Mulan (1998)

Se Pocahontas e O Corcunda de Notre Dame eram tentativas de tentar recriar o estilo mais polido e sofisticado que A Bela e a Fera tinha conseguido atingir e que rendeu-lhe uma indicação ao Oscar, e Hércules era uma tentativa de copiar o estilo de Aladdin ao ser mais leve, irreverente e assumidamente cômico como esta outra obra, Mulan é o primeiro filme desta segunda leva da Renascença a deixar essas pretensões de tentar recriar obras específicas de lado em uma tentativa de capitalizar em suas respectivas popularidades, e se permite ser seu próprio filme. Claro que o mesmo ainda se mantém fiel à fórmula da Disney de maneira mais generalizada, sendo uma adaptação contemporânea de um conto folclórico que segue uma protagonista em sua jornada de autodescoberta, acompanhado de números musicais e alívios cômicos, mas ao ser menos delimitado por ter que recriar uma obra em específico, Mulan pode construir sua identidade própria ao redor disso e, assim, foi um dos que mais chegou perto de atingir os níveis de popularidade e aclamação das as obras do início dos anos noventa.

Desta vez, o estúdio e os animadores foram buscar inspiração no folclore chinês, mais especificamente se inspirando na lenda de Hua Mulan. Segundo consta, Hua Mulan foi uma mulher guerreira que viveu no período da história chinesa conhecido como Dinastias do Norte e do Sul (momento em que há uma divisão dentre o território chinês, e que foi de 420 a 589 D.C.). Em sua história, documentada mais notoriamente no poema A Balada de Mulan, a mulher toma o lugar de seu pai idoso no exército ao se disfarçar de homem, e luta por doze anos, ganhando grande mérito e reconhecimento, mas recusa qualquer tipo de recompensa e se aposenta em sua cidade natal. Há disputas quanto à legitimidade histórica de Mulan, mas o consenso maior parece ser o de que sua história é puramente ficcional. Apesar de similares, no entanto, a versão da Disney traz ideias e noções mais contemporâneas e ocidentais à sua versão, como prezar pela liberdade de ser quem se é em uma sociedade que força as pessoas a se conformarem com papéis impostos a eles, e toda uma questão envolvendo a liberação feminina e o feminismo, com Mulan indo para guerra servindo como um ato de rebeldia contra as normas chinesas que diziam que mulheres serviam apenas para serem mães de família e donas de casa, e a mesma provando ao longo do filme a capacidade que uma mulher tem de lutar tanto quanto um homem. Enquanto isso, sem dúvidas devido a cultura e ao período em que foi escrito, o poema de Mulan não se perde analisando esses pormenores e é mais curto e grosso, retratando o ato de Mulan ir para a guerra apenas como ela servindo ao seu povo e colocando a prioridade da nação acima de tudo.

Mulan é marcante por ser o primeiro filme da Disney a ser inteiramente produzido pelo seu estúdio satélite, na Flórida, que até então apenas auxiliava com trabalhos encabeçados pelo grande estúdio na Califórnia. A ideia de fazer o filme veio graças ao autor de livros infantis Robert D. San Souci, que trabalhou como consultante da Disney em projetos do passado. Com o departamento animado se mostrando interessado em histórias baseadas na cultura asiática, estando planejando realizar um curta-metragem sobre uma menina chinesa à época, os executivos do estúdio pediram à Souci que lhes desse indicações de histórias tradicionalmente asiáticas, para o que ele lhes mostrou o manuscrito de um de seus livros baseado na lenda chinesa de Hua Mulan. Barry Cook, que trabalhava no departamento de efeitos especiais do estúdio desde os anos oitenta, e já havia dirigido um curta em sua carreira, e Tony Bancroft, que acabara de sair de seu trabalho como o animador principal das gárgulas em O Corcunda de Notre Dame, foram chamados para dirigir o filme.

Eu havia dito no primeiro parágrafo que Mulan, dos filmes desta segunda parte da Renascença, é possivelmente o mais aclamado, e é verdade. Muitos, incluindo eu mesmo, celebram Mulan e o consideram tão bom quanto aqueles que vieram antes desta obra. Mulan, inclusive, faz parte da linha de princesas da Disney, arrecadando milhões para a companhia em merchandising. O segredo para este sucesso todo parece vir diretamente da personagem título, que é extremamente querida dentre o público por ser vista meio que como uma quebradora de paradigmas. Como eu havia dito, este filme, diferentemente do conto folclórico em que se baseou, aborda abertamente temas como a desigualdade entre os gêneros e o feminismo, e o resultado é que Mulan, a personagem, tem a chance de ser a primeira personagem feminina vinda dos estúdios Disney a não apenas salvar a si mesma, independente de um príncipe ou coisa que o valha, mas ser a principal heroína de sua história, com a obra como um todo sendo um filme de ação, o que faz de Mulan ainda mais proativa, ao lutar fisicamente contra o vilão na reta final e possuir atributos mais estereotipicamente masculinos, como a força física, algo que nós não víamos muito não apenas saindo da Disney, mas do meio animado em geral, ao menos estadunidense, e Mulan foi uma das pioneiras para este tipo de heroína e protagonista feminina no meio animado hollywoodiano. Com a onda progressiva e de boom nos movimentos sociais graças a internet que estamos experienciando hoje, não é surpresa para ninguém que a popularidade de Mulan continua a crescer ininterruptamente, e a mesma continua sendo vista como a princesa da Disney favorita de muitos, o que contribuiu para este filme ser o único da segunda metade dos anos noventa a ter um remake em live-action anunciado (até agora) — porque o seu filme, assim como O Corcunda de Notre Dame antes dele, talvez ressoe mais com o público atual do que ressoou com o da época em que foi lançado.

