Pesquisa do usuário: estudantes que moram em repúblicas

Processo de design de produto - mobiliário flexível

Miki Ojima
Sep 5, 2018 · 9 min read

Motivação

Saí da casa dos meus pais quando comecei a faculdade de Arquitetura e Urbanismo. Mudei para São Paulo em 2010, e desde então divido moradia com colegas no popular esquema de “república estudantil”. Foram no total: 22 pessoas com quem dividi 9 apartamentos diferentes, em 2 países, durante minha graduação e depois que me formei.

Já deu pra perceber que a quantidade de vezes que me mudei de apartamento é relativamente alta. Cada mudança tinha um motivo diferente: O proprietário pediu o apartamento de volta para emprestar para a sobrinha, pessoas entravam e o espaço ficava pequeno demais, pessoas saíam e o aluguel dividido ficava caro demais, queríamos morar mais perto do metrô, o encanamento estava sempre com problemas, intercâmbio, entre outros.

Convivendo com outros estudantes, percebi que muitos deles também viviam nessa situação. E a mudança sempre era uma experiência desgastante.

Ao escolher o tema para o trabalho de conclusão de curso (TCC) da faculdade, decidi pesquisar sobre isso sem definir o formato da solução logo no início, e sim, focar no problema e como resolvê-lo.

A metodologia utilizada na pesquisa seguiu as fases do duplo diamante proposto no Design Thinking.

duplo diamante (design thinking)

1. Descobrir

Nessa fase, realizei as seguintes etapas:

  • visitas à repúblicas e entrevistas com os usuários
  • pesquisa sobre como estudantes se mudam: como encontram lugares novos para morar e como se dá o processo de transporte de seus pertences
  • pesquisa acadêmica sobre temas relacionados

Visitas às repúblicas e entrevistas

Procurei repúblicas com tamanhos, localização, número de pessoas, gênero e cursos diferentes, com o objetivo de detectar informações que representassem a realidade do público alvo de maneira abrangente.

Durante as visitas, desenhei as plantas baixas das moradias, tirei fotos e entrevistei os usuários. Fiz perguntas de contextualização, como por exemplo, idade, curso, de onde vieram, há quanto tempo moram na república. Depois conversávamos de forma mais livre sobre como cada integrante mudou-se para a atual moradia, como eram suas rotinas, quais eram suas atividades em casa, como era a relação entre os colegas, quais eram os pontos positivos e negativos em morarem juntos, como era o espaço de cada um dentro da habitação, entre outros assuntos que surgiam de acordo com a conversa. Procurei conversar o mais informalmente possível, de forma que os entrevistados ficassem à vontade para dar uma opinião sincera.

Algumas pontos em comum em várias repúblicas foram:

  • Na coabitação, as atividades são mais individualizadas e privadas. Por exemplo: cozinham só para si, comem sozinhos em diferentes horários de acordo com a própria agenda, entretenimento é particular através de smartphones ou notebook. Cada um tem sua rotina fora e dentro de casa.
  • Foram notados vários objetos feitos pelos próprios usuários (Do It Yourself). Muitos móveis eram produzidos com a reciclagem de elementos como caixotes de feira, cortina de banheiro e galhos de árvores.
  • Estudantes dos primeiros anos de faculdade que voltam frequentemente para a casa de seus pais possuem menos roupas nas repúblicas, pois muitos de seus pertences permanecem na casa de suas famílias.
  • Há uma evidente preferência em pendurar e exibir roupas e acessórios ao invés de dobrar e guardar. Os armários grandes, pesados e fechados ficam vazios, e os pertences ficam todos à mostra do lado de fora.
  • Gosto pela personalização. Havia sempre um mural para fotos, objetos de viagens e outras lembranças dentro do espaço de cada um.
  • Elementos essenciais são: superfície de trabalho e/ou refeição, superfície acolchoada e confortável para dormir, suporte para pendurar roupas e compartimentos para guardar objetos menores.
  • Para estudantes que dividem o mesmo quarto: mais do que uma separação física, existe a necessidade de uma delimitação psicológica do que seria o espaço de cada um para manter a sensação de privacidade.
algumas das fotos tiradas de diferentes repúblicas

