Coletores Lunares

O sonho de uma criança

Desolhar
Desolhar
Feb 24, 2017 · 7 min read

Hoje será um grande dia, meu pai finalmente me prometeu levar para pescar sonhos! Acordei eufórico e logo abri a janela do meu quartinho. A noite estava escura, conseguia ver a terra lá longe com suas luzinhas piscando na minha direção. Meus vizinhos aos poucos foram acendendo suas velas, com certeza será uma noite estrelada na terra, haviam mais casas com janelas abertas do que de costume, hoje é dia de pesca!

Quando sai do quarto meu pai já estava tomando café e minha mãe já havia preparado um pãozinho quentinho para mim, ao me ver logo me deu aquele beijo na testa que faz qualquer filho saber que é amado.

-Filho antes de sairmos vou repassar o que vamos fazer.- Mesmo já tendo repetido isso várias vezes na semana passada e eu saber tudo de cor. Meu pai se acomodou na cadeira pegou seu chá quentinho e falou.

-Vamos começar preparando a vara, mas acho que ela já esta pronta, em seguida vamos preparar a canoa, ela tem que estar perfeitamente estável depois… — Meu pai deu uma pausa olhando para mim para saber seu eu sabia o que viria a seguir, óbvio que sabia!

-Nós vamos ver como está o céu, se está escuro o suficiente para navegarmos suavemente!- Falei com o peito todo estufado.

Meus pais deram uma risada.

-Perfeito, depois vamos pegar nossa isca na lua, vamos pegar apenas uns pedacinhos dela para que alguém da terra consiga enxergar a isca. Saímos em 5 minutos, vá para fora e olhe se a noite está escura o suficiente. Hoje acho que você já esta maduro o suficiente para pescar, na minha época minha primeira pesca foi aos… Aos 12 anos. Nunca vou esquecer.-

Acabei de comer meu pão e logo sai correndo para ver se estava seguro para navegar. Ao sair de casa enxerguei a imensidão, o mistério que é esse mundo fora de casa, olhei para a terra, ela parecia tão viva, porem tão ingênua, hoje parecia um dia perfeito para pescar sonhos, a canoa flutuava suavemente na escuridão.

Sentei com os pés na escuridão esperando meu pai, ela era fria e aguda, nada disso ia tirar o prazer de finalmente poder pescar com meu pai, ele sempre voltava com tantos sonhos para casa, agora finalmente vou poder pegar alguns!

-Filho tire os pés da escuridão, está muito fria! Seque-os e vamos indo-

Sequei os pés e fiquei posto. Meu pai entrou primeiro, ela deu uma balançada, logo depois ele me pegou pelos braços e me pois dentro.

-Fale chau para sua mãe- Falou ele enquanto desarrumava a corda e preparava a vara.

-Chau mãe! Vou pegar vários sonhos para você!- Falei com extrema empolgação.

-Claro filho! Juízo hem!- Falou ela abanou as mãos e logo entrando em casa.

Fomos nos distanciando e aos poucos conseguia enxergar apenas a luz da vela dentro de casa, logo percebi que era assim que minha casa parecia para as pessoas da terra. Apenas um brilho que eles chamam de estrela.

-Filho agora que estamos a caminho da lua e a vara já esta pronta, quero que você entenda que não estamos tirando ou roubando da lua, usamos ela como as pessoas usam as arvores frutívoras na terra, ela gera frutos todo mês para colhermos, até ficar apenas um risquinho dela, depois ela cresce de novo. Todo mês ela vai voltar ao seu tamanho normal, que chamamos de lua cheia, e todo mês vamos colher um pouco de seu brilho. Alguma pergunta?-

-Acho que não… Mas todo mundo faz isso?- Perguntei

-Não, boa pergunta, se todos nossos vizinhos pegassem um pedaço dela ela iria sumir e nunca mais voltar, então somos poucos os que podem colher o brilho da lua, somos os Coletores Lunares, engraçado, deviam ter lhe ensinado isso na escola.-

-Hmm entendi! Aquela lá é a lua?- Perguntei rapidamente pois provavelmente eles devem ter falado isso na escola e eu não prestei atenção.

-Sim! Está vendo como ela tem uns buracos nela?-

-Sim-

-Pois então são os lugares onde colhemos seu brilho, estamos chegando, está pronto para pegar uns três pedaços de brilho?- Perguntou meu pai olhando com uma cara animada para mim.

-Sim!- Gritei.

Fomos nos aproximando da lua e aos poucos fui vendo a imensidão que ela era, tão brilhante e tão viva, era um ser realmente fascinante! Só de imaginar que alguns plantes tem mais de um desses é impressionante!

Ao chegarmos do lado dela meu pai jogou a ancora na escuridão. Pegamos alguns pedaços dela que brilhavam de uma maneira totalmente diferente de tudo, nem chegava aos pés das velas de casa, esse brilho não era apenas uma cor, era uma mistura de cores, a luz misturava milhares e milhares de cores formando uma totalmente diferente e única, era lindo. Guardamos três pedaços brilhantes no pote e seguimos nosso caminho.