Mulan vem como o acarretamento de toda uma década que vê os estúdios Disney e suas animações crescerem mais progressivos aos poucos, começando com Ariel de A Pequena Sereia, em 1989, que era, para todos os efeitos, ainda uma figura bem limitada cuja linha narrativa dependia inteiramente de seu interesse amoroso, mas que, quando comparada às três princesas “clássicas” do estúdio, Branca de Neve, Aurora e Cinderela, era mais proativa por possuir mais personalidade própria e caracterização para além de apenas ser uma figura tipicamente delicada e indefesa. Os anos noventa por si só também foram um período que experienciaram maior progressismo na consciência popular, e isso, como sempre acontece, se refletiu na mídia e na cultura popular da época. Assim, a medida que os anos, e os filmes, foram passando, as personagens femininas destes filmes foram ficando cada vez mais distantes dos estereótipos que as permeavam, com os dois últimos dos quais falamos quebrando ainda mais esses moldes, com suas protagonistas do sexo feminino sendo mais proativas, amadurecidas e com maior personalidade própria do que o público estava acostumado até então vindo das mãos da conservadora Disney, nos personagens de Esmeralda e Mégara. No entanto, as duas ainda estavam limitadas por suas posições em suas respectivas histórias, sendo coadjuvantes das narrativas de outrem, mas serviram, também, para pavimentar o caminho para que os animadores finalmente fizessem um filme estrelando uma mulher proativa e que renega totalmente os estereótipos que vinham com as princesas clássicas, o que finalmente chegou em 1998, com Mulan.

No entanto, o que faz de Mulan bem-sucedida no final das contas, para mim, não é apenas que ela é uma personagem feminina proativa e “durona”, mas que ela não é apenas isso. Eu já expressei meu descontentamento no passado com algo que eu sinto que vem acontecendo nessa onda de maior consciência social que nós estamos vivendo, e que vem se refletindo em filmes e no meio audiovisual no geral, que são personagens femininas disfarçadas de serem progressivas mas que na verdade acabam sendo um estereótipo tão grande e cansativo quanto as típicas personagens delicadas e femininas que elas vem para contrapor. Criou-se esta noção de que apenas colocar um tipo de arma na mão de uma mulher em um filme ou em uma história automaticamente faz dela uma figura complexa e cheia de camadas, e as pessoas por trás dessas histórias acabam nem tentando construir um personagem de forma decente e bem-feita, e essas personagens viram arquétipos vazios e artificiais, por não serem escritas de maneira bem pensada, ao invés simplesmente repetindo o mesmo modelo de simplesmente serem duronas e saírem no soco com os outros. Talvez por Mulan ser uma das pioneiras em começar com personagens femininas mais “duronas”, principalmente no entretenimento infantil, os roteiristas não tinham esse arquétipo consolidado em sua cabeça, e ao invés eles investiram de fato o tempo em construir uma personagem interessante e instigante, que dialogasse com o público, que tivesse suas questões e seus dilemas, e um arco de personagem bem construído, porque é isso que a personagem é. Ao invés de sentir a necessidade de chamar atenção de cinco em cinco minutos para o quanto a sua história é progressista e diferente de tudo o que veio antes, Mulan deixa que sua história se conte por conta própria, e que sua personagem título tenha vida própria, ao invés de viver em função de se comparar com esses arquétipos do passado e se gabar de o quão diferente o filme é de todos eles, o que muitas vezes é o que mata essas outras histórias, nunca lhes dando a chance de saírem dessa sombra e virarem algo interessante e bem-feito por mérito próprio.

Ao contrário de muitas de sucessoras que se limitam em soltar frases de efeito genéricas para ilustrar o quão proativas e quebradoras de paradigmas elas são, Mulan sequer começa seu filme ativamente se pintando como subversiva e ousada. Quando o filme se abre, nós temos a imagem da sociedade em que a protagonista se encontra e seus valores extremamente delineados para nós, sobretudo na música Honrar a Todas Nós, o primeiro número musical da obra, que escancara para o público os temas e as críticas que Mulan carregará a partir daí. Enquanto a canção toca, Mulan é acompanhada por sua mãe e sua avó por entre uma casa de banho, uma costureira e um salão de maquiagem, que visam arrumar a protagonista, para que a mesma possa se apresentar à casamenteira, que determinaria se a própria está apta para ser uma boa noiva ou não. No final, enquanto a protagonista e mais um grupo de mulheres marcham em direção à casamenteira, todas com vestimentas extremamente similares, prontas para serem julgadas pela mulher, fica evidente suas posições como mercadoria. Mulan estava sendo preparada como um produto, enquanto se maquiava de maneira chique e vestia roupas elegantes, para ser “vendida”, pois este era o papel da mulher na China do filme: servir apenas como um objeto a ser adquirido por um futuro marido, e após isso se limitar a seguir com as tarefas domésticas e ter filhos — esta era a única maneira de uma mulher trazer a honra (valor extremamente importante não só para a China, mas para a cultura oriental no geral, e que será citado repetidas vezes ao longo do filme) para a família.

A letra da música ilustra bem isso, sobretudo no original. Quando Mulan é levada para a casa de banho, toda suja e abarrotada por ter vindo correndo em seu cavalo, a dona do estabelecimento diz: “We’re gonna turn this sow’s ear/Into a silk purse” (Nós vamos transformar essa orelha de porco/Em uma bolsa de seda), mais uma vez equiparando a mulher a um objeto. Mais tarde, enquanto ela está sendo vestida com seu vestido elegante pelas costureiras, as mulheres continuam; “Men want girls with good taste/Calm, obedient, who work fast paced/With good breeding/And a tiny waist” (Homens querem garotas com bom gosto/Calmas, obedientes, que trabalham rápido/De boa criação/E uma pequena cintura). Na reta final a letra explicita ainda mais o quanto os papéis de gênero estavam em vigor total nesta sociedade; “We all must serve our emperor/Who protect us from the huns/A man by bearing arms/A girl by bearing sons” (Todos nós devemos servir o nosso imperador/Que nos protege dos hunos/Um homem portando armas/Uma mulher tendo filhos). Ou seja, os homens e as mulheres tinham papéis delimitados determinados a eles, com os quais eles tinham que seguir para que a sociedade funcionasse como deve. Ao se rebelar contra isso, uma pessoa não apenas estaria se envergonhando aos olhos da sociedade, mas estaria ativamente impedindo a sociedade de funcionar e de seguir conforme as normas, e é daí que vem a dita desonra, não só com a família, mas com a comunidade no geral, já que a sociedade oriental como um todo é bem mais ditada pelo coletivo e segue uma linha de pensamento comunal, diferente da lógica individualista que dita o ocidente.

