A morte do amor

Minhas olheiras voltaram refletindo o quanto as madrugadas me assombram. Durante o dia meus olhos fotografam o ódio. A noite as lembranças discutem feito cães e gatos. Mesmo vermelhos e pesados eles não desligam. Com a janela aberta, a lua me questiona. Se ele morreu, quem o matou? Ela fala sobre amor. Acho que descobri a causa de bater novamente em minha porta. Essas insônias me destroem.

É inocência dizer que o amor está no tato. As pessoas não se sentem como antes. Os abraços foram vulgarizados. Não há verdade nos abraços. Há desejo. Não verdade. O contato visual foi exterminado desse plano. As exigências aumentaram. O egoísmo aumentou. O prazer se tornou singular. As pessoas não se tocam como antes. A troca foi dissipada. Cada um por si. Quem gozar mais é o vencedor. Essa disputa de ego matou o amor.

Lembro do quanto ela me olhava. Sempre me seguindo com os olhos. Brilhavam quando a gente conversava. Eu percebia e não ligava. Ela era incrível. É! Eu um tremendo babaca. Ela sempre foi o sol, iluminava tudo por onde passava. Eu nuvens escuras. Vira e mexe, eu tentava apagar sua luz, mas seus raios nunca deixaram de penetrar. Hoje eu percebo que tudo o que eu precisava era do seu calor. O sol é pura luz, mas ele também queima. Ela não me enxerga mais. A vaidade matou o amor.

Não lembro a última vez que eu falei “eu te amo” pra minha mãe. Não gosto de gastar palavras. Ainda mais tão intensas quanto essas. Mas eu a amo. Sempre amei. Sempre vou amar. Eu só não digo. Pouco demonstro. Talvez ela não saiba que eu a ame. Quando penso em dizer elas sobem até a garganta e voltam. Por que ela também não me diz? As pequenas atitudes dela já diz isso todos os dias. Se minha mãe morrer hoje, ela não vai saber que eu a amo. O orgulho matou o amor.

Não sou bom nessas coisas de ser feliz. De estar. Não sou. Declamo poesia todos os dias na esperança de algum tipo de afeto. Mal consigo falar com alguém. Eu tenho medo das pessoas. Tenho medo do apego. Tenho medo de não me apegar. Eu sinto falta de algum tipo de apego. De reciprocidade. Ser reciproco é cansativo. Relacionamentos são. Sozinho, consigo arrumar milhares de desculpas para não estar com alguém. Mas quando estou com alguém que eu gosto, não consigo arrumar nenhuma, não nenhuma sincera. A superficialidade matou o amor. As desculpas mataram. O medo matou. O julgamento…A lua gritou bem alto para que eu pudesse ouvir. Você matou o amor.

É verdade. Eu o matei.

-maldito