A Natureza da Arquitetura

“Isso de ser exatamente o que se é ainda vai nos levar além.” Paulo Leminski.

Joinville em 2030: Hortas e refúgios urbanos estarão espalhados como áreas de descompressão públicas.

Está cada vez mais explicito que a real crise que vivemos hoje não é econômica, política ou social, mas uma crise de consciência. O homem se perdeu em seu processo evolutivo, desconectou-se de si mesmo e da natureza, distanciando-se da verdadeira essência das coisas. Compartilho da ideia de arquitetura como um discurso sobre a vida, mas o que vemos hoje são cidades doentes, feias e arrogantes — reflexo da pobreza de espírito e da falta de integridade que preenche as folhas em branco de quem as desenha.

Felizmente, inúmeros movimentos, em diversas áreas (da moda à gastronomia, da música à educação, da arquitetura ao design) apontam que estamos cada vez mais nos utilizando da sabedoria da natureza, dos rituais e da ancestralidade para dar suporte a velocidade das mudanças e transições da nossa existência, permitindo digerir mais facilmente a enxurrada de informações que recebemos a todo instante.

Consumo consciente e inovação verde não são fases transitórias. Espero que no futuro, não só em Joinville, mas como em todas as cidades — por uma questão de sobrevivência humana — vivenciemos de fato as novas Eras econômicas, como a economia da experiência e da criatividade.

Acrescentaremos novos ingredientes ao processo criativo, como o conceito de ´empatia´ na arquitetura. Teremos cidades mais autênticas e com forte identidade. Conviveremos com as coexistências: cidades ao mesmo tempo digitais e analógicas, urbanas e rurais. Hortas e refúgios urbanos estarão espalhados como áreas de descompressão públicas, e teremos uma arquitetura com uma maior visão holística do sistema, relacionando-se mais intensamente com disciplinas como a agronomia e a psicologia, por exemplo.

Possivelmente, caminhemos rumo a um novo sentido ao conceito de ´qualidade de vida´, que vai muito além das ideias relacionadas à saúde ‘física’ das coisas, mas que talvez passe pela noção do que poderíamos chamar de ‘a espiritualização das cidades’. Em busca de maior desenvolvimento do potencial humano não focaremos em espaços definidos por determinadas atividades, mas sim pelas diversas atividades que um espaço pode proporcionar.

Cidades que inspirem, que proporcionem senso de presença e que permitam pensar menos e sentir mais, como nas palavras de Carl Jung: “quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta”. Ou seja, a diferença é que no futuro o objetivo não deverá ser criar os espaços em si para serem simplesmente utilizados por indivíduos, mas através dos espaços formar indivíduos com maior poder de reflexão e consciência coletiva. Joinville, como qualquer cidade, ao dialogar de forma empática com seu contexto e ecossistema poderá encontrar prosperidade.

A verdadeira natureza da arquitetura não está na edificação em si, mas no espaço para a construção das interações humanas ao longo da vida, contribuindo para o despertar de uma consciência mais voltada para nossa verdadeira essência.

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