Então, compreensivelmente, Mulan não automaticamente se rebela contra essas tradições, ao invés disso ela as internaliza. Ela deseja poder honrar sua família, ela deseja poder fazer o que é esperado dela, mas por algum motivo ela não consegue, ela não tem o que é preciso dentro dela para seguir com essas tradições, sua personalidade e seus atributos são muito diferentes do que se é cobrado dela, e a mesma não consegue abrir mão dessas suas individualidades para ser a mulher perfeita que sua cultura espera que a mesma seja. Assim, ela se martiriza, e se sente culpada, pois sabe que jamais poderá honrar sua família, ao menos não da maneira esperada, e isto é algo que a casamenteira grita com todas as letras para a mesma após sua sessão ser um desastre; “Você é uma desgraça! Pode parecer uma noiva, mas nunca trará à sua família honra!”. Após isso, o que se segue é a música Reflexão, a música “eu quero” de Mulan, onde ela canta para seu próprio reflexo sobre como ela jamais conseguirá orgulhar seus familiares, e suas dúvidas e vontades de descobrir quem realmente é, ao tirar a maquiagem pomposa que lhe foi posta para ir visitar a casamenteira e se apresentar como uma típica noiva; “Olhe bem/A perfeita esposa jamais vou ser/Ou perfeita filha/Eu talvez/Tenha que me transformar/Vejo que/Sendo só eu mesma não vou poder/Ver a paz reinar no meu lar”.

Este momento é realmente muito lindo, seja simbolicamente ou visualmente, porque é o momento onde nós conseguimos nos aproximar de Mulan, onde ela finalmente pode tirar a maquiagem e a imagem que lhe foi imposta, e se questionar sobre quem ela realmente é por trás de todas essas máscaras (“Quando a imagem de quem sou vai se revelar”). E é isso que faz de Mulan um personagem tão interessante e querido, mais do que apenas sua capacidade de lutar fisicamente; sua humanidade. Mulan é uma personagem completa, ela tem dilemas e questões, ela se questiona sobre seu lugar no mundo, e sente dúvidas se, mesmo sendo tão diferente do que se espera dela, algum dia ela conseguirá ser aceita, ao mesmo tempo em que sente que jamais poderá orgulhar aqueles quem ama, ela se sente um fracasso, internalizando todas as críticas que fazem à mesma. Mulan é um personagem completo, tão tangível e com nuances, que é impossível não se sentir compelido por sua jornada, e torcer por ela, e acredito que seja por isso que a mesma tocou em tantas pessoas, e se provou uma força em popularidade, a ponto de a Disney ter que abrir uma exceção para a mesma e a colocar em sua linha de princesas mesmo que a mesma passe longe de ser da realeza em seu filme; ela ressoou com as pessoas. Claro que, para as mulheres e meninas, sua história trás mensagens importantes sobre não se abaixar para estereótipos de gêneros que nos são impostos, e que uma mulher é tão capaz quanto um homem, mas de forma mais generalizada Mulan dialoga com tudo mundo que já se sentiu um fracasso por não corresponder às expectativas colocadas em suas costas por terceiros. Tem pessoas que ainda vão além e fazem uma leitura queer da história de Mulan, comparando o arco narrativo da mesma, ao se disfarçar de homem para ir à guerra, com a realidade de muitas pessoas transexuais, que não se sentem pertencer ao gênero designado à elas ao nascer, e que acham conforto performando como o gênero oposto, reclamando seus próprios corpos e existências ao fazê-lo, quebrando com as expectativas da sociedade sobre como os diferentes gêneros devem se comportar e só sendo realmente felizes e completos ao transicionarem para o gênero oposto. Isso só prova que Mulan é uma personagem tão dimensional e que dialoga com tantas pessoas que não é difícil se projetar na personagem, devido a as coisas pela qual ela passa serem tão familiares para tantas pessoas por tantos motivos diferentes. E o melhor de tudo é que seu filme, diferentemente de muitas das obras da Renascença, não é guiada por um interesse amoroso, ou por algum vilão que precisa ser derrotado, e sim por sua jornada de autodescoberta e de auto-aceitação, que é o que realmente dita a história do início ao fim, a fazendo muito mais interessante, e todo o resto da narrativa são elementos secundários para o conflito interno da personagem, que está inteiramente em foco aqui.

