regar

Photo by Markus Spiske on Unsplash

A última foto que tirei da minha falha no couro cabeludo não é muito diferente da foto da minha pior fase. Minha coragem ainda não é tanta ao ponto de mostrar aqui, mas espero que acreditem. A pior fase é uma região até grande com poucos fios, cabeça meio descoberta e embaixo uma área menor, sem nenhum cabelo. Tirei ontem mais algumas fotos depois de umas duas semanas desde a última vez. Confesso que esperava uma mudança maior (era essa decepção que eu temia, por isso deixei de comparar por um tempo), mas senti felicidade quando vi a parte que não tinha mais nada com ralos fiozinhos brotando.

Fiz para mim mesma uma retrospectiva das fotos do buraco, a primeira foi tirada no exato dia em que comecei a escrever aqui. Naquele dia de novembro eu quase não saí de casa. Fotografei com o celular na primeira luz que entrava na janela da cozinha e odiei o que ela me mostrou. Uma comparação apenas de imagens apontaria para aquela como a melhor de todas as fotos. É um buraquinho de nada, hoje invejável, para ser bem sincera. O que não invejo de forma alguma é a parte de dentro da minha cabeça naquele dia. Naquele dia de novembro eu quase não saí de casa e, quando saí, arranquei mais até começar a sentir dor.

Foi o início do buraco que me assustou. Eu tinha uma ideia do lugar onde ele poderia me levar, mas não sabia até onde chegaria. Isso me levou à aflição, que gera ansiedade, que é gatilho para o TOC. Esse é, inclusive, o esquema que resume muitas crises pelas quais já passei (não tem nada de misterioso nas crises, elas são completamente estudáveis).

Mas eu quero falar sobre fases e sobre elas corresponderem a como me vejo, e não como aparento estar. Como eu me vi com um buraquinho que mal aparecia (desanimada e com raiva de mim mesma) e como me vejo agora (melhor e confiante), com um maior, não faz sentido se não for analisada toda a história.

Ontem eu saí de casa e tirei a foto assim que entrei na sala vazia do estágio, como fiz outras vezes. Passei a proceder assim para evitar o desânimo depois da primeira foto e a dificuldade de sair de casa. O buraco continuava (continua) lá e eu me senti no Jogo do Contente (vide Pollyanna, uma daquelas leituras de infância que se repetiam pelo menos uma vez no mês e criaram referências que não se apagam), porque só consegui olhar para os poucos fios a mais que começavam a cobrir a partezinha branca. Eu sorri.

Algumas pessoas podem se preocupar mais agora que conseguem notar uma falha aqui atrás ou duvidar de alguma melhora, por mais que eu fale, mas eu tenho sido sincera ao responder “muito bem” quando me perguntam como estou. Estou melhor que em novembro e dezembro, quando a quantidade de dias difíceis quase empatou com a dos mais tranquilos.

Hoje sei que a história de Pollyanna é alvo de críticas das quais concordo com algumas. A menina, que ainda criança enfrenta problemas complicados, tenta colocar em prática uma espécie de jogo que a faz procurar em toda situação o lado positivo. Tamanho otimismo (ou inocência) não se encaixa mesmo no mundo real, ainda mais no dos adultos. Posteriormente, criou-se até a Síndrome de Pollyanna, uma vez que seria um alienado alguém tão otimista em tempo integral.

Se eu levasse a sério o Jogo, perderia inúmeras vezes, mas ontem eu ganhei e foi bom olhar de outro ângulo, para variar um pouco. Eu tinha medo de que não voltasse a crescer mais nada na partezinha sem nenhum cabelo, que chegou a ficar mais grossa e criar casquinhas de tanto que me machuquei. [É comum que, aos que se concentram em arrancar somente em uma área, o cabelo pare de crescer ali com o tempo, de tanto que foi enfraquecido e desestimulado a nascer.]


Hoje estava pensando que, apesar de nunca ter cultivado plantas, deve ser tempo de regar uma nova semente (ou uma mudinha, já que temos algo visível) que, aos poucos, com cuidado constante, crescerá vívida, florescerá.


foto do começo de 2019, num dia incrível (mesmo com a falha meio escondida, meio se amostrando, e o cabelo ralinho de sempre)