Jovens Titãs em Ação! Nos Cinemas (2018)

Miguel Serpa
Sep 2, 2018 · 21 min read

É oficial, a DC Comics deveria abrir mão de tentar montar um universo cinematográfico e apenas fazer graça de si mesma nos cinemas. Ou ao menos é isso que as respostas para os últimos filmes da editora têm indicado. Se os grandes blockbusters sombrios e sérios em live-action evolvendo Batman, Mulher Maravilha e seus amigos tem encontrado dificuldade em agradar o público e a crítica, as paródias animadas deste universo vem carregando o peso da reputação da editora sozinhas, primeiro com LEGO Batman, ano passado, e agora com a versão cinematográfica do “amado” desenho Jovens Titãs em Ação, que surpreendendo a todos, recolheu críticas favoráveis e se fechou de forma extremamente positiva.

Ou será que não?

Jovens Titãs em Ação é um desenho animado lançado em 2013 no Cartoon Network. Um reboot/paródia do desenho Jovens Titãs, de 2003, por si só baseado nos quadrinhos da equipe de heróis homônima da DC, este desenho logo se tornou notório por entre a comunidade dos fãs de desenho animado por ser o pivô de tanto ódio e desprezo. Motivos para isso incluem o humor juvenil e escatológico que dita a maioria dos episódios e o senso de bobagem que permeia a serie inteira. Ao invés de ter a pretensão de contar uma história contínua por entre os seus episódios e se levar minimamente a sério, Jovens Titãs em Ação é totalmente jocoso e basicamente composto de piadas em sucessão, sem que necessariamente o humor seja particularmente criativo, e isso em um período onde os desenhos animados estão começando a ousar mais e não ficando presos a bolha infantil e boba, com séries como Hora de Aventura, Steven Universo e Gravity Falls sendo mais criativas e possuindo de fato uma história corpórea a ser contada, ao invés de serem compostos apenas de episódios soltos, o que chamou a atenção de muitos jovens e adultos, e Jovens Titãs em Ação meio que vai contra toda essa ideia, se mantendo no arquétipo bobo e demasiadamente infantil que normalmente ditam os desenhos.

Mas o principal motivo para este pequeno desenho gerar tanta discussão e irritabilidade em muitas pessoas está mais ligado a o que ele é baseado e menos a o que ele é, com Jovens Titãs de 2003 tendo uma devota legião de fãs, sobretudo entre pessoas da minha geração, que cresceram com o desenho, com sua história mais “madura” e “corpórea”, e uma maior profundidade para além de piadas em sucessão, fazendo com que estas pessoas, que possuem uma relação afetuosa com o desenho original, vejam esta paródia como um desrespeito e um grande dedo do meio não só para o desenho original como para os fãs.

O problema com esta reação exagerada não vem tanto do fato de Jovens Titãs em Ação estar acima de críticas e nem nada do tipo, mas mais do que geradas por críticas justas e construtivas ao desenho, muitas das reclamações vem de um senso desses fãs de que eles tem “direito” sobre a franquia, e que se algo envolvendo esses personagens não for feito com a principal e única intenção de agradá-los, mesmo tendo em vista que eles já cresceram e que nem de longe se enquadram no público alvo do Cartoon Network, eles tem todo o direito de expressarem seu ódio não apenas para com o desenho propriamente dito, mas até com as pessoas envolvidas na produção do mesmo, chegando ao ponto de levarem seu descontentamento para as redes sociais e atacar estes profissionais. Como citado, eu não defendo que qualquer coisa que seja esteja acima de críticas graças a seu público alvo, do tipo, “se isto é feito para crianças, nenhum adulto pode reclamar”. Eu até acredito que este tipo de declaração seja bem problemática pois dá a entender que contanto que algum produto seja vendido para crianças, ele não precisa se preocupar com manter o menor nível de qualidade, afinal crianças são burras e não tem senso crítico, e assistirão qualquer coisa que nós colocarmos na frente delas — eu acho essa noção bem desrespeitosa. No entanto, mais do que motivados por críticas justas e construtivas, estes ataques à Jovens Titãs em Ação vem mais por parte do público mais velho de acreditarem deter total direito sobre os Jovens Titãs, e se recusarem a admitir que talvez sua irritabilidade com o desenho esteja mais ligada à nostalgia e a não querer abrir mão de um de seus desenhos da infância, sendo que nada envolvendo esses personagens poderia se equiparar a como essas pessoas se sentiam os assistindo quando crianças — porque eles cresceram e amadureceram, e isso é algo que me incomoda muito.