E agora que nós citamos a ida de Mulan para a guerra, acho que vale a pena falar sobre suas motivações para fazê-lo; ao invés de sair em busca de glória ou de aceitação, ao invés de apenas querer guerrear para se provar e para quebrar paradigmas, Mulan vai inteiramente motivada pela honra e pela família, que era justamente aquilo que a fazia se sentir uma farsa. Ao invés de renegar sua família, Mulan é completamente devota a mesma, e sua decisão é totalmente encabeçada por sua vontade de protegê-la. Mesmo que não consiga honrá-la, ao menos não convencionalmente, isso não impedirá Mulan de fazer o que for possível para proteger aqueles a quem ama, sobretudo seu pai. Porque a protagonista só vai guerrear disfarçada de homem porque ela sabe que seu pai, Fa Zhou, o único homem da família, está idoso, e debilitado demais para ir para o campo de batalha. Apesar de o aspecto do dito “empoderamento feminino” ser uma temática importante, e contribuir para a história de Mulan, isso diz mais respeito à percepção do público da mesma. Mulan é inteiramente motivada por sua vontade de fazer o que é certo e ajudar sua família em um momento de dificuldade, e isso faz dela ainda mais interessante do que se a personagem fosse apenas mais uma personagem feminina “durona” e “subversiva” apenas por ser subversiva. Ao invés, todas as motivações de Mulan fazem sentido para a personagem, e ela consegue ser mais única e se fechar de forma mais positiva e orgânica, como a sua própria pessoa, do que se os roteiristas tivessem usado da mesma apenas para subverterem arquétipos do passado, o que teria o risco de fazer da garota parecer igualmente vazia e um arquétipo tanto quanto os que sua história visa criticar.

Inicialmente a ideia seria a de fazer de Mulan exatamente isso. Os primeiros esboços de Mulan, segundo consta, eram fortemente inspirados no filme Tootsie (que vê um homem se disfarçando de mulher para conseguir um papel feminino em uma novela), e dariam a ela justamente o tratamento de uma garota de trejeitos masculinos que não se conforma com a vida que leva, e sonha em escapar daquele lugar, até que descobre que sua família a prometeu em casamento a um homem, e decide fugir em um ato de rebeldia, assim indo para a guerra, só que logo os animadores começaram a ficar insatisfeitos com a personagem que estavam construindo, por a considerarem egoísta. Foi Chris Sanders, um animador da Disney que mais tarde se tornaria diretor de Lilo e Stitch, e de Como Treinar seu Dragão, da Dreamworks, que fez a atenção dos animadores trabalhando em Mulan se voltarem para o conto original, já que lá, ao invés de ir para a guerra em um ato de rebeldia e despeito, ela vai justamente pelo motivo contrário — o amor que sente por seu pai e sua família, preferindo até mesmos se colocar na linha de frente do que vê-los se machucar. Faz sentido que esta ideia tenha vindo de Sanders, tendo em vista que o que faz de seus filmes tão especiais são justamente seu entendimento da humanidade de seus personagens, que sempre acabam de maneira perfeitamente tangível, e nós podemos ver essa influência em Mulan.

As prioridades de Mulan não são se provar para os demais ou desafiar o que a sociedade espera de uma mulher, isso vem de brinde, mas o que ela realmente quer, e pelo o que ela realmente preza é o bem estar de sua família, e é isso que a faz alguém honrada, mais do que sua habilidade de se casar ou não. A relação de Mulan e seu pai é lindíssima e perfeitamente retratada, estando lá em cima com a relação de Mufasa e Simba como uma das relações familiares mais lindamente retratadas pela Disney; ambos se amam e se preocupam um com o outro, Fa Zhu se preocupa com a dificuldade de Mulan de se adequar ao resto da sociedade, e Mulan se preocupa com a saúde de seu pai. No fim, o que faz a protagonista finalmente se quebrar das amarras das tradições não são sua vontade de ser livre, ela nunca antes considerou ignorar os dogmas da sociedade chinesa vigente apenas para si e porque elas não condiziam aos desejos da personagem; como citado, ao invés a garota internalizava e problema e colocava a culpa em si. Ela só passa a questionar esses valores impostos quando eles passam a machucar também sua família, forçando o seu pai idoso e frágil a ir para uma guerra cuja qual ele não tinha a saúde necessária para participar. Uma cena que foi para a versão final do filme, mas que infelizmente foi suavizada consideravelmente de sua fase teste, é um momento em que Mulan, do jardim de sua casa, vê as silhuetas de seu pai e sua mãe discutindo pela janela, logo após a protagonista ter brigado com o patriarca por acreditar que ele não deveria ir à guerra. A cena é inteiramente silenciosa, e só pela animação nós conseguimos perceber perfeitamente o que se passa pela mente de Mulan. É quando ela vê que os valores sociais não estando machucando apenas ela, mas também a sua família, que a mesma decide dar um basta nisso, e o que segue é a própria cortando seus longos cabelos e fugindo com a armadura de seu pai. Mulan não deseja ir para a guerra, aquilo é um sacrifício para ela, que a mesma faz em prol do bem maior que é as pessoas a quem ama.

Assim, as motivações de Mulan acabam até sendo mais condizentes com a cultura em que está inserida. Como eu havia dito, o oriente como um todo possui um apreço maior pela vida em comunidade e pelo coletivo, do que com satisfações e desejos individuais, e até por isso que a sociedade chinesa impões que seus cidadãos sigam com papéis sociais pré-determinados, pois só assim a comunidade como um todo poderia prosperar. Mulan nunca é deixada levar por desejos individuais de glória e de autodescoberta, ao invés ela está inteiramente preocupada com o bem maior e em fazer o que é certo, ela apenas desafia a ideia que a sociedade vigente via como “certo”, e prova que existem mais maneiras de honrar quem amamos e o coletivo do que a maneira que nos é imposta. Mulan começa sua jornada com um desejo altruísta — preciso salvar meu pai — e a termina com um desejo altruísta — preciso derrotar os hunos e salvar a China — mas para tal, ela precisa se encontrar primeiro. A protagonista primeiramente precisa se libertar das amarras que a seguram, para só então ter o que é preciso para ajudar os outros. E é seu período como um soldado que a faz ter a clareza para não apenas descobrir quem ela é de verdade, mas para se assumir como tal, e não ter medo de ir contra aquilo que esperam dela.

