estreando-o no mesmo fim de semana que um pequeno filme chamado Esqueceram de Mim, também conhecido como a maior bilheteria de 1990. Ele pode não ter previsto seu grande e duradouro impacto na cultura popular, mas Katzenberg provavelmente tinha informação o suficiente para indicá-lo que Esqueceram de Mim seria um monstro que destruiria tudo em seu caminho. Bernardo e Bianca na Terra dos Cangurus foi forçado a ser a vítima, naquele momento e depois.”
Agora, nós não temos como provar que estas de fato foram as intenções de Katzenberg, mas acredito que esta possível atitude está perfeitamente correlacionada a um padrão do executivo, com sua fama de ser alguém extremamente controlador e manipulador, não querendo que nada saísse de seu controle e que sua palavra fosse a definitiva em todas as ocasiões podem atestar (quem lembra quando ele decidiu por conta própria cortar cenas de O Caldeirão Mágico, mesmo com os protestos dos animadores para que ele não o fizesse?) E acredito também que o próprio futuro da companhia corrobora para esta leitura. BeBNTDC foi o primeiro filme a sair depois de A Pequena Sereia, filme que veio a definir o modelo que seria usado por todos os seus sucessores, algo que Katzenberg, sendo o chefe do estúdio da Disney à época, via como favorável e até delimitadamente determinou como sendo o futuro do estúdio; adaptações de contos de fadas em formato musical, lúdicas e fantasiosas. Katzenberg tinha uma visão definida de como ele queria que o futuro do estúdio seria em suas mãos, e mais do que aderir a esse futuro, Bernardo e Bianca na Terra dos Cangurus era muito mais um testamento do passado da companhia, não apenas por ser uma sequência de um filme antigo, mas por seguir o próprio modelo destas obras de outrora, sendo uma aventura com animais infantil e despretensiosa, algo que variava violentamente dos musicais de Katzenberg, que não via como algo assim poderia ter seu lugar entre as novas obras, preferindo sabotá-la — ou então isso é só uma teoria da conspiração feita por gente com muito tempo nas mãos.
Mas, independentemente disso, após o fracasso de Bernardo e Bianca na Terra dos Cangurus, a mensagem estava clara para a Disney; sem mais sequências. A partir de então, o estúdio passou a tratar continuações como projetos B, que não mereciam a devida atenção e tampouco eram dignas de estrearem nos cinemas. Isso não significa que o estúdio parou de produzi-las definitivamente. Não, Michael Eisner deu um jeito de burlar essa regra, ao mesmo tempo em que encontrou uma maneira de fazer com que elas não poluíssem a imagem dos grandes clássicos os colocando no mesmo balaio que eles. A resposta para isso foi o mercado do DVD e do VHS, maneira encontrada pela Disney de fazer dinheiro em cima de seus filmes que cresciam cada vez mais populares durante a Renascença, sem manchar a reputação de seu departamento e filmes cinematográficos. Assim, sequências passaram a ser produzidas por um estúdio menor e terceirizado, visando apenas serem lançadas como DVD e VHS para esvaziarem as prateleiras das lojas, capitalizando em cima da popularidade desses filmes, sem ter que manchar a reputação deles caso a sequência ficassem além do esperado, afinal elas não eram lançadas no cinema e tinham apenas a pretensão de fazer dinheiro — não preciso nem dizer que obviamente nenhuma dessas sequências conseguiram se equiparar a Na Terra dos Cangurus, sendo feitas apenas como caças níqueis preguiçosos e sem nenhum cuidado pelo seu próprio material. Por muito tempo, era assim que a Disney via suas sequências; projetos B, não merecedores de nenhum cuidado ou respeito, e apenas vendidas como doces em uma máquina automática, o mesmo produto sem qualquer valor nutritivo, só mudando a embalagem. E tudo isso graças ao fracasso deste filme de 1990.

No entanto, parece que a relação da Disney com sequências está prestes a mudar, após vinte e oito anos desde que Bernardo e Bianca apareceram nas telas grandes pela última vez. Parece que a relação da PIXAR e da Dreamworks com suas sequências, não mais vistas como um brinde para os fãs e sim como filmes tanto quanto seus primeiros filmes, estreando nos cinemas e tudo, parece ter mudado a relação da casa do Mickey com essas continuações, como Detona Ralph 2, ou Wi-Fi Ralph, que estreará ainda esse ano nos cinemas (mais a já confirmada sequência para Frozen) parecem atestar. Eu não sei se essas sequências farão jus aos seus respectivos originais ou se serão apenas uma versão das sequências preguiçosas da Disney com um maior orçamento, mas se elas se inspirarem em Bernardo e Bianca na Terra dos Cangurus, vão estar no caminho certo.