E o pior é que com o tempo o ódio envolvendo Jovens Titãs em Ação deixou de ser algo vindo de um grupo de nostálgicos, e se tornou exaustivo. Logo virou legal e descolado falar mal desse desenho, e para todo lado choviam críticas a ele, sendo elas justas ou não. Eu mesmo comecei a falar mal do desenho sem nunca ter parado para assistir um episódio inteiro do mesmo, e eu não duvido nada que outras pessoas tenham feito o mesmo. Eu só comecei a refletir sobre o quão tóxica e ridícula essa atitude era quando parei para re-assistir o Jovens Titãs de 2003 e percebi que ele está longe de ser essa obra prima que muitos afirmam que ele é quando olhado pelas lentes da nostalgia — sem querer me estender muito, mas o desenho está longe de ser complexo, e, apesar de existir sim uma maior preocupação com a continuidade e de manter um enredo por entre os episódios, muitos deles são extremamente bobos, assim como as pessoas acusam Jovens Titãs em Ação de ser, servindo apenas para encher linguiça e ocupar espaço enquanto os episódios realmente importantes para a história não chegam — e nem para serem fillers divertidos e engraçados, a maioria deles soa extremamente preguiçoso e sem um pingo de esforço por parte dos roteiristas. Eu poderia me estender mais nos problemas com Jovens Titãs, mas para o propósito desse texto, digamos apenas que voltá-lo a ele já mais velho meio que quebrou com o feitiço da nostalgia e eu comecei a encarar a nova versão dos titãs mais racionalmente, e pensando que talvez todas essas críticas ao mesmo não fossem cem porcento justas, afinal não só as pessoas que atacam o desenho não são o público alvo do mesmo, a premissa dele é literalmente funcionar como uma paródia do desenho original, e não como uma continuação oficial e que manteria o tom e o estilo do mesmo.

Então sim, ainda sem assistir Jovens Titãs em Ação, eu comecei a defendê-lo dos haters, e, quando o trailer para seu filme saiu eu me peguei, surpreendentemente, me divertindo o assistindo, e comecei a ficar ansioso para poder vê-lo nos cinemas. Minha animação aumentou quando as críticas para a obra começaram a sair, e a maioria delas eram bastante positivas, não apenas porque eu queria de fato ver o filme, mas porque eu via isso como uma redenção do desenho, e um grande dedo do meio para os nerds chatos de vinte anos que o criticavam e criticam incessantemente — eu comecei a torcer pelo filme, e de fato queria que ele se fechasse de maneira bem sucedida. Jovens Titãs em Ação! Nos Cinemas (o título do filme em questão) logo virou possivelmente um dos filmes que eu mais aguardei neste ano de 2018, mais até que Incríveis 2 por exemplo, e agora que a obra finalmente chegou no Brasil e eu finalmente pude assisti-la eu posso dizer, sem sobra de dúvidas, que o resultado final é… ok.

Neste filme para o desenho, Robin, o líder da equipe, deseja ter o seu próprio filme, tendo em vista que nesta era dos blockbusters de super-heróis que estamos vivendo, aparentemente todos eles, mesmo os mais obscuros, possuem sua redenção nas telas de cinema. O problema é que não apenas Robin, mas os jovens titãs no geral, compostos também por Estelar, Ravena, Ciborgue e Mutano, são vistos como uma piada pelo resto do mundo, não sendo dignos de seu próprio filme. Para reverter isso, a equipe decide procurar o seu próprio arqui-inimigo, acreditando que todo super-herói digno tem um inimigo mortal, e o encontram na forma de Slade, que quer roubar um diamante precioso.

