Lost in paradise

Nessa noite quente de Abril me sentei no gramado e comecei a observar as estrelas e a lua. Apesar do tempo abafado o vento soprava suavemente trazendo consigo o cheiro peculiar das flores que ali cresciam, viviam e morriam. O gramado pinicava minha bunda mas eu nem me incomodei. Peguei minha camisa xadrez e joguei-a no chão para sentar em cima. Reclinei minha cabeça e me coloquei a admirar a beleza estonteante do céu naquela noite, que apesar da hora, estava tão escuro quanto uma mente conturbada. A escuridão que ali jazia fazia de si minha morada, e diante do silêncio que pairava o único som que eu podia ouvir era o das rajadas de vento que sopravam com força junto com os grilos que cantavam suas melodias, celebrando talvez a vida, ou o amor.

Assim como eles, eu também queria celebrar. Seja o amor, a tristeza, a saudade, a plenitude ou seja a vida. Diante de meus excessos barulhentos, a única forma que eu conseguia celebrar algo era escrevendo ou fotografando. Uma mente barulhenta precisa de um mundo silencioso pra acalmar estes meus excessos que ora se agitam, ora se acalmam. Dançam dentro de mim fazendo festa, não importa se seja dia, não importa se seja noite. Fazem de mim sua morada e não fazem questão de me cuidar.

O tempo foi passando e com ele meu relógio de pulso, banhado a ouro e com strass, foi cantando o seu ‘’tic tac’’. Percebi que estava ali a mais tempo do que fora planejado. Quando me dei conta o céu estava coberto por uma nuvem negra carregada e pronta para se descarregar. Trovões faziam estrondosos sons anunciando para todos de que a chuva estava por vir. O tempo passou de abafado para frio, e o vento que antes fazia meu cabelo dançar, agora o bagunçava. Os grilos haviam parado de cantar e todos se recolheram para se proteger da chuva, mas eu não. Eu fiquei ali, parada, contando os segundos para que a nuvem estourasse e extravasasse tudo aquilo que guardava dentro de si. Não demorou muito para que isso acontecesse, finalmente.

As gotas caíam como lágrimas que caem ao chão, pesadas e geladas. Tão geladas que arrepiaram cada pêlo do meu corpo desde a nuca até os pés. Fiz questão de me levantar e de glorificar aquela água que corria por cada centímetro do meu corpo, adentrando minha alma, fazendo com que aquele momento se tornasse meu mundo silencioso de que eu tanto precisava. Assim como o céu estava transbordando, fiz o mesmo. Não me contive. As lágrimas das estrelas logo se misturavam com as minhas e na solução homogênea entre as minhas e suas, o resultado não poderia ser outro: pura calmaria. Fiquei ali, estagnada pensando em tudo que fui, em tudo que sou e em tudo que quero ser. Me perdi, me achei. Eu te achei, e me perdi. Percebi que a vida era uma constante baseada em se perder e se achar, e quanto mais eu te amava, mais eu me perdia. Me perdia nas bebidas, me perdia na fumaça, me perdia em tudo que a religião condena ser pecado. Vivi no pecado e nele me achei. E nele mesmo eu me perdi, e nunca mais me achei. Encontrei pessoas perdidas e que se juntaram a mim tentando se achar. Achamos uns aos outros e juntos nos fizemos nossas moradas. Fomos condenados e julgados à endemoniados, amantes do Diabo, pecadores e demônios, bruxos. Fizemos de nosso peito nossa casa, e nela não havia nada além da verdade, e a verdade era que nos amávamos. Podem reclamar de muitas coisas, mas de falta de amor, ah…isso eles não podem abrir a boca. Me perdi no pecado, mas nele eu achei o amor. Talvez eu não tenha me achado, mas achei tudo aquilo que me confortava, e no conforto eu me achei. O conforto do céu estrelado, da água salgada do mar, da água doce da chuva. O conforto do calor dos teus beijos e da suavidade de seus toques. Me achei no conforto, mas conforme a chuva caía sobre minha pele, eu me perdi nos meus pensamentos, mas neles eu achei você. E nessa ida e vinda de se perder e se achar, eu acabei me perdendo nas curvas dos teus lábios e nunca mais me achei.