Pesquisa sobre o processo de mudança

Há vários grupos no facebook com anúncios sobre vagas em repúblicas e venda de móveis e utensílios usados. Muitos posts descrevem o apartamento e os moradores atuais, assim como também que tipo de pessoa procuram receber. Já os posts sobre vendas se dão principalmente quando o estudante está saindo de sua moradia e não tem capacidade ou interesse em levar seus pertences maiores.

grupos do facebook e redes sociais voltados para moradores de repúblicas

Pesquisa acadêmica

Estudei temas que estavam envolvidos com comportamentos e o estilo de vida presente no compartilhamento de moradia. Sobre moradia estudantil, coabitação, modernidade líquida, minimalismo, antinomadismo, mobiliário collapsible, referências de moradias compactas, entre outros.

A pesquisa completa pode ser lida aqui. Cito alguns trechos da monografia a seguir para poder ilustrar os temas estudados e alguns insights gerados:

Tal flexibilidade se dá em parte pela mudança de comportamento dos millennials no mercado de trabalho e na constituição familiar, muito mais fluida, descrita na “modernidade líquida” de Bauman. Assim, os jovens que compõem o público alvo passam a mudar de emprego e endereço muito mais facilmente se comparada com gerações passadas.

Tão fácil quanto estabelecer um vínculo afetivo, é desfazê-lo. Esse fato marca a cultura dos tempos atuais, na qual as relações afetivas influenciam muito em como vivemos, trabalhamos e fazemos escolhas. (Bauman, Zygmunt. 2015)

Tal rigidez de espaços não é só percebida na construção da habitação, como também nos móveis e outros produtos.

“Ainda que certos grupos de pessoas possuam a necessidade de se mudar frequentemente, o mobiliário no interior das casas muitas vezes não corresponde aos requisitos de mobilidade. Sendo transportado com dificuldade.” (Barbosa, Lara. 2012, p. 193)

imagens representativas de alguns temas da pesquisa

2. Definir

Alguns problemas se destacaram durante a fase de descobertas:

  • A tipologia dos apartamentos onde os estudantes moram é feita para famílias. Por exemplo, os “quartos dos pais” são maiores que os “quartos dos filhos” e acompanhados de um banheiro, sendo que os estudantes geralmente preferem uma divisão mais igualitária de espaço. As áreas de convivência, como a sala de estar e jantar, são bem maiores que os espaços privados, como os quartos, sendo que a demanda pelo segundo tipo é maior nas repúblicas.
  • Há dificuldades na hora de encontrar pessoas com quem morar. Muitos dos estudantes mudam-se para outras cidades ao passarem no vestibular e não conhecem ninguém no novo local.
  • A mudança em si é muito trabalhosa: os móveis são pesados e são danificados no transporte e a maioria dos condomínios restringe o horário em que a entrada de objetos grandes é permitida.

Cada problema deveria levar a uma solução bem diferente da outra. Escolhi o terceiro item como foco, pois estava interessada em dar uma solução para estudantes que precisam se estabelecer em apartamentos construídos para famílias e que já encontraram pessoas com quem dividir o quarto/apartamento/casa.

alguns dos esquemas feitos para resumir as diretrizes e entender o problema

Decidi então projetar um sistema de mobiliário flexível feito para uma pessoa. Ele deveria ser:

  • facilmente desmontado e transportável
  • suficiente para todas as atividades essenciais
  • compacto para caber em espaços pequenos
  • modular para poder ser composto de várias maneiras diferentes
  • transformar-se ao longo do tempo, podendo acompanhar o usuário mesmo se deixasse de morar em república, prolongando a vida útil do sistema.