Isso ocorre não porque ela se descobre em maior contato com seu interior como Ping (o pseudônimo que a mesma usa enquanto disfarçado de homem); pelo contrário, ela começa tão perdida tendo que performar atributos estereotipicamente masculinos quanto estava perdida tendo que agir como uma noiva perfeita dentro do filme, mas porque é quando ela está do outro lado do espectro, não tendo mais que entupir seu rosto de maquiagem e agir como uma dama, e agora precisando valorizar a força física acima de tudo e ser bruta e grosseira cem porcento do tempo, que a mesma consegue achar o balanceamento entre esses dois lados, e se encontrar no meio termo. Mulan não pinta apenas a posição das mulheres na sociedade chinesa antiga por um viés negativo, mas o filme também mostra como a dita masculinidade tóxica pode afetar os homens, que, assim como as mulheres, também acabam sofrendo com pressões sociais que lhes são impostas (mesmo que de maneira menos nociva, óbvio). Li Shang, o líder da tropa de Mulan, e interesse amoroso da protagonista ao longo da obra, é o perfeito exemplo disso; ele é filho de um respeitável militar, e está constantemente se cobrando e sendo cobrado, pelo conselheiro do Imperador, Chi-Fu, por seu grau de parentesco, duvidando se conseguirá honrar o nome de seu pai, ou se provará um péssimo comandante, dúvida que o aflige por boa parte da obra.

A própria brutalidade e violência excessiva com que os homens do exército realizam as coisas em um primeiro momento não é visto com bons olhos pelo filme, A própria Mulan só começa a se sobressair nos treinamentos do exército quando ela para de tentar emular a maneira impulsiva com que seus colegas fazem suas tarefas, e começa a usar sua cabeça de forma mais lógica e racional. Sutilmente, a obra começa nos mostrando esse lado lógico de Mulan, nos mostrando a tática que ela possui para dar de comida às galinhas sem que precise distribuir ela mesma o milho (prendendo um osso na coleira de seu cachorro junto de uma corda com o saco de milho aberto para que ele corra desesperadamente tentando alcançar o osso e espalhe o milho por onde passe), e é esse seu pensamento afiado que faz com que ela passe a se destacar perante o exército. Quando precisa subir um mastro para tirar uma flecha de cima dele segurando dois medalhões pesados, algo que nenhum outro homem havia conseguido fazer, a mesma usa esses medalhões como corda, entrelaçando-os e os usando para segurá-la no mastro. Mais tarde, no primeiro confronto dos chineses com os hunos, em uma montanha, enquanto que os outros soldados estavam mirando seus canhões para os próprios hunos, Mulan é a única que considera atingir o topo da montanha com o canhão, causando uma avalanche que soterra toda a tropa huna de uma vez. Assim, não é graças a força bruta e nem pela delicadeza que Mulan é vitoriosa em suas empreitadas, mas graças ao seu cérebro afiado e sua maneira menos impulsiva de pensar, o que motiva seus outros companheiros a não se apoiarem tanto na força física, e também se afastar dos próprios estereótipos de gênero que os afligiam. Quando se é revelado que os hunos não morreram na avalanche e eles invadem o palácio bem no momento em que o povo chinês está celebrando a “vitória”, sequestrando o imperador e lhe mantendo refém, Mulan faz com que seus amigos, os três soldados, Yao, Ling e Chien Po, se disfarcem de mulheres para atraírem os hunos para uma armadilha e derrotá-los, utilizando da feminilidade para auxiliarem-nos na luta. Tudo isso culmina na luta final entre Mulan e o líder dos hunos, Shan Yu, onde ela se utiliza de um leque, um objeto tipicamente feminino, para desarmá-lo de sua espada, usando não só da esperteza, mas, mais uma vez, se aliando a feminilidade para ajudá-la, cimentando o argumento de que não se é necessário haver uma linha delimitando os dois gêneros e suas características.

No final, Mulan vence e salva a China não estando caracterizada nem como a noiva do início do filme, em seu vestido chique e maquiagem exagerada, e nem como Ping, em sua armadura, ela está caracterizada como si mesma, com seu cabelo curto após ter o cortado e um vestido modesto, aliando as duas partes de si mesma, e só então tendo o que é possível para salvar a pátria. A questão que Mulan levanta no início da obra é respondida, e a imagem de quem ela é se revela perante a China inteira, que assistem-na derrotar Shan Yu do alto do palácio do Imperador, não ao se limitar aos estereótipos de o que é feminino e o que é masculino, mas por abandonar essas barreiras, e sendo fiel à si mesma independente destes dogmas. Como eu havia dito, é só quando Mulan consegue descobrir quem é e resolver seu conflito interno que ela está pronta para salvar a China e lidar com a ameaça dos hunos, não se sentindo mais presa aos valores da sociedade chinesa que antes tanto a afligiam. No final da obra, após Mulan ter sido descoberta como uma mulher e abandonada pelas tropas nas montanhas onde eles derrotaram os hunos, ao ver que parte da tropa huna sobreviveu e está indo em direção à China para atacar o Imperador, ela vai imediatamente em encontro aos soldados e os avisa que os hunos irão atacar, sem medo de sofrer represálias por não estar se comportando como uma mulher deveria se comportar. Ela não mais deixa que as tradições a impeçam de agir como acha que deve agir, e de fazer o que ela acredita ser certo, e é graças a isso que a mesma sai vitoriosa no fim. Assim, ela não apenas consegue salvar seu país, mas também se prova perante ao Imperador, quebra o olhar preconceituoso com que uma mulher era vista, e, mais importante para ela, finalmente honra sua família, e pode voltar para casa.

Além de suas mensagens e temáticas sobre feminismo e papéis de gênero, Mulan também inovou ao ser um dos, quiçá o, primeiros e até hoje um dos poucos filmes animados da Disney a ser assumidamente um filme de ação. E a obra realmente se compromete com esse viés, e entrega, com cenas verdadeiramente animadas e tensas de confronto, que são brilhantemente animadas, dinâmicas, e prendem a atenção do espectador. Sobretudo a grande batalha nas montanhas entre os hunos e a tropa de Mulan é extremamente épica, e consegue ser tensa e divertida ao mesmo tempo. A cinematografia e a trilha sonora instrumental conseguem capitalizar em cima dessas cenas de forma perfeita, e deixá-las ainda mais dinâmicas e as executando de forma excelente.

