O pôr do só em cada sol
Quando abri os olhos, o sol já estava aparecendo.

Estava tão imponente quanto um rei frente a seus súditos. Observava aquele movimento com certa frustração, porque desejava ter dormido mais um pouco. Eram cinco horas da manhã, e o dia estava apenas começando. Aos poucos fui recuperando meu raciocínio lógico; quando eu acordo, não estou totalmente consciente, e às vezes ainda tenho resquícios de sonhos que tive, como se eles fizessem parte da minha realidade. Tento enxergar onde meus óculos estão, e os borrões são cada vez mais evidentes para mim; confundo facilmente os objetos ao meu redor, tanto que por um momento pensei que meu estojo cinza, jogado no chão, fosse um rato, mas olhei mais de perto e lembrei que ratos não têm zíper. Finalmente encontro meus óculos; a armação preta e branca, um pouco torta e com as lentes manchadas estava em cima da minha mochila, a alguns metros da rede onde estava deitado. Ponho os óculos no rosto e passo a enxergar plenamente.
Eles ainda estavam dormindo. Parecia que estavam em um sono profundo, talvez envolvidos com as narrativas de seus sonhos. Enquanto isso, fixo meus olhos no ventilador, que estava na velocidade máxima. O quarto, de paredes amarelas, com uma cama de casal e um móvel encostado no canto, é abafado, e por isso precisamos do ventilador. Sem ele, não dormiríamos devido ao calor, além do suor que empaparia nossos corpos. A noite anterior fora movimentada, era o nosso primeiro dia naquela casa; conversamos, jogamos, nos divertimos, cada um transitando entre os diferentes grupos ali existentes. Alguns iam para o Playstation, outros para a piscina; alguns jogavam sinuca, outros Uno. Os mais audaciosos iam conversar, jogar conversa fora. Nenhum, entretanto, sem estar banhado por aquela atmosfera de amizade. Naquela noite, concordamos em ir, no dia seguinte, cedo para a praia. E cá estou, no dia seguinte, às cinco, esperando dar a hora de ir a praia. Ponho meus fones de ouvido, e a primeira música que toca é Lost Stars, do Adam Levine. Ironias do destino.
Pouco a pouco, acordavam. O movimento nos corredores era intenso; bom dia pra cá, bom dia pra lá, as saudações se repetiam. Risadas, sorrisos, caras de sono e cabelos bagunçados eram facilmente vistos. Havia uma disputa para escovar os dentes e tomar banho; aqueles que não conseguiam nem um, nem outro, desciam para tomar o café da manhã. Após todos estarem prontos, fomos à praia, que ficava pertinho de nós.
Naquela hora do dia, a maré estava baixa, então podíamos andar mais a vontade; protetor solar a postos, alguns ajudavam a passá-lo no corpo dos outros. Em seguida, roda de vôlei, banho de mar e, depois, futebol. Mais uma vez, sorrisos, risadas e cabelos bagunçados estavam presentes. Sem esforços e sem forçar a barra. Não era preciso, porque todo aquele momento era natural, vinha da disposição de cada um em estar perto um do outro. A beleza da sinceridade. Retornamos à casa por volta de 12h.
Foi quando entrei na minha reclusão. Cárcere privado pela mente, em que não se consegue produzir, apenas estagnar. Os sentimentos de incapacidade, intrusividade e não pertencimento àquele lugar se instalaram em meu cérebro, passando a coordenar as minhas ações pelas horas seguintes: esmoreci. Passei a ficar calado, quieto, na minha. Observava mais, falava menos. O conceito de mediocridade vindo à tona. Nesse ambiente inóspito para uma mente sã, o botão “Ejetar” acabou sendo o descanso musicado: retornei à rede para dormir, com a música de plano de fundo. No modo aleatório, surgiu novamente Lost Stars.
Não sei o que sonhei, mas sonhar, naquele momento, não era tão importante. Acordei, e a música que estava tocando agora era outra: Don’t Panic, do Coldplay. Se o destino realmente existe, tem sabido muito bem escolher minhas músicas.
Era aproximadamente 15h30. Tínhamos combinado de ir à praia de novo, desta vez para ver o pôr do sol. No começo, não senti tamanha vontade em ir, mas fui mesmo assim. Ao retornarmos àquela areia, agora mais dura devido à subida da maré, decidimos jogar futebol novamente e, novamente, sorrisos, risadas e cabelos bagunçados. A partida terminou, e alguns foram ao mar para se refrescar. 17h: o sol já estava se aprontando para sair de nossas vistas. Decidimos, então, caminhar.
A cada passo me questionava a respeito do meu futuro. O que será de mim daqui a alguns anos? O que será de todos nós? Me sinto um intruso, como se não devesse estar ali. Por um instante, quero voltar pra casa.
O sol estava se pondo. Reunidos, observávamos ele se despedir. Olho para o mar, e vejo o quebrar das ondas. Olho para o céu, e vejo as nuvens se movimentando. Sinto o vento soprando na minha face, como se quisesse me dizer alguma coisa. Algumas estrelas podiam ser vistas, e tento contá-las, para ver se o número era místico. Fecho os meus olhos, e logo lembro dos versos de Lost Stars:
Mas não somos todos estrelas perdidas
Tentando iluminar o escuro?
Quando abri os olhos, o sol estava desaparecendo.
Vi meus amigos. Eles estavam se abraçando, se divertindo e se amando. Mas a situação mudou. Pararam de fazer isso. Eles estavam ME abraçando, ME divertindo e ME amando! E toda a beleza da sinceridade estava ali, na essência do ser!
O destino, pelo menos para aquela situação, existia. Don’t Panic e Lost Stars foram reproduzidas para que chegasse aquele momento, e que eu valorizasse cada segundo que vivi. Podemos ser estrelas perdidas, mas estamos iluminando o escuro, sim. Estamos iluminando o escuro da tristeza, solidão e infelicidade que existe nas outras pessoas, e trazendo elas para o outro lado da moeda, onde podemos ver nossos problemas com outra perspectiva. E eu fui trazido para o outro lado. Por eles.
Não sentia mais a necessidade de voltar para casa. Percebi que já estava lá.
