Escada Rolante

Os eventos que mudam nossas vidas, que nos acrescentam ou nos tiram algo de muito valioso, acontecem assim, sem mais nem menos.

Numa questão de segundos.

Chegam sem avisar e vão embora como mágica.

O da Ana aconteceu numa escada rolante. O caminho inteiro ela era ela. A mesma que sempre foi.

Foi ela mesma até metade do caminho.

Mas, na metade da subida, a Ana que era uma, virou uma outra.

Digamos que uma Ana com pedaços faltando. E não dá pra ser a mesma com pedaços faltando, temos que concordar.

Foi na metade do caminho de uma escada rolante que aconteceu esse evento inesperado, que pode ser engraçado para algumas pessoas — Sempre há alguém que achem graça no vazio. O que se há de fazer? — e um tanto bobo para outras — “que bobagem, isso acontece com todo mundo”, eles dizem.

Eu espero que não aconteça com todo mundo, mas aconteceu com Ana. Ela quis gritar, dizer: ei, pare já com isso e me devolva esses pedaços. Quis ter uma reação. Mas aí já era tarde.

O evento já tinha acontecido e já tinham levado os pedaços que Ana precisava para ser uma pessoa que reage.

E Ana, que era inteira quando colocou o primeiro pé na escada rolante, saiu incompleta, como já disse anteriormente.