TRECHOS DE UMA CONVERSA CÉTICA

Faz um tempo atrás, eu ouvi essa conversa entre duas pessoas. Uma delas acreditava em dinossauros, a outra não. Eram cinco ao todo ao redor de uma mesa, coworking em silêncio. De repente um funcionário começou a falar e a gesticular olhando para o monitor do seu notebook, munido de uma fé que eu nunca tive:

— Meu, tipo, como pode, um bicho que pesa literalmente toneladas né, andando pela terra assim né?

O colega sentado em frente ao funcionário cético levantou seus olhos do monitor e deu seqüência à conversa, com ar didático. Os outros colegas de mesa continuaram fingindo que estavam trabalhando.

— Então. Uma turma de estudiosos acharam ossos de animais gigantes enterradas a muitos metros de profundidade do solo. Tu já viu uma ossada ? Eles estudam os ossos e baseado nisso há um estudo de onde viveu a criatura e tal.

— Eu sei, mas, mano, sei lá, eu não consigo acreditar, sabe? Como aquilo vivia sem ninguém pra provar q eles viveram…

— Bom, uma grande parte da minha família é de pesquisadores.

— Você já viu um esqueleto de dinossauro assim, montadinho ?

— Teve uma vez que eu estava com meu tio, e ele fazia em 3D o mapa de onde podiam estar possíveis locais pra encontrar ossos de animais extintos. Era irado demais.

Eu acho que nesse momento o primeiro interlocutor da conversa pensou “hmmm…quer saber ? foda-se, eu vou ganhar essa discussão”:

— Uma vez eu tava num desses terreno com um monte de gente trabalhando e de repente EU PISEI NUNS TROÇO E FEZ CRECK!!. — disse e esbugalhou os olhos. A declaração foi seguida por dois enormes segundos de silêncio.

— E eu: “ TIPO? E AGORA?”. O supervisor lá da área falou: “não se emeche agora. Fica aí onde tá e a gente vai te mover devagarinho”. Daí ele foi embora pra buscar uns caras pra tentar me tirar dali sem danificar nada: “Tipo, caralho, será que eu vou ficar a vida inteira parado aqui sem me mover?”.

Um segundo de silêncio.

— Aí o supervisou voltou: “Não, tudo bem. A gente vai te levantar daí com um guindaste pequeno e depois passar um Scan no solo pra ver se tem mais coisa que pode quebrar”.

O segundo interlocutor, da família de pesquisadores, possivelmente tinha perguntas irrespondíveis sobre o o “creck” e sobre um mini guindaste tirar uma pessoa, como se fosse um contêiner. Eu mesmo, que não entendo de escavações, tinha as minhas dúvidas.

Mentalmente reviso as palavras que eu ouvi ele acabar de falar:

“FORAM BUSCAR UM GUINDASTE PRA ME TIRAR DE LÁ”.

Isso é lógica de criança mentindo pra colega de colégio, mentindo que tem um tio que mora no japão, um primo que jogou king of fighters e o personagem grita o nome dele na hora do golpe. É aquela mentira sem maldade, sem um lucro real pro mentiroso, é aquela mentira de criança tentando escapar de enrascada: ele percebeu que tá errado mas não quer assumir, está envergonhado. Esse jovem tá metendo uma mentira de criança pra galera mas eu não tenho mais forças, eu nem tô nesse bate papo, nao vou me meter. Apenas concordo, eu balanço a cabeça positivamente concordando com a história incrível.

O cético crente, no entanto, tomou a melhor decisão que podia: abaixou a cabeça, voltou para o seu monitor e se deu por vencido. Ele encerrou a conversa assim:

— Caramba, eu nunca tinha ouvido uma história dessas.