Quanto ao uso de comédia no filme, este entrega resultados mistos. Eu consegui identificar dois estilos de humor aqui, com um deles funcionando muito bem, e outro não tanto. O que funciona é o humor que surge da interação dos personagens, sobretudo das interações dos soldados do exército, os já citados Yao, Ling e Chien Po, entre si e com Mulan enquanto ela está como Ping. O trio é muito divertido com suas diferentes personalidades, Yao é o estressado, Ling é o palhaço e Chien Po é o pacifista, o que permite que suas diferentes personalidades estejam constantemente entrando em conflitos, dando liberdade para interações cômicas. É também através deles e de sua interação com Mulan enquanto a mesma pretende ser homem que piadas envolvendo estereótipos de gênero e como homens e mulheres deveriam agir pipocam aqui, e as mesmas também são na maioria das vezes muito engraçadas e divertidas, tanto da parte deles quanto da parte da protagonista. No fim, não apenas os três são genuinamente engraçados, mas, apesar de os personagens funcionarem meio que como uma entidade e não como três figuras individuais, o filme consegue passar o laço que os três formaram com Mulan de forma genuína e perceptível para o público. Tirando eles, outras piadas nesse estilo que também funcionam são toda a sequência de Mulan na casamenteira, que é hilária, enquanto a protagonista tenta agir como uma donzela mas só se atrapalha cada vez mais e é a casamenteira que arca com a situação, e o personagem de Chi-Fu como um todo, o conselheiro real, que também é hilário com seu jeito afetado de ser.

O que não funciona em Mulan, no entanto, é quando ele tenta fazer o que Aladdin e Hércules fizeram, e adicionar piadas anacrônicas em si, misturando a ambientação antiga com um senso de humor mais contemporâneo e autoconsciente, com muita piada de quebra de quarta parede e referências atuais, que não mesclam bem com o restante da narrativa. Um exemplo deste tipo de humor no filme são os fantasmas dos ancestrais da família, que poderiam servir para passar um pouco mais da cultura chinesa ao espectador, mas ao invés são tratados como uma grande piada, agindo como idosos que convivem juntos em um asilo, mas o principal pivô para estas piadas é Mushu, o que eu sei que é uma heresia, porque ele é muito amado por todos (havendo até um grande descontentamento por parte dos fãs por ele não estar presente no futuro live-action de Mulan), e eu tenho memórias afetivas do personagem em minha infância, mas vendo Mulan por um viés mais crítico, é inegável que o dragão acaba se colocando como um obstáculo para que Mulan flua de maneira melhor, com seu senso de humor mais cínico contrastando muito com o estilo simples e singelo da obra. Mushu é mais uma tentativa de recriar o Gênio do Aladdin em algum filme da Disney, mas a obra em si mais relembra A Pequena Sereia ou A Bela e a Fera, que eram contos de fadas mais genuínos e dóceis, diferentemente do escrachado e constantemente metalinguístico Aladdin, o que permitia que alguém como Gênio coexistisse naquele universo. Aqui, só soa forçado, apesar de Eddie Murphy, quem eles trouxeram para substituir Robin Williams desta vez, conseguir divertir com uma fala ou outra, mesmo que seu jeito grosseiro de falar se torne cansativo eventualmente — o mesmo não pode ser dito da dublagem brasileira, que tenta desesperadamente recriar o estilo exagerado e grosseiro de Murphy, mas acaba ficando extremamente forçado e ainda mais desgastante.

Mas o principal problema de Mushu, mais do que a dissonância de tom entre ele e a história, é que o mesmo acaba interagindo demais com a narrativa principal em momentos inoportunos, assim como as gárgulas em O Corcunda de Notre Dame. Ele nem de longe fica tão terrível quanto as gárgulas, porque Mulan é muito mais uma comédia do que Corcunda, então o tom da obra nunca chega a se quebrar totalmente com suas inserções, mas há momentos onde Mulan começa a ficar sério, e Mushu continua interagindo com suas piadas — algumas vezes as próprias piadas de Mushu corroboram diretamente com a narrativa. Por exemplo; quando na montanha, Mushu acidentalmente dispara um dos canhões, que é o que entrega a posição das tropas de chinesas para os hunos e faz eles atacarem. A questão é que esse canhão acidentalmente disparado é um ponto de roteiro muito importante, e é o que desencadeará uma das principais cenas da obra, então o fato de os animadores e roteiristas terem iniciado este momento tão importante com uma piadinha vinda de Mushu é um pouco desconcertante. O mesmo serve para quando Mushu falsifica uma carta ao comandante Li Shang, se passando por seu pai, pedindo a ajuda de seu filho na guerra, para fazer com que as tropas comecem a se mover após ter sido determinado que os soldados de Shang eram muito despreparados para lutarem. Essa carta é um ponto de roteiro importante porque é o que dará movimento a história, então se acredita que o filme a tratará com seriedade, mas, mais uma vez, é tudo arquitetado por Mushu como uma grande piada, e ele até chega a se disfarçar de soldado em mais uma cena cômica e nonsense. Seria uma coisa se esse humor nonsense de Mushu servisse apenas de contragosto à história, mas ele acaba tendo interferência direta na narrativa de Mulan, uma história séria sobre a guerra, o que não só tira muito da seriedade do filme, mas deixa as coisas um tanto quanto menos críveis.