Então… pois é, eu não gostei tanto deste filme quanto eu gostaria de ter gostado, mas isto não quer dizer que ele seja ruim. Pelo contrário, ainda é uma experiência divertida com alguns momentos genuinamente engraçados aqui e ali, mas, no geral, ele acaba sendo um filme bastante comum de super-heróis, e não a sátira hilária que os trailers me venderam. Apesar de que, para ser justo, provavelmente este filme teve o efeito contrário em mim do que ele teve na maioria das pessoas, isto é, enquanto que o resto do mundo esperava o pior e recebeu um entretenimento perfeitamente agradável, eu esperava uma comédia hilária e revigorante, e me vi com apenas um desenho ok, o que, sim, não é tanto culpa do filme em si, e sim das minhas expectativas altas demais para um filme baseado em um desenho animado, sobretudo um desenho tão básico quanto Jovens Titãs em Ação, mas para além das minhas expectativas, eu admito que a obra cumpre o que propõem, e que quem for assisti-la poderá sim se entreter por noventa minutos.

Acho que o que mais me desapontou envolvendo o filme foi justamente a comédia, que é basicamente 99% desta obra, mas que não é tão divertida e criativa quanto eu acreditei, pelos trailers, que ela seria. Não é segredo para ninguém que nós estamos vivendo durante o boom dos filmes de super-herói, e não demorou muito para esta saturação do mercado cinematográfico gerar uma resposta, na forma de paródias, como os filmes do Deadpool e o já citado LEGO Batman. Jovens Titãs em Ação! Nos Cinemas vai pelo mesmo caminho, tendo sua gênese inteiramente pautada em parodiar e fazer piadas metalinguísticas envolvendo o gênero dos super-heróis, principalmente, mas não só, o universo da DC Comics. E, sim, ele entrega isto. O filme inteiro é composto de piadas metalinguísticas comentando não só sobre o gênero dos super-heróis mas sobre o cenário atual da indústria cinematográfica, com menções até bastante obscuras a heróis B que apenas os mais ávidos fãs conheceriam (e eu admito que teve uma boa leva de piadas que não peguei). O fato de o próprio enredo do filme ser os heróis protagonistas quererem o seu próprio filme, e de ele se passar primariamente em um estúdio de cinema, dá ainda mais liberdade para que estas piadas pipoquem e soem orgânicas aqui. Mas acho que o problema maior envolvendo estes momentos metalinguísticos foi justamente os trailers e o material promocional, que entregaram os melhores momentos já de cara, e deixaram poucas surpresas na hora de assistir o filme de fato. Quando eu vi o trailer pela primeira vez, eu me peguei dando gargalhadas com muitas das piadas, ainda mais pelo fato de haverem diversas surpresas e referências bastante específicas, que eu como um fã da DC consegui pegar, e me diverti ainda mais as decifrando e reconhecendo, só que na hora de ver o filme tudo aquilo já estava velho, e eu já havia visto tudo de mais importante que havia ali. E esse é o problema com muitos trailers, entregar demais a ponto de que ver o trailer é basicamente a experiência de ver o filme em si, e é por isso que eu até evito ao máximo assistir a eles. Mas a primeira vez que eu assisti o trailer para Jovens Titãs em Ação foi justamente no cinema, e eu gostei tanto que fui caçar o resto do material promocional na internet, e, para a minha não-tão-surpresa-assim, isso meio que deixou o filme mais previsível e engessado na hora de assisti-lo de fato. Eu também pensei que talvez o fato de eu ter assistido ao filme dublado possa ter enfraquecido as piadas, não que a dublagem seja ruim, ela faz um excelente trabalho, mas devido às inevitáveis adaptações que vem junto com a mesma, muito do repertório talvez tenha se perdido na tradução — a ver.

