O falocentrismo das travestis, mulheres trans e homens gays

  • Reformulando o texto para um melhor entendimento, sendo que houve uma interpretação equivocada. Vamos fazer uma tentativa de destrinchar de modo mais claro.
  • Espero que todos compreendam também que, quando se fala de um grupo identitário, ou de qualquer outra origem, estamos falando por uma maioria que contém elementos em comum. Sabendo da existência de exceções.

Apesar do falocentrismo também ser alimentado pela mulher cis, agora, mais especificamente, faço essa crítica centrada na cultura falocêntrica entre mulheres trans, travestis e homens gays cis.

E justifico o por quê: Por, simplesmente ser, o grupo mais afetado pelo mesmo.

OBS: Colocando a mulher trans/travesti em evidência nesse texto, não estou colocando “na conta delas”, ou as colocando como CAUSA desse falocentrismo, as coloco como pessoas que compactuam e que são, dentre essas 3 categorias do título, as maiores vítimas. Se formos fazer uma escala de pessoas mais prejudicadas dentre todas identidades existentes, acreditem, elas estão no topo dela.

O site BuzzFeed publicou a seguinte matéria: "Monte a piroca ideal e revelaremos um segredo profundo sobre sua vida sexual. O pinto perfeito do marido perfeito."

(Aparentemente, é só uma brincadeira inocente e sem importância, dentre tantas outras que vemos todos os dias no Facebook, como muitos disseram. Mas estou convidando vocês a enxergar para além disso, enxergar a profundidade de alimentar até mesmo as mínimas coisas. Assim como piadas machistas, homofóbicas e transfóbicas, “mínimas”, contribuem para algo muito maior.)

Enquanto olhava minha timeline no Facebook, vi uma mulher trans compartilhando essa matéria, logo depois uma travesti, e outra, e mais outra. Além de homens gays cis.

Incrivelmente, não vi nenhuma mulher cis fazendo o mesmo, ao menos as dos meus ciclos de amizade.

Mas tenho uma explicação para esse fenômeno: Travestis, mulheres trans e homens gays cis tem a ideia de que a “obsessão” por pênis, assim como a passividade sexual (real ou simulada socialmente), reafirma, concretiza e fortalece as suas identidades de gênero e sexuais.

E pasmem: Existem mulheres trans, travestis e homens gays cis, que são ativas e ativos sexualmente, mas simulam uma passividade sexual socialmente por conta de uma fragilidade identitária. E quando falo sobre “passividade sexual socialmente”, para os que não entenderam, estou falando de uma ocultação dos próprios desejos por medo de julgamentos sociais.

Por exemplo, é cobrado de uma travesti e mulher trans que exale feminilidade e esteja dentro de todos os padrões femininos, inclusive, dentro dos padrões sexuais do que dizem sobre os papéis que uma mulher deve ocupar, e no caso, um papel de passividade. A partir do momento que essa mulher descobre gostar (também ou somente) de um papel que dizem não ser dela, que seria esse um suposto papel de dominação, sendo ativa sexualmente. Consequentemente, a sua feminilidade é colocada a julgamento. Do mesmo modo, isso se encaixa na bicha cis afeminada.

Ser afeminada a coloca, automaticamente, num lugar de passividade.

E nesse texto quero falar mais especificamente para você, mulher trans e travesti, porque, muito provavelmente, vocês não irão rolar a timeline de vocês e encontrar a seguinte matéria: "Monte a buceta ideal e revelaremos um segredo profundo sobre sua vida sexual. A buceta perfeita da esposa perfeita."

E nesse ponto, sinceramente, falo numa posição de homem trans, que além de se relacionar com mulheres cis, se relaciona também com vocês. E perceber que vocês, que passam pelo mesmo que passo, exercita muito menos a empatia (e até mesmo o respeito) ao se relacionar conosco, é realmente muito frustrante.

É realmente muito frustrante perceber que mulheres que passam pelas mesmas vivências que passo, contribuem com o resto da sociedade para que me sinta desconfortável e alimentam o discurso, mesmo que inconsciente, de que não sou homem o suficiente para ser considerado ou ser posto como uma possibilidade ao mesmo nível, (prestem atenção nessa parte) por não ter um pênis carnal. Porque nós também somos uma possibilidade, porém, a última (para a maioria).

E o que vocês sequer se dão conta é de que, ao serem falocêntricas, vocês também alimentam o discurso (inclusive de feministas radicais, que usam disso de forma deturpada para deslegitimar identidades trans) de que são menos mulheres por ter ou já terem tido um pênis.

E acreditem, o machismo desses homens cis het tão idealizados é tão grande que eles nunca esquecem que vocês já tiveram um pênis, mesmo quando são operadas.

Uma coisa importante a deixar claro aqui é que, quando falo de falocentrismo/pênis, estou falando do homem cis, especificamente. O corpo ou o pênis da mulher trans/travesti não teria nem porque entrar nessa questão, o corpo onde esse falo oprime é no corpo cis.

