De volta a natureza selvagem

“Dois anos ele caminha pela terra. Sem telefone, sem piscina, sem animal de estimação, sem cigarros. Liberdade definitiva. Um extremista. Um viajante estético cujo lar é a estrada. Fugido de Atlanta, não retornarás, porque “o Oeste é melhor”. E agora depois de dois anos errantes chega à última e maior aventura. A batalha final para matar o ser falso interior e concluir vitoriosamente a revolução espiritual. Dez dias e noites de trens de carga e pegando carona trazem-no ao grande e branco Norte. Para não mais ser envenenado pela civilização, ele foge e caminha sozinho sobre a terra para perder-se na natureza.” -Alexander Supertramp, maio de 1992.
Christopher Johnson McCandless tinha 24 anos e muita coragem quando embarcou na maior e última aventura de sua vida. Logo após se formar em história pela Emory University, localizada em Atlanta, nos Estados Unidos, Christoper doou toda a sua poupança -um saldo de 24 mil dólares- para a caridade e sumiu sem avisar a ninguém. Adotou o nome de Alexander Supertramp e passou 2 anos viajando pelo Estados Unidos antes de chegar ao seu destino final, o Alasca, local de sua morte precoce. Seu desprezo pela sociedade em que vivia, sua raiva do materialismo americano e seu espírito aventureiro foram as principais motivações para o abandono de tudo, inclusive sua família que nunca mais voltaria a vê-lo com vida.
Mais de 20 anos depois de sua morte, me levo a refletir sobre Alex e a dificuldade dos seres humanos de se pertencer e a busca interminável da juventude pelo “agora”.
Geralmente por volta dos 18 anos de idade, quando não antes, meninas e meninos se veem de frente a uma grande responsabilidade quando precisam eleger uma profissão para seguir, envoltos por pressão familiar e da sociedade muitos deles se arrependem da escolha ou tratam a questão como mera obrigação moral. Adquirir coisas materiais e construir uma família como a de seus pais são as questões que mais afligem a juventude, tendo em vista que a maioria dos pais começou a se auto sustentar bem cedo. Por outro lado, aqueles que não almejam esse tipo de destino são tratados como alguém que leva a vida de forma errante.
O imediatismo dessa geração é preocupante, tudo tem que ser muito rápido e as coisas devem acontecer em um piscar de olhos. Terminar a escola, entrar em uma faculdade, arranjar um bom emprego, arranjar uma boa casa, arranjar um bom carro, arranjar um bom casamento, ter filhos. A vida parece ter sido roteirizada. As pessoas sentem e foram levadas a acreditar que precisam seguir essas regras para serem felizes e os jovens se veem presos a paradigmas que parecem impossíveis de serem alcançados. Enquanto se esforçam para isso, é cada vez mais comum que desenvolvam algum tipo de trastorno. Não é atoa que a ansiedade e a depressão são denominadas as doenças do século.
Da mesma forma, o homem se vê preso a bens materiais e convicções sociais. Ouvimos o tempo todo que somo livres mas nunca sabemos como usar essa tal liberdade que Chris fugiu para tentar encontrar. O que nós impede de fazer o que queremos ? O que nós limita? O que nós reprime? Por que estamos tão preocupados em ter ao invés de ser?
O tempo todo você é empurrado pelo vida/sociedade a fazer coisas que você nem sabe por que as faz, somente pelo fato de que aquilo é algo convencional. Esse parece ser um ciclo interminável que para algumas pessoas é impossível de ser quebrado. A necessidade de se obter coisas e experiências em menor tempo possível criou uma geração de jovens frustrados. Eu to cansada de ler coisas do tipo “Kylie Jenner tem 20 anos e possui 4 mansões” ou “Steve Jobs tinha 21 anos quando lançou o seu primeiro computador”. Ora isso é realmente impressionante, porém quem disse que é essencial chegar ao sucesso de forma tão imediata? Desnecessário dizer que cada pessoa tem seu tempo e sua forma de ver o mundo.
Por fim, deixo uma parte do diário de Chris que resume tudo que eu tentei escrever nesse pequeno texto:
“ Acho que você deveria realmente promover uma mudança radical em seu estilo de vida e começar a fazer corajosamente coisas em que talvez nunca tenha pensado, ou que fosse hesitante demais para tentar. Tanta gente vive em circunstâncias infelizes e, contudo, não toma a iniciativa de mudar sua situação porque está condicionada a uma vida de segurança, conformismo e conservadorismo, tudo isso que parece dar paz de espírito, mas na realidade nada é mais maléfico para o espírito aventureiro do homem que um futuro seguro.”