Mas acredito que haja um problema ainda maior em Jovens Titãs em Ação! Nos Cinemas, que é o fato de, como citado, ele ser basicamente composto de 99% de piadas, o que não é totalmente um problema, mas pode deixá-lo cansativo para alguns. O filme é simplesmente um grande meme de noventa minutos, e ele não para de jogar mais e mais momentos cômicos para o expectador, sem qualquer substância para além desses momentos cômicos — o que não deveria ser uma surpresa considerando que o próprio desenho de onde este filme veio é assim. Mas aí é que está, existem diferenças entre um desenho animado para a televisão de onze minutos e um filme cinematográfico de noventa. Se espera que na hora de migrar para o cinema, estas obras se remodelem, e tentem desenvolver de fato uma narrativa corpórea e algo que invista o espectador, e que justifique de fato sentar e acompanhar estes personagens por uma hora e meia, diferente do desenho que é basicamente uma esquete de dez minutos, o que faz com que seu descompromisso e ritmo frenético não se torne cansativo. Jovens Titãs em Ação, tenta, parcialmente, desenvolver uma narrativa mais cinematográfica para si, com um enredo definido em três atos, mas tirando sua estrutura, ele ainda é basicamente inteiramente permeado apenas de piadas do início ao final, com nada de muito marcante as ligando. É mais como se a história estivesse em segundo plano para os momentos cômicos e não o contrário. Comparemos isso com LEGO Batman, por exemplo, outra animação que parodia filmes de super-heróis; aquele filme tinha milhares de piadas metalinguísticas em si, sim, mas ele ainda tinha substância por debaixo de seus panos. Aquele filme não foi simplesmente feito como uma desculpa para jogar diversas piadas de quebra de parede ao espectador, como Jovens Titãs parece ser, e ele tinha um propósito para além disso, seus personagens eram interessantes e possuíam arcos narrativos, ele possuía um tema ditando a história e até momentos onde parava minimamente com as piadas e nos deixava conectar com seus personagens — ou, melhor ainda, ele mesclava esses momentos mais intimistas com as piadas. Jovens Titãs em Ação! Nos Cinemas não consegue fazer nada de tão sofisticado assim, e realmente aparenta ser um especial de televisão que conseguiu ser distribuído nos cinemas. Sem falar que as próprias piadas metalinguísticas de LEGO Batman estavam mais bem inseridas dentro do universo do mesmo, isto é, elas tinham uma conexão maior com a história, e não apenas eram jogadas para o público como uma piscadela ao espectador, que é o que acontece em Jovens Titãs, as deixando repetitivas, e não possuindo o mesmo efeito que neste outro filme.

O problema maior, no entanto, é que, apesar de ser claramente uma comédia, e sua motivação maior ser as piadas metalinguísticas mais do que qualquer coisa que aconteça de fato durante o enredo, Jovens Titãs em Ação! Nos Cinemas ainda tenta se conectar com o espectador de fato, em momentos onde abre mão das piadas incessantes e tenta ser mais emotivo e emocional, querendo que nós nos importemos com estes personagens, o que não funciona, devido a dissonância entre esses momentos mais pessoais e as piadas incessantes e claustrofóbicas que ditam o filme praticamente inteiro. A obra não trabalha organicamente uma conexão do público com os personagens, porque nunca para com seu ritmo frenético e cômico, e nunca permite que nós conhecemos estas figuras para além de arquétipos cômicos e jocosos, o que faz com que quando a história demanda um maior investimento emocional do público, esses momentos caiam do céu e não surtam efeito. Eu teria preferido muito mais que o filme fosse 100% cômico e se assumisse como tal do que tentar casar sua comédia com momentos “tocantes” porque isso quebra o fluxo do filme, e acaba falhando no final das contas.

E isso também acaba criando um rombo na obra como um todo que é, ao mesmo tempo sua vontade de ser uma paródia dos filmes de super-heróis, fazendo piadas de todas as convenções e clichês possíveis do gênero, e outras quando abraça todas essas convenções e clichês, e acaba se fechando como um filme de super-herói comum — por exemplo, a premissa básica do filme é que os Jovens Titãs são vistos como uma piada pela comunidade de heróis, tal qual pelo mundo como um todo, devido a serem extremamente incompetentes em seus trabalhos. Ok. Mas tirando o início da obra, que é quando eles são introduzidos, e são de fato mostrados como incompetentes, o resto da história os mostra como um grupo de heróis perfeitamente funcional, e eles são bastante capazes até de combater o crime e de atingirem seus objetivos, então meio que a premissa do filme de parodiar os filmes de herói se cancela, e ele se fecha como… mais um filme de herói, com seus protagonistas agindo como super-heróis comuns, que combatem o crime e lutam contra seus inimigos. Seria uma coisa se a obra chamasse a atenção para isso, e fosse uma paródia autoconsciente, como, para citar mais um filme da franquia LEGO, Uma Aventura LEGO, que é uma paródia dos grandes blockbusters de ação e aventura, sobretudo os que empregam a jornada do herói, e adota justamente a fórmula destes filmes para não apenas comentar e fazer piadas sobre ela, mas para desconstruí-la ao longo do filme. Só que mais do que adotar o que está parodiando, Jovens Titãs em Ação! Nos Cinemas renega isso e vai pelo caminho contrário, ao mesmo tempo em que abraça todos esses elementos, e uma coisa acaba cancelando a outra.