-Filho estamos nos aproximando da terra, você sabe que lá em baixo vivem pessoas com sonhos, elas todas desejam algo, é isso que viemos pescar, pois quando eu jogar a isca para fora e balançar a vara vários pessoas vão olhar e pensar que é uma estrela cadente, elas chamam ela assim lá embaixo, e logo vão começar a fazer desejos, assim que eu pegar um abra um pote e tampe assim que eu botar ele dentro, entendeu?-

-Sim! Mas vou poder pescar também?-

-Provavelmente… Vamos ver… Se prepare estamos chegando.-

Ao nos aproximarmos da terra vi que haviam milhares de luzinhas lá em baixo, milhares mesmo, algumas eram mais aglomeradas em uns lugares outras eram mais solitárias, era algo bonito de se ver. Meu pai preparou a vara, pegou um pedaço dos três que pegamos da lua, botou na isca, e jogou como se fosse uma dança aquele pedaço na direção da terra. Ele balançava-a e fazia o brilho da isca voar ferozmente de um lado para o outro, era uma dança linda com a terra ao fundo. Der repente algo subiu era um sonho, o sonho veio e se grudou na isca, um desejo. Era um desejo violento! Mas meu pai com muita bravura tirou o da escuridão e logo jogou-o para dentro da canoa, pegou ele rapidamente, colocou dentro do pote que eu segurava nas mão e gritou — FECHE!- .

Fechei o pote e olhei, ainda estava vivo, era o sonho de amor, como a maioria dos desejos são. Olhei e vi que era de um homem que desejava essa mulher que eu via no pote. Na luz do sonho o rosto dela era lindo, jovem e um fogo mostrava a paixão do desejo. Era tão puro e belo.

-Pai! Esse sonho vai morrer! Vamos, vamos… O que vamos fazer? Ela é tão linda- Falei olhando desesperadamente para ele.

Ele se sentou de novo respirou fundo pois tinha tido uma luta para pescar esse sonho, olhou para mim.

-Filho, esse sonho logo mais vai morrer ai dentro do pote e vai se transformar em água, algo muito difícil de se ver, pois esse especificamente é um belo sonho, mas assim que ele se transformar em água vamos levar para casa e usar ela para tomarmos banho, para regar suas plantas e muitas outras coisas, somos dependentes da água, por isso a pesca é um trabalho tão importante, sem ela não conseguimos viver, entende filho?- Falou meu pai

-Não! Não podemos fazer isso! Estamos roubando! Essa pessoa nunca vai ver seu sonho se realizar!- Falei e aos poucos comecei a chorar.

-Mas filho é impossível realizar a todos os sonhos. Isso seria o caus. Temos que fazer o que é melhor para o equilíbrio do universo. Bem que sua mãe me falou que você ainda não estava preparado para a realidade, para a pesca.-

Essa última frase apertou meu pequeno coração em uma amargura terrível, eu olhava para aquela moça que ainda queimava suas últimas chamas de desejo dentro do pote, era tão bela… Enxerguei o sofrimento dentro do coração do jovem que por ela se apaixonou, era um sentimento que em palavras não vou conseguir descrever pois mais real do que cada uma delas essa paixão se consiste. Olhei para meu pai com lagrimas em meu rosto.

-Entendo pai… Vamos pescar mais sonhos! Mas como é que esses sonhos seriam realizados?- Perguntei olhando fixamente para ele.

-Boa filho! Sei que é difícil aceitar, mas logo você vai. Ah e sim eles só são realizados com o salto, isso foi o que meu avô falou, uma vez ele viu um Coletor Lunar pulando com um desejo na mão, e logo ele viu o brilho daquele desejo se materializando na terra. O problema é que o homem morreu, por isso não é permitido realizar nenhum desejo, com sonhos vivos um homem não vive. Prepare a próxima isca filho- Falou ele com a vara na mão.

Olhei pela ultima vez para o rosto da moça dentro do pote, apertei ele no meu coração senti o finzinho do calor no meu peito, em dois passos pulei do barco.

Escutei um berro desesperado do meu pai atrás de mim, um berro agudo de alguém que acabara de ver algo que o traumatizara pelo resto da vida. Eu por outro lado sentia o vento da escuridão, sentia o desejo se tornando vivo de novo, caia e caia mais rápido em direção a terra, o rosto da mulher era cada vez mais forte e caloroso, der repente…

De cima meu pai enxergava o desejo que realizei, suas lágrimas corriam pelo rosto, ele nem percebera que deixara a vara cair na escuridão, ele nem percebera que suas lágrimas caiam na terra, ele nem percebera que suas lágrimas em gotas foram se transformado e elas em chuva que aos poucos caia sobre a terra. Milhares de novas luzinhas se acenderam em um ponto totalmente escuro da terra, água caia onde nunca havia caído, água florescia o que já a muito tempo não vivia mais.

Essa foi a noite em que realizei um sonho, sacrifiquei três corações e ajudei milhares de pessoas.

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