(E isso é algo que nem precisava ser dito, acredito que todos nós já saibamos por experiência). Qualquer interpretação diferente disso, entendo realmente como proposital.

E por experiência também, deveríamos saber que alimentar isso só prejudica a vocês mesmas. Nem a mim, enquanto homem trans que, por hora, não tem um pênis carnal, prejudica tanto quanto a vocês. Porque, apesar de não ter esse pênis, paradoxalmente, esses homens me respeitam, assim como respeitam a maioria dos homens trans “passáveis” dentro da masculinidade.

A experiência que vocês vivem já deveria ensinar o que é certo e o que é errado perante esses homens. Escuto muitas justificativas dos comportamentos de travestis e mulheres trans pautadas na falta de educação e informação, que sabemos que existe, de fato. Mas o que quero questionar diante disso é o seguinte: Falta de informação e educação é uma eterna carta de imunidade e justificativa para todo e qualquer comportamento errado de um indivíduo?

Porque se a resposta for sim, também vamos passar a mão na cabeça do homem cis het e seus comportamentos. Até porque sabemos que, ele é como é porque foi ensinado a ser assim, e não houve uma reeducação desses comportamentos e alguém para dizer que isso está errado.

Não é a toa que, nas minhas experiências de amizades com homens cis het, a partir do momento que levo a informação, eles procuram mudar seus comportamentos. Que é o mesmo que espero com esse texto em relação a travestis e mulheres trans (que se encaixam nesse comportamento.) Se a informação não existe, estou fazendo o papel de trazê-la nesse momento.

Porém, as consequências dos atos passados não podem ser retiradas. Os efeitos que os comportamentos deles já causou, não podem ser retirados. Do mesmo modo, não vamos passar a mão na cabeça dos que ainda fazem com a justificativa da ignorância. Sabemos que os estupros acontecem, as violências acontecem, os abusos acontecem, apesar da inconsciência, e alguém vai estar sendo atingido por isso.

Errar não é problema algum, o problema começa quando os seus erros estão atingindo a outros indivíduos, além de você mesmo. Daí o senso, a consciência de que deve existir mudança. Até porque, se queremos empatia, devemos dar empatia.

Quero propor uma reflexão para vocês, de se imaginarem ser um homem trans, que já se relacionou com alguma de vocês e presencia algumas situações, que inclusive, já presenciei.

Que presencia vocês, entre amigas, compartilhando fotos de pênis de homens cis, selecionando os que mais te agradam. Como vocês se sentiriam?

Vocês não são obrigadas a nada disso, não são obrigadas a se importarem com ninguém. Afinal, ninguém paga as suas contas, não é?

Mas estou convidando vocês para um exercício HUMANO, de empatia. De praticar a mesma humanidade que vocês esperam das pessoas pessoas cis.

E posso garantir que dificilmente irão presenciar homens trans, obcecados, compartilhando fotos de vaginas entre si. Obviamente, como em tudo na vida, existem exceções. Mas nesse caso, uma minoria de homens trans.

Daí também as exceções de mulheres trans/travestis que não tem nenhum dos comportamentos citados no texto.

Mas ainda sobre a vagina da mulher cis — convenhamos, ela não foi feita para ser adorada. Homens compartilham fotos de mulheres cis entre si, mas são fotos de peito, bunda, corpo, pode até conter fotos da vagina, mas não é o ponto em evidência nessas fotos, é o corpo como um todo. É bem nítido, inclusive, que nudes de mulheres cis focam no corpo, e nudes de homem cis focam no pênis. Justamente, porque a vagina da mulher cis não foi feita para ser adorada como o pênis do homem cis, ela não é objeto de poder no corpo da mulher cis para ser colocada em evidência.

E a notícia que tenho para dar a vocês é que endeusar homens cisgêneros pelo simbolismo do pênis naquele corpo, não te faz mais mulher.

E isso só mostra o quanto, de fato, compactuam com a ideia de que um homem se resume a um pinto, e reforça as opressões que vocês mesmas sofrem por terem sido pessoas que foram designadas “homens” ao nascer, e não se encaixaram nas expetativas do que a sociedade esperava de vocês.

Sendo assim, esses mesmos homens com falo, que são endeusados por grande parte de vocês, são os mesmos homens que agridem, estupram, violentam, fisicamente​ e verbalmente.

São os mesmos que vemos notícias de assassinatos transfóbicos e homofóbicos, diariamente. São os mesmos que fazem piadinhas sobre vocês entre os amigos. E são os homens para os quais os seus desejos são centralizados e idealizados.

Homens trans são considerados por grande parte de mulheres trans e travestis a última possibilidade afetiva, quando percebem que não está existindo nenhum homem com pênis para assumi-las, justamente por existir a ideia do príncipe cis encantado.

E sinto em dizer: Assim como contos de fadas não existem, esse homem cis idealizado nunca irá existir.

Não estou aqui controlando os desejos de quem quer que seja, estou propondo que analisem: O que existe por trás desse desejo?