Mas, como citado, a história está longe de ser o principal aqui, e ela é só um veículo para que o filme possa nos bombardear de piadas, e, sim, a maioria dessas piadas é de fato divertida, mesmo que eu particularmente estivesse esperando que elas fossem mais divertidas ainda, mas eu me peguei rindo no cinema com as constantes referências ao universo da DC Comics, e a filmes de super-herói no geral, então eu não diria que o filme falha como uma comédia. Ele ainda é bastante divertido, e muitas das piadas são criativas, mesmo que a maneira com que elas sejam introduzidas na história seja meio que aleatória, com o filme simplesmente nos bombardeando a todo momento com elas de maneira não tão sofisticada assim. Mas ainda assim, existem as outras piadas do filme, que não são tanto de quebra de quarta parede, e mais alinhadas ao humor mais típico do desenho, piadas de cunho escatológico, mais juvenis e bobas, que não são nem de longe tão divertidas assim, e que podem se tornar bastante repetitivas e cansativas, contribuindo para, como eu disse, a sensação de que Jovens Titãs em Ação! Nos Cinemas não passe de um meme cinematográfico, com as constantes piadas de pum, cocô e adjacências que permeiam pelo filme. Elas não me incomodam tanto, apesar de que eu acredito que os roteiristas poderiam tê-las dosado de forma melhor e menos sufocante durante o filme, mas eu entendo que esta é a identidade da série, e que o público alvo da mesma, as crianças, pelo menos as que estavam no cinema comigo, pareciam estar se divertindo bastante com esses momentos, então eu não posso muito bem culpar o filme por ter se mantido fiel à sua identidade. Mas, sim, assistindo a esse filme eu entendi algumas críticas que o desenho recebe, e percebi que talvez ele não seja o meu produto favorito de todos, e que talvez eu não devesse ter sido tão rápido para defendê-lo, assim como eu fui extremamente rápido para criticá-lo, e que talvez eu devesse ter esperado para me familiarizar com a série antes de me posicionar quanto a ela. Enfim.

Mas algo que eu realmente gostei nesta obra, além de parte das piadas, é a sua outra pegada metalinguística, para além dos filmes de super-heróis. Sim, porque para além de piadas que dizem respeito ao próprio gênero desta obra, Jovens Titãs em Ação! Nos Cinemas também tinha coisas para dizer sobre a si mesmo e a própria maneira com que ele é recebido. Veja bem; todo o ponto deste filme é o de que os Jovens Titãs são vistos como uma piada e que o mundo inteiro os despreza e não leva eles a sério, com todos os noventa minutos da obra sendo reservados para eles tentarem limpar suas imagens. Isso é genial. Uma excelente maneira de comentar sobre a reputação do desenho dentro do universo, e terminar como um grande dedo do meio para os seus detratores — com a moral do filme como um todo sendo a de que, sim, os titãs são uma piada, mas é isto que faz deles quem eles são e com os mesmos se aceitando desta maneira — o que espelha o próprio argumento de muitas pessoas que defendem o desenho, de que, sim, o desenho é extremamente bobo, mas é este o seu propósito; ser uma paródia dos Jovens Titãs original, e, portanto, uma grande piada. Eu realmente adorei a maneira com que os roteiristas encontraram de dialogar com os detratores do desenho dentro do próprio filme, e de acabarem o celebrando e o valorizando no final das contas. Isto não é algo novo; desde que o ódio em cima de Jovens Titãs em Ação começou a ficar onipresente, vários episódios da obra se voltaram para o humor autodepreciativo, se juntando com os detratores e atacando a si mesmos, como uma forma justamente de parodiar esses ataques, e são justamente esses episódios que são os mais populares e chamam mais atenção, pipocando em diversos lugares da internet, o que justifica eu já ter visto esses trechos de humor depreciativo do desenho mesmo sem ter assistido a um episódio inteiro do mesmo. O filme vai pelo mesmo caminho, pegando o humor metalinguístico e depreciativo que funcionou no desenho original e o colocando totalmente em foco aqui, o que, como citado, é uma sacada de mestre por parte dos responsáveis pelo filme.