3. Desenvolver

Nessa etapa, foram feitos:

  • benchmarking de soluções: marcas de móveis comumente presentes em repúblicas, populares ou especializados em espaços pequenos.
produtos pesquisados no processo de benchmarking
  • catalogação de tipos diferentes de recursos utilizados em móveis: levantamento de produtos que conseguem ser adaptados a diferentes usos usando estratégias como o deslizamento de peças ou partes para se rearranjar, a mudança de posição, o apoio simples, a estruturação metálica resistente e esguia e o uso de pivô e dobras.
catalogação de diferentes soluções de projeto
  • sketches, modelos 3d e maquetes físicas: prototipagem em vários níveis para testes.
alguns dos croquis e modelos 3D feitos no processo de projeto
maquetes físicas 1:5 — ideias superadas

4. Entregar

Cheguei a um produto para a avaliação da banca. Fiz desenhos técnicos e um modelo 1:5 para testar a espacialidade do projeto e ter uma noção de como ficaria em escala real. Ele procurou atender as diretrizes propostas na etapa de definição. Diferente do que é encontrado no mercado como móveis bonitos, mas rígidos e caros para jovens adultos, o resultado é um reflexo da realidade encontrada nas repúblicas estudantis atualmente.

Nos próximos passos, o sistema deve ser produzido em escala real para ser testado por usuários reais em seu dia a dia, bem como durante a desmontagem, transporte, nova montagem e adaptação para novos usos.

O sistema de mobiliário em duas formas de montagem diferentes, atendendo demandas distintas
O sistema é projetado para ocupar um espaço semelhante a uma cama de solteiro, de forma que haja melhor aproveitamento vertical do quarto compartilhado
O sistema pode ser desmontado e dobrado de forma a se tornar uma lâmina. Pode ser carregado por duas pessoas em partes.

Lições aprendidas

  • A resolução de problemas pode ter formas diferentes das imaginadas no início.
    Quando pensei na questão da moradia estudantil pela primeira vez, imaginei que a solução estaria mais ligada a um projeto na escala da construção. Então eu poderia decidir projetar um edifício de dormitórios estudantis, por exemplo. Mas isso não resolveria a situação atual dos estudantes e forçaria-os a morarem segregados em quartos individuais em lugares específicos da cidade, por isso mudei o foco da pesquisa e o produto proposto está mais ligado a mobiliário. Não precisamos nos apegar ao formato final do produto, durante a pesquisa podemos (e devemos!) mudar o rumo do projeto e escolher meios de solucionar melhor o problema. A questão central será sempre o usuário e o que ele mostrou na pesquisa, não um desejo ou suposição inicial do próprio desenvolvedor.
  • Não adianta resolver um problema tecnicamente se não há aceitação por parte do usuário.
    Projetando um móvel compacto, muitas soluções inusitadas tornam-se tentadoras para resolver o problema da falta de espaço. Isso pode gerar um estranhamento dos usuários com o produto, prejudicando o engajamento. Por exemplo: em um certo momento do projeto, pensei em formas de substituir o colchão por algo mais maleável e dobrável. Contudo, a ideia de conforto das pessoas está muito associada ao colchão, tornando-o dificilmente eliminável.
  • O processo não caminha em um sentido só.
    Relatei sobre o processo aqui e na monografia de forma ordenada, seguindo as etapas “descobrir”, “definir”, “desenvolver” e “entregar”, para ficar mais fácil entender as atividades que desenvolvi em cada uma delas. Porém, muitas vezes realizei duas etapas simultaneamente, ou voltava a pesquisar (etapa “descobrir”) depois de ter feito uma maquete física (etapa “desenvolver”), por exemplo. As atividades estão interligadas e é necessário ter uma certa flexibilidade para voltar em algumas etapas quando isso trouxer benefícios ao projeto.
  • O resultado não foi o mais importante, mas sim, o que aprendi sobre as pessoas que moram em repúblicas e como elas vivem.

Muito obrigada por ler até aqui!
Você pode conferir a publicação acadêmica com o todo processo mais detalhado abaixo:

issuu.com/carolinamikiojima/docs/tfg_miki_mobiliario_flexivel_issuu

Miki Ojima

Written by

UX/UI Designer, apaixonada por artes, cultura, comportamento e inovação. Arquiteta e designer de produto. 👩🏻‍💻 www.linkedin.com/in/mikiojima/

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