Estuação numa Redoma de Espertina

de Miguel Rocha Nunes

Meu Deus, como jovem sou…

É estranha aquela a posição em que me deito. Reparo nas pessoas do quotidiano fugidio, e como sou jovem entre eles… Os dedos deixados sobre a colcha esticada deixam-se estáticos, com o sangue a esbater-se sob a pele inchada do quente, sentindo o pulsar; a cabeça repousada na almofada desconfortável, aquecida e afundada da presença imóvel, escamada de caspa, solta uma comichão ligeira numa qualquer zona sua, caindo como fracos flocos de neve sobre a fronha agastada; a face e o peito encharcados de suor. A posição fetal aborrece-me… Todo este sono entedia… Será, no entanto, insónia? Assim, talvez se compreenda o estado de angústia que me arrepia. Guarda-te, jovem príncipe, enfaixado nos cobertores que te amortecem e sufocam, te calam e te cerram amordaçado na calentura envolvente dos lençóis que te abraçam amarrado… Oh, je suis fou! E a noite está tão fria… Quem diria que as andorinhas pendentes em cada buraco que ocupam, cada resguardo onde possam construir seus ninhos, cantassem alegremente e de fome ao largo da madrugada esquecida, púrpura gélido. Um resfrear da memória é a ocupação perfeita para uma passagem tranquila da espertina indesejada. Ou isso, ou o suicídio. E não me suicido. Não… Vale a pena rever-me de palmo e meio, pela hipnose erguida no escuro do quarto; é importante esperar. Esperar. Repetir, repetir e esperar… Atormentemos o espírito individual e crítico com estes pequenos pensamentos problemáticos: fiquemos sóbrios do ciclo, e o ciclo embriagado de nós! E nunca mais nos esqueceremos de como somos jovens! É aguardar e ver… Saber que eu sou jovem (caramba, como o sou!) e belo, escondido num local cómodo onde me insiro e reflito, imutável e ausente da minha consciência. Talvez tudo isto seja sono… Já bocejo. Viro-me para o lado oposto da minha cabeça, encontro-me com a outra parede do quarto (olá, parede caiada de branco, rotineira vizinha), e lá se prende ao meu lado o Outro… Conversamos na madrugada que nos resta, incompleta da sua plenitude. Ah, prazeroso convívio! São duras as discussões que acendemos. E, pouco a pouco, perco a noção, turvo num enevoado entorpecimento que me pontapeia secamente… Oh, cansaço das lonjuras! Nada mais que sono da vida, sono de se poder estar… Nada mais na vida é original que ser perfeito sendo nada; são divagações estas. Só não consigo voltar a dormir…

27 Abril 2016 06:15

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