E talvez o mais genial ainda foi o fato de o filme meio que forçar todos os seus detratores a irem ter que assisti-lo nos cinemas, pois, segundo uma das dubladoras originais em seu twitter, se este filme fosse bem de bilheteria, isto seria um incentivo para o Cartoon Network reviver os Jovens Titãs original, aquele desenho que todos os haters de Ação amam e falam sem cerimônias que é extremamente superior a este reboot — corroborado pela cena pós-créditos, onde os titãs do desenho original aparecem. Eu não estou tão entusiasmado quanto o possível retorno de Jovens Titãs como os demais porque, como citado, eu estou longe de achar que ele é o melhor desenho já feito e uma obra prima digna de Michelangelo, mas ainda assim tiro meu chapéu por essa armadilha magnificamente criada pelos responsáveis pelo desenho e pelo filme, como um último deboche para seus críticos, mostrando que aquele desenho bobo e ridículo talvez não seja tão bobo e ridículo assim.

Tudo isso me leva para a parte técnica do filme, que é bastante simples. Se você acompanha a comunidade dos desenhos animados, deve saber que para além de Jovens Titãs em Ação, outro elemento que gera comoção negativa e desperta o ódio de muitas pessoas é o estilo artístico de muitos dos desenhos atuais, que foi apelidado de Calarts Style, por, supostamente, ter sido popularizado pelo Instituto de Artes da Califórnia (CalArts); traços minimalistas, formas geométricas, o uso excessivo de cores pastéis e a prioridade em fazer tudo parecer “fofo” são talvez os elementos mais comuns deste dito estilo, e exemplos para onde podemos encontrá-lo são o que não faltam, com Hora de Aventura, Steven Universo, Clarêncio e, sim Jovens Titãs em Ação sendo todos exemplos de séries que adotam o estilo. Eu não vou adentrar muito nesta discussão, até porque existe mesmo um debate se o dito estilo CalArts é algo que realmente existe ou um termo inventado pelos fãs de animação, mas eu não particularmente odeio-o como todos os outros parecem odiar. Eu acho um estilo simpático e fofo, e eu gosto da essência minimalista do mesmo, apesar de eu entender que o descontentamento com o estilo não vir tanto dele em si, e sim da abundância do mesmo, parecendo que ele se tornou a norma, e que cada vez menos desenhos animados estão experimentando com novos traços e estilos, e repetindo o mesmo modelo de novo e de novo, e eu não posso argumentar contra isso, afinal uma indústria criativa que não inova e não se permite é uma indústria criativa morta (apesar de que estilos homogêneos de desenhos animados já permearam muitos anos da indústria, como na década de quarenta e na década de noventa, e foram superados, sem ninguém ter morrido por causa disso).

Enfim. Toda esta introdução é para dizer que, sim, Jovens Titãs em Ação! Nos Cinemas foi feito no estilo CalArts, se mantendo na mesma escala do desenho animado, com seu design de personagens minimalista e lotado de tons pastéis, e a preferência por figuras fofas e simpáticas acima de qualquer outra coisa o que, não surpreendentemente, incomodou algumas pessoas, e sim, eu entendo, e até concordo com essas críticas. Isso se amarra novamente com o fato de o filme todo parecer um especial de TV que foi promovido para o cinema, e a arte do filme é extremamente básica e parece bem mais com algo vindo da TV do que algo cinematográfico, apesar de, em si, eu gostar do estilo da arte dos Jovens Titãs em Ação. Como eu disse, o estilo em si não me incomoda, e eu acho que ele combina com o universo criado para o desenho, eu acho o design dos personagens fofos e simpáticos, e os tons pastéis muito me apetecem. Mas sim, a arte no geral está bastante básica e pouco ousada, apesar de os animadores terem a engrandecido um pouco para que estivesse mais alinhada a convenções cinematográficas, com planos de fundo mais vastos e amplos, que dão uma sensação maior de escala, e as próprias cenas de ação sendo frenéticas, robustas e engajadas, com os ângulos de câmera e a movimentação dos personagens sendo realizados de forma que façam o filme se destacar e parecer mais épico, mesmo que, em sua essência tudo seja extremamente simplório.

