No fim, tudo importa

Miguel Araujo
Jul 21, 2017 · 3 min read

Enquanto escrevo isso, minhas mãos tremulam. Minha cabeça tenta raciocinar dentro da lógica ilógica dos acontecimentos desta tarde. A notícia veio como um taser apontado em minha direção, bem no peito. Mas o choque dela foi maior que isso.

Meu ídolo morreu. Se matou. Enforcado dentro de sua casa, na Califórnia, aos 41 anos, deixando na Terra seis filhos, esposa, amigos e milhões de fãs espalhados ao redor do mundo, e sou um deles. Quando era mais novo, ainda em fase de amadurecimento, julgava as pessoas que se importavam tanto com figuras famosas, pessoas que nunca tinham visto na vida, mas que por algum motivo diziam amá-las, e coisas do tipo. Ficava impressionado com a capacidade que elas tinham de se emocionar quando algum ídolo morria, as lágrimas rolando pelo rosto como água na correnteza de um rio. Mas quando fiquei mais velho, percebi o quão idiota era por ter esse e outros pensamentos. Julgar é fácil. Difícil é se colocar no lugar de quem sofre.

Sou fã do Linkin Park desde os meus 9 anos, eu acho. Minha pré-adolescência e adolescência foram marcadas pelas músicas deles. Muitas vezes, quando estava triste, escutava LP, e isso me fazia bem; eu me sentia melhor. E não é qualquer música ou banda que consegue fazer isso, é bom dizer. Chester, junto com os outros integrantes, compôs obras belíssimas, que poderia listar facilmente. Algumas músicas apresentam letras tão bonitas, motivantes e inspiradoras, que recomendava pra algum amigo quando ele estava num momento ruim, na esperança de fazê-lo se sentir melhor e saber, por aquela letra, que as coisas passariam. E, nesse momento, eu só queria que esse pesadelo passasse, e que tudo fosse mentira, que na realidade ele está vivo e pronto pra continuar a turnê do último álbum, One More Light, lançado em maio deste ano. Há apenas dois meses.

Meu sonho era poder ir a algum show do LP, e presenciar de perto a atmosfera da performance ao vivo de uma banda maravilhosa. Infelizmente, isso nunca acontecerá, pois creio que a banda não continuará tocando sem seu frontman, que possuía uma voz poderosa e incrível.

Várias perguntas e vários questionamentos surgem nesse momento: por que ele fez isso? como ele foi capaz, já que ele tinha tudo: grana, fama, idolatria, amigos, família… como?

A depressão não tem cara. Não tem forma. Não tem sombra. Ela surge e você pode nem perceber que alguém a tem. Não interessa se a pessoa é milionária, famosa ou tem “tudo que é possível pra ser feliz”. Ela ataca a qualquer um.

Não é “mimimi”, “frescura” nem nada do tipo. É uma doença, então por que não tratá-la como tal? Chester era viciado em drogas no começo de sua carreira, e foi abusado sexualmente quando era mais novo. “Breaking The Habit”, uma música do LP, foi escrita pra ele, e toda vez que ele ia gravar a música, ele chorava, porque lembrava de tudo que tinha passado, e assim não conseguia continuar. Ele passou por várias rehabs, e tinha conseguido superar essa situação — ou pelo menos foi o que achei. Nos últimos shows ele parecia estar feliz, alegre, contagiando todo o público com sua performance. Mas aí é que tá: a depressão não tem cara, forma ou sombra. E por isso não consigo acreditar ainda que ele se foi, e que nunca mais poderei vê-lo cantar ao vivo. E dói cada vez mais lembrar disso.

No fim, tudo importa. Sua carreira ficará marcada pra sempre, e nunca se esquecerão de sua representatividade. Obrigado por tudo, Chester.

Descanse em paz.

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Miguel Araujo

Escrevo textos e transcrevo sentimentos. Em alguns momentos, ambos.

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