a gente não é feita de pedacinhos

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Queria poder refletir por uns longos minutos sobre essa frase, sinto que tem tanto coisa nela. Ela é cheia de verdade. A gente não é quebra-cabeça, não. A gente é organismo, se faltar um pedaço tudo dói. E dor é horrível. Necessária, mas horrível.

Eu tuitei hoje cedo “ às vezes a gente se machuca mas dá outros nomes ‘ah to prejudicando meu sono mas tudo bem’ ‘prejudiquei minha alimentação por causa de x’ menina a gente não é feita de pedacinhos. toda área prejudicada afeta o todo. prejudicar uma parte é prejudicar vc inteira”. Não sei se já descobri muito além disso, mas, como já disse, sinto que tem mais. Mas hoje isso bastou.

Arranquei um bocadinho hoje e só no buraco. Agora ele tá doendo e eu sei que já estava ferido. Ontem fui à psicóloga e ela comentou sobre como ele já estava tapando com os fios novos crescendo. Há alguns minutos, enquanto lamentava, minha mão subia de novo e lá se vão mais uns quatro ou cinco. Eu nunca arranquei mais de um por vez, comecei com isso agora com esse buraco. Na minha cabeça “meu deus, meu couro cabeludo tá sofrendo demais com isso”, como se fosse algo à parte dessa história toda. Bem, o couro cabeludo sou eu. Ele não é uma pecinha que pode se perder e todas as outras ficarão intactas, eu não sou um quebra-cabeças. Não é sobre estar incompleta, sentir que falta alguma coisa, é sobre estar ferida.

Quando a região do buraco está doendo eu saio na rua me sentindo esquisita, já falei sobre isso. Minha auto-estima passa longe. A confiança no trabalho e faculdade também são afetadas. Eu não sou capaz de impedir que minhas próprias mãos arranquem o cabelo, como vou cumprir esta demanda ou este prazo? A dor se espalha e parece epidemia alarmante, quando vejo eu já assumi o fracasso antes mesmo do fim. Ai, que deprê esse texto. Me desculpem, viu.

Mas voltando pro foco, minha descoberta (elas sempre são tão óbvias). Se eu comprometo uma parte de mim, qualquer que seja, com uma escolha, eu me comprometo por inteiro. Pra comprovar, eu inverti a situação. Se acontece uma coisa boa, meu dia inteiro muda. Quando é dia de cortar o cabelo, ninguém me coloca pra baixo, eu realmente amo fazer isso, é o dia em que me sinto mais bonita, confiante, capaz, etc. Uma besteira, eu sei. A mesma coisa acontece com minha mãe quando ela perde aqueles três quilos até o fim do mês. Dá até mais gás pra continuar perdendo, mesmo que nem precise. Um sucesso num cômodo, festa na casa toda, deve ser assim dentro da gente, mesmo que não dure tanto. Pronto, agora de novo a situação negativa: um fracasso aqui, acabou-se o mundo. Isso não é com todo mundo na mesma intensidade, eu sei, e ainda bem que não é. Mas quando é de com força é foda. Pior ainda quando quem tá junto não entende. Mas essa é outra conversa.

Importa se entender. Se questionar e buscar as respostas, buscar até mais perguntas. A gente não vem com manual, a gente vai se percebendo. Traçando no mapa os caminhos mais seguros, marcando as zonas de perigo, fazendo notas, grifando, apagando e reescrevendo. Porque ainda tem isso, a gente muda. É, ninguém disse que seria fácil. Mas a gente vai ficando mais esperto. Eu fiquei mal pela recaída de hoje, mas vim aqui e o peso tá diminuindo. Acho que cada palavra me segura um pouquinho. As que escrevo e as que recebo. Restaura e cicatriza.