E existem algumas, poucas, sequências, onde o filme brinca com estilos diferentes, com novos traços e uso de cores distintas, que deixam-o mais eclético e criativo. São momentos chave da história, e normalmente envolvem músicas — sim esse filme tem músicas originais, e cada uma delas tem meio que um “videoclipe” que empregam esses estilos variados, o que é algo bastante bem-vindo, mesmo que as músicas em si não sejam nada demais. Além disso, por mais que a direção artística não seja das mais absurdamente criativas, ainda é válido que, na era do CGI, uma animação feita tradicionalmente consiga ser amplamente distribuída nos cinemas.

No fim das contas, Jovens Titãs em Ação! Nos Cinemas não é nem a bomba que muitos esperavam que fossem, e nem a experiência hilariante que eu desejava, mas um entretenimento válido, e que cumpre o seu propósito de forma eficaz; entreter, e entreter sobretudo as crianças. Sim, porque, por mais que eu ainda não ache que dizer que qualquer crítica a qualquer coisa seja inválida por conta do público alvo, ainda mais porque isso implica que qualquer entretenimento voltado para as crianças tenha passe livre para ser horrível, no final das contas vão ser as crianças que vão dizer o que elas gostam ou não, e cabe ao resto de nós respeitá-las. Eu vi esse filme em um cinema lotado de crianças, mais do que eu esperava que fossem assisti-lo (porque, segundo consta, ao menos nos Estados Unidos ele não foi incrível de bilheteria) e elas realmente se divertiram do início ao fim do filme, dando gargalhadas atrás de gargalhadas, e, ao sair do cinema, muitas estavam cantando as canções da obra, e conversando umas com as outras sobre o que tinham acabado de ver. Isso me faz lembrar de que, realmente, Jovens Titãs em Ação não é feito para agradar pessoas como eu, que cresceram com o desenho original, e sim para toda a nova geração de crianças, que não conheciam esses personagens, e que agora estão tendo a oportunidade de vê-los em ação (desculpa) pela primeira vez. Porque talvez exista um motivo para que este desenho que muitos consideram como sendo terrível e malfeito tenha conseguido um filme — o fato de ele ter encontrado popularidade com o público certo. Se estas crianças vão crescer e olhar para este desenho com memórias afetivas, ou reconhecerão ele como uma obra inferior, não sou eu que sou capaz de dizer (e às vezes uma coisa não contradiz a outra — oi, Jovens Titãs de 2003), o que eu sei é que ver aquelas crianças saindo dos cinemas animadas e respectivamente entretidas me lembrou de quando eu era criança e ia assistir animações do cinema, e eu não entendo como há um grupo de pessoas que já tiveram seu momento de diversão na infância consumindo animações querendo tirar essa alegria da nova geração e querendo determinar o que elas devem ou não achar bom. Porque não é como se Jovens Titãs em Ação estivesse ativamente a ensinando más lições ou as encorajando a se comportar mal ou nada do tipo, então pra que esse boicote todo? Eu só espero que agora que, talvez, o velho Jovens Titãs retorne, os fãs antigos reconheçam o seu espaço, e deixem que toda a nova geração de crianças tenha seu momento para conhecer e apreciar o desenho que eles reconheçam como “digno”.

Mas, no fim das contas, a lição que eu realmente aprendi com Jovens Titãs em Ação! Nos Cinemas não foi que é ok um desenho ser bobo e idiota, e nem foi uma epifania no que tange o passar das gerações, e sim que eu tenho que realmente parar de ser tão oito ou oitenta e esperar minimamente para me posicionar em relação a alguma coisa. Como eu disse, Jovens Titãs em Ação! Nos Cinemas; nem a bomba atômica que o resto do mundo esperava, e nem o melhor filme do milênio que eu desejava, apenas um entretenimento divertido, e se isto é o suficiente para seu público alvo, talvez isso seja o suficiente para mim também.

P.S.: Também tem um curta antes do filme. Ele é claramente apenas uma estratégia para promover a nova série animada da DC; DC Superhero Girls, que acompanha as heroínas da editora. O curta estrela Batgirl, Mulher Maravilha e Supergirl lutando contra o Sr. Frio e é bastante esquecível, mas perfeitamente aceitável para um mero teaser pra um desenho. Eu só não sei se eu teria particularmente vontade de assistir esse desenho, mas tá valendo.

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