Pelo o que eu soube, o alívio cômico que realmente despertou ódio dos animadores foi Grili, o grilo da sorte que acompanha Mushu e Mulan, o que é sintomático, pois é mais um caso de mandos executivos se colocando no meio da autonomia artística dos animadores e interferindo no resultado final da obra — segundo consta, o único que gostava de Grili era Michael Eisner, o chefe da companhia, e todos os animadores não faziam segredo quanto ao seu desprezo pelo personagem enquanto realizavam Mulan, adicionando-o apenas por obrigação; mas eu sinceramente acho Grili inofensivo, ainda mais quando comparado à Mushu. Não apenas ele é bem menos chamativo e tem um impacto muito menor na história, por não possuir falas, mas também traz um humor mais sutil, mais uma vez, por não possuir diálogos, o que faz com que toda sua comédia seja física, e ele ainda possui meio que um arco dentro da história, sendo um grilo “da sorte” que aparentemente só trás azar para Mulan, sendo ele o principal responsável por estragar seu encontro com a casamenteira, mas que, no fim, acaba trazendo sorte, pois se não fosse ele sabotando a reunião com a casamenteira e fazendo Mulan ir em sua jornada, ela não teria se libertado de sua posição social, e tampouco salvaria a China.

O vilão, Shan Yu, também é uma figura mista aqui. Por um lado, sua personalidade é praticamente nula, e ele nunca chega a ser tão divertido ou envolvente quanto os clássicos vilões da Disney, e, mais uma vez, ele possui uma relação um tanto quanto arbitrária com a obra, quase não interagindo com Mulan e com os outros personagens, e estando o filme inteiro orbitando a história principal em cenas paralelas, sem que nunca possua um momento de real destaque, e que realmente tenha algum efeito na jornada específica de Mulan, sendo um antagonista muito impessoal. Mas, por outro lado, eu entendo e respeito esta decisão dos animadores, porque, como eu havia dito, o principal conflito de Mulan, o filme, é o arco narrativo da protagonista e sua jornada de autodescoberta, e isso faz com que ele se destaque entre os panteões de filmes do estúdio, ao não orbitar em função de algum vilão malvadão, e a posição de Shan Yu, vendo por este viés, é para ser impessoal, já que ele representa apenas o conflito externo, que vem como um bônus para a jornada de Mulan, que verdadeiramente dita a narrativa, o que faz da obra como um todo bem mais interessante e instigante — comparemos isso com Hércules, o antecessor de Mulan, que era praticamente movido por conflitos externos, fora do controle do protagonista; enquanto Hércules possuía a personalidade de uma folha de papel, Mulan é uma figura completa e interessante, e consegue carregar sua história sem que seja necessário um vilão corpóreo sem esforços; até seu relacionamento com Li Shang é posto de lado para que a personagem tenha seu desenvolvimento próprio, e a relação dos dois é apenas pincelada, sem nunca ser o foco, algo raro vindo de um filme de “princesa” da Disney.

E Shan Yu também compensa, parcialmente, pela sua falta de apelo narrativo e textual com o design e a construção de suas cenas. Quando eu era pequeno, eu era totalmente aterrorizado de Shan Yu. Ele é possivelmente o vilão mais visualmente ameaçador e amedrontador do catálogo da Disney, com seu porte bruto e grosseiro, seu sorriso aterrador, e seus olhos, que por algum motivo são amarelos, o que o deixa ainda mais assustador. O vilão também anda por uma linha tênue entre ser totalmente controlado e frio, e se deixar levar por um instinto animal e impulsivo quando as coisas não vão conforme ele planejou, o que dá um frio na espinha toda vez que ele deixa sua fachada dura e controlada para trás para assumir sua faceta mais violenta. As cenas em que Shan Yu aparece também são perfeitamente dirigidas e realizadas, dando ainda mais uma aura de mistério e incerteza ao mesmo. Não apenas elas são cenas totalmente escuras e transbordadas por tons de preto, como a cena em que ele é introduzido, logo a primeira do filme todo, mas a trilha sonora instrumental, composta por Jerry Goldsmith (Star Trek), também capitaliza ainda mais em cima dessa aura de medo, fazendo com que todo momento em que Shan Yu entre em cena, sobretudo quando ele ainda não encontrou com Mulan e os demais e nós não sabemos exatamente o que ele é capaz de fazer na hora H, façam dele uma figura intrigante, mesmo que, mais uma vez, objetivamente ele não seja dos mais interessantes dos vilões.

Falando nos instrumentais, a trilha sonora de Mulan também é extremamente divertida e envolvente, sendo este mais um filme musical. Sendo o primeiro da Renascença desde de O Rei Leão a não ter a composição assinada por Alan Menken (e isto porque Menken estava ocupado em Pocahontas para se envolver em Leão), ao invés aqui nós temos as composições de Matthew Wilder, ex-cantor e atual compositor e produtor musical, e David Zippel, compositor para o teatro musical. Mais uma vez se mantendo verdadeiro ao espírito dos musicais, as músicas de Mulan não apenas servem para quebrar com a dureza da narrativa, mas também possuem funções dentro da história, ajudando a avançar a narrativa e a expor os temas da obra. As já citadas Honrar à Todas Nós e Reflexão não apenas expõem a temática dos papéis de gênero impostas as mulheres chinesas e o conflito interno de Mulan de se sentir culpada por não conseguir aderir à essas imposições, respectivamente, mas também são bem escritas por conta própria. Honras à Todas Nós é extremamente divertida e possui uma melodia que se mantém na cabeça, e Reflexão é genuinamente tocante e ajuda a construir a ponte entre Mulan e o público. No entanto, a mais querida entre as músicas de Mulan é Homem Ser, que é realmente uma excelente música, cantada por Li Shang e seus soldados em uma montagem que mostra o progresso desses guerreiros. A letra da música é memorável e cativante, assim como a melodia, e o número também funciona para nos mostrar a mentalidade vigente da época — de que apenas homens eram capazes de lutar em uma guerra, tendo em vista que as mulheres eram (e ainda são) vistas como o sexo frágil — e como Mulan desconstrói essa noção aos poucos conquistando seu espaço e se destacando entre os homens. A última música, Alguém Pra Quem Voltar, é mais cômica e também é divertida, cantada pelos soldados enquanto eles marcham, cantando sobre a mulher ideal para eles, sempre de forma objetificada, o que também será desconstruído mais tarde quando Mulan provar para eles que as mulheres não existem apenas para servirem aos homens, e eles aprenderem a respeitá-la.

