Aniversário de morte

Das datas que guardamos silenciosamente

A gente costuma marcar no calendário a data que nascemos. Esperamos a Terra dar uma volta completa no sol para celebrarmos o dia em que viemos a esse mundo de meu deus. Eu particularmente gosto de comemorar o meu aniversário. Não tanto para inflação de ego e mais pelo prazer de conseguir reunir num mesmo lugar o maior número possível de pessoas queridas que seguem comigo. Me dá um orgulho danado ver um montão de gente juntinha e eu ser um ponto de conexão entre elas. A alegria brota quando vejo o tanto de relação bonita que cultivei ao longo dos anos.

Por ser cultural, as festividades para essa ocasião acontecem de forma naturalizada. Mas existe também outro dia e mês que costumamos lembrar todo ano. Apesar de não estar no Facebook ou termos registros fotográficos anualmente, guardamos, mesmo que silenciosamente, a data em que alguém querido se foi desse plano.

Guardo o 18 de fevereiro silenciosamente. Eu tinha uns 7, era fim de semana antes do carnaval, dois dias antes viajei com minha mãe do coração passando de carro na frente da minha casa e o vi pela última vez entrando em seu carro, talvez pra ir trabalhar. Eu voltaria de Teresópolis no mesmo dia ainda, mas pra casa mesmo eu só voltei no domingo, 18, depois do velório.

A partir daí entrei no processo de aprender a lidar com a perda. Perda não, morte mesmo, sem eufemismos.

Será que todo mundo vai lembrar internamente do dia do meu aniversário de morte também?

Foram longos anos de infância e adolescência sendo fechada com amigos e pessoas que acabava de conhecer. Sentia que guardava uma dor que ninguém entenderia e decidi resolver o problema por mim mesma, sozinha. Mudar de colégio foi o pontapé para eu aproveitar a oportunidade de me transformar e fazer as coisas diferentes. E até que deu certo, ainda que não tenha sido da noite pro dia, passei a me abrir mais facilmente pras pessoas.

Não via a necessidade de falar sobre isso e até hoje percebo que existe um certo desconforto geral. Estou sempre falando sobre os membros da minha família, mas meu pai raramente é mencionado, afinal ele não está aqui há muito tempo para fazer parte das histórias que conto. O mistério só é revelado quando alguém desconfia do fato e aí ou decide perguntar pra mim ou perguntar para algum amigo mais próximo. Atualmente já falo com naturalidade sobre o assunto, e é engraçado porque me percebo tentando deixar o meu ouvinte sempre confortável, amenizando de alguma forma a situação.

E então, todo 18 de fevereiro a lembrança do fato de que ele não está mais aqui surge mais fortemente. Costumo sempre que possível reservar o dia para silenciar e ficar mais contemplativa. É como se tivesse o respaldo de viver o luto mais uma vez e renovar o voto de lembrar que a morte não poupa ninguém.

Ainda não sabemos lidar com a morte

Um grande amigo dia desses estava se justificando para mim o quanto ficou abalado com o falecimento de um irmão de coração, pois, em suas palavras, ninguém espera que uma tragédia como a que aconteceu, ocorra repentinamente. Talvez sem muita sensibilidade, retruquei alegando que era exatamente por isso que ele tinha dificuldades em seguir em momentos como esse, em não ver a morte como fluxo natural da vida.

Faltam rituais que nos ajudem a lidar com o fim, com as passagens. Passamos a vida toda ignorando o único momento que temos certeza que acontecerá. Por isso, ainda desconfio de que seja suficiente só entender cognitivamente que meu pai, minha mãe, meus irmãos, meus amigos e meus colegas de trabalho têm os dias contados.

Contemplar a morte pode transformar o modo em que vivemos. Reorganizamos nossas prioridades, mudamos nossas relações e a chance de tratarmos a morte como algo injusto ficará bem menor. Stela Santin relata uma experiência riquíssima de como o seu cotidiano ficou mais leve depois de começar a espreitar de perto o único fato inevitável de nossas vidas e de como foi então quando o fim chegou para o seu pai.

Abrir nossas conversas para esse tema também pode ser muito benéfico, como por exemplo o Death Cafe faz. Criar discussões coletivas sobre a morte pode ser um movimento em direção à lembrança constante de que a vida é finita.

Que filme passará na sua cabeça quando estiver prestes a morrer?

Nascemos já esperando o dia da nossa morte

2016 foi um ano marcado pelos fins. Como por aqui não foi diferente, estive presente em um velório da mãe de um primo. A família e os amigos “já esperavam” pelo dia em que receberiam a ligação avisando do colapso do corpo dela, pois o câncer e os outros problemas de saúde já estavam bem avançados.

Enquanto estava lá foi interessante perceber como as pessoas se comportavam diante da morte materializada, bem escancarada ali. Quando chegamos vamos direto aos parentes mais próximos do falecido e desejamos nossos sentimentos de paz. Mas passado esse primeiro momento, logo as pessoas começaram a formar pequenos grupos e a conversarem sobre amenidades da vida. É parecido com o que fazemos o tempo todo: a morte tá aqui, bem diante de nós, mas ignoramos a sua presença e seguimos como se não pudesse acontecer com a gente agora mesmo.

Nos comovemos diante das grandes tragédias, mas é só uma questão de tempo até o alvoroço passar e a gente seguir distante mais uma vez.

Para muitos, a minha mãe tem a fama de tratar a morte sem sensibilidade. Ao receber a notícia de que alguém faleceu é a primeira a falar “descansou”. Já eu acho incrível a lucidez com que a minha mãe lida com o tema. Uma tia da família da minha madrinha estava muito mal no hospital com metástase e os médicos disseram que não havia mais nada a ser feito. Sentada na mesa, ela lamentou pra mim e pra minha mãe: “Que horrível deve ser esperar a morte assim”.

Minha mãe com toda a sua sabedoria respondeu:

“É, alguns esperam a morte saudáveis, outros não”.