Homem Ser
Alguém pra Quem Voltar

Quanto a animação, o grupo de animadores encontrou dificuldade em definir um estilo para guiar os visuais em Mulan, até que definiram Hans Bacher como o designer de produção. Bacher foi quem definiu a aquarela chinesa como o estilo guia para o visual do filme, e ele não apenas estudou sobre arte chinesa para o seu trabalho aqui, mas fez com que cada animador tivesse aulas de aquarela durante a produção da obra. Os planos de fundo, assim, foram todos feitos com aquarela, e realmente lembram quadros orientais em seu estilo e execução, além de serem todos extremamente simplistas e puristas, não enchendo a tela de detalhes, e indo pelo caminho contrário, ao querer limitar os quadros para apenas o essencial, deixando que apenas cores ou formas tomassem conta, e reduzindo a arte o máximo possível, deixando-a quase abstrata em alguns momentos. Os animadores disseram ter dificuldades em se controlar para reproduzir apenas o básico para a obra, especialmente após trabalharem em produções totalmente ditadas por detalhes, como O Rei Leão e O Corcunda de Notre Dame, mas a estratégia dos mesmos funcionou, e Mulan realmente lembra pinturas chinesas e orientais, sendo extremamente delicado e polido, fazendo com que os cenários façam apenas o estrito necessário para capitalizar na emoção que a cena quer passar, e transportá-la para o público — ao longo da produção, os animadores deram a esse estilo o nome de “simplicidade poética”, o que eu acho que faz jus, pois a simplicidade aqui realmente soa como algo elegante e bem pensado, dando uma identidade própria ao estilo de Mulan. O designer dos personagens, Chen-Yi Chang, também foi uma figura imprescindível para a obra, não apenas por seu trabalho baseando cada personagem da obra em uma figura geométrica diferente, o que contribui para a maior simplicidade, mas, por ser taiwanês, o artista possuía um grande conhecimento da cultura oriental, e serviu meio que como uma biblioteca para os animadores, os ajudando à se manterem o mais culturalmente precisos possíveis, e fazerem jus à cultura chinesa, que os próprios experienciaram em uma viagem de três semanas que fizeram à China. Infelizmente, no entanto, Mulan cai no mesmo buraco de seus antecessores Corcunda e Hércules, ao possuir testes com a animação computadorizada que não envelheceram bem e que hoje já estão datados, como, assim como em O Corcunda de Notre Dame, as cenas com multidões. Ainda assim, a obra se fecha de forma única e elegante no final das contas.

Como citado, no fim esta abordagem mais livre de Mulan, não tentando fazer com que o filme copiasse projetos do passado e dando liberdade para que a obra se fechasse de maneira única, deu retornos. Apesar de no saldo geral a obra ainda ficar abaixo de O Corcunda de Notre Dame nas bilheterias mundiais, dentro dos EUA, Mulan superou ambos Hércules e Corcunda, e trouxe 304.3 milhões ao todo. A Disney também aprendeu com as baixas de suas últimas obras e fez da campanha de marketing de Mulan menos grandiosa, o que o ajudou a ser mais lucrativo. A crítica também foi mais geralmente favorável à Mulan, mas o criticismo de que a fórmula disneyana já estava engessada a este ponto continuou como uma constante. Assim, já estava claro que de agora em diante este seria o novo normal para a Disney — filmes de sucesso, mas que não conseguiriam atingir os retornos astronômicos de O Rei Leão, e 1998 foi ainda mais um gosto de o que à companhia seria reservado no novo milênio, sendo o ano em que o novo estúdio do ex-executivo da companhia que saiu da mesma em mau termos, Jeffrey Katzenberg, estreou nos cinemas. A Dreamworks chegou para brigar com a Disney, e após Katzenberg abertamente tentar sabotar sua antiga empregadora, subornando seus animadores com maiores salários, descobrindo quando um de seus filmes seria lançado para lançar um filme suspeitamente similar logo antes, e convencendo o compositor Stephen Schwartz a largar Mulan e vir trabalhar em um de seus filmes ao invés, o novo estúdio ainda deu a última risada, ao ganhar o prêmio de Melhor Canção Original no Oscar por uma das músicas de O Príncipe do Egito, prêmio este que também era concorrido por Mulan. Tudo isto mais o fato de a própria Pixar, após lançar o seu primeiro grande sucesso com Toy Story, lançar sua segunda obra em 1998 também, e logo a Disney já não parecia mais a imponente dominadora do mercado que era no início da década.

Ainda assim, Mulan obviamente foi mais bem-sucedido que seus contemporâneos, ou ao menos se tornou com o tempo. Com Mulan figurando entre as princesas da Disney e tendo até hoje sua imagem vendida pela companhia (coisa que não podemos dizer sobre Corcunda ou Hércules, que meio que sumiram do radar), fica claro a confiança que a Disney tem em sua heroína para fazer sucesso, e não sem motivo. Sua história ressoou com o público; seja por ser a primeira heroína assumidamente feminista da companhia, seja por sua história ser bastante sensível e tratar sobre temas com que muitos podem se identificar, Mulan é um clássico indisputável nos dias de hoje, que se recusa a ir embora. O filme deixou sua marca no imaginário popular mesmo figurando em um período de vacas magras e decepcionante para o estúdio que o lançou, e tem tudo para crescer ainda mais, sendo tão atual hoje quanto foi à vinte anos atrás — basta torcer para que o terrível live-action que está sendo produzido não destrua seu legado.