Pior time da MLS pode ser campeão da Concacaf


“Marquemos a história”. O lema que embala time e torcida do Impact de Montreal não poderia ser mais apropriado. Pela primeira vez, uma equipe canadense está na final da Liga dos Campeões da Concacaf. Após o empate de 1 a 1 contra o América do México em pleno Estádio Azteca na quarta-feira passada, Montreal precisa de um empate sem gols ou de uma vitória simples para conquistar o título inédito na história do clube fundado em 1992. Mais do que isso, seria a primeira vez que uma equipe da MLS (Major League Soccer) disputaria o Mundial de Clubes da FIFA.

A partida decisiva é hoje e todos os 61 mil lugares do Estádio Olímpico já foram vendidos. Um novo recorde, superando os 60.860 espectadores que em 2012 foram ver o Los Angeles Galaxy de David Beckham. No dia 15 de abril, duas semanas antes da final, 59 mil ingressos já estavam esgotados. Na segunda-feira, dois mil adicionais foram vendidos em questão de horas. Curiosamente, metade deles dão direito a lugares em pé. É provavelmente o primeiro registro de “geral” na história do futebol canadense.

“Queremos um estádio de pé e barulhento!”, declarou Richard Legendre, vice-presidente executivo do Impact de Montreal. Um imenso mosaico nas cores do clube — azul, preto e branco — será montado para receber os candidatos a heróis.

Jovens se divertem na véspera do jogo

“Não arrisco nenhum prognóstico e tenho evitado falar do jogo”, admite Eric Chenoix, um dos fundadores da Associação dos Torcedores do Impact de Montreal, formada em 2011. “O nervosismo está lá em cima! Vou me deixar levar pela onda e ver onde chegaremos. Pra mim, o Impact já sai vencedor por ter chegado a essa final e ter conseguido o empate no Azteca”, completa.

Quer a bola entre ou não, a maneira como Montreal vive o futebol está se transformando. Conversas sobre o time surgem espontaneamente nos mercados, bares e elevadores.

"Enorme façanha", manchete do dia 23 de abril

No dia seguinte ao empate na Cidade do México, a capa do Journal de Montréal, o diário de maior circulação na província de Quebec, estampava o argentino Ignacio Piatti (campeão da Libertadores em 2014 pelo San Lorenzo) comemorando o gol no México. A escolha da manchete pode parecer óbvia, mas não quando se trata de uma imprensa acostumada a priorizar o hockey. Na mesma noite do jogo de ida, o Montreal Canadiens enfrentou o Ottawa Senators pelos playoffs da NHL (National Hockey League). É verdade que a derrota sobre o gelo naquela ocasião facilitou a decisão editorial, mas isso não diminui a relevância do fato.

Antes de chegar à final, o Impact vivia um momento muito difícil. O clube terminou a temporada 2014 da MLS na última colocação e dos últimos 47 jogos na liga norte-americana, venceu apenas sete. “Eu sentia que o Impact estava ameaçado”, confessa Patrick Leduc, ex-jogador do clube e hoje comentarista do canal de televisão RDS e colunista do jornal La Presse. Leduc ressalta, no entanto, a retomada no interesse local pela equipe tricolor. “O público está aumentando e cada vez mais exigente. Não precisamos mais explicar o que é um cartão vermelho ou um cartão amarelo. Existe uma demanda por mais expertise, mais cobertura, mais análise. Mas nunca será como o Montreal Canadiens”, constata.

“É uma questão de respeito. Respeito pelo clube, respeito pelos torcedores. Tem que ser dado ao Impact o espaço que ele merece. Normalmente, o pré-jogo não tem nem 30 minutos”, reclama Eric Chenoix.

O improvável caminho até a final

A saga do Impact de Montreal começou com a conquista do bicampeonato canadense de futebol em 2014. O título credenciou a equipe a disputar o torneio continental da Concacaf. Na primeira fase, foi o melhor do grupo que divida com o Club Deportivo FAS (El Salvador) e o New York Red Bulls (EUA). Nisso ainda não há nada de extraordinário, até porque o Impact já havia avançado às quartas-de-final da Liga em 2008. É a partir daí que o inverossímil começa a se espreguiçar.

No jogo de volta das quartas-de-final, até os acréscimos do segundo tempo, o Impact estava sendo eliminado pelo Pachuca (México) diante de 38 mil torcedores no Estádio Olímpico. Porém, no último lance da partida, um atacante novato recebe um longo lançamento de antes da intermediária, domina a bola no peito e, meio desajeitado, elimina os mexicanos por entre as pernas do goleiro Óscar Pérez.

Era Cameron Porter, 21 anos. Na sua segunda partida como profissional, marcou o gol mais importante da história do clube até então. Nascia ali uma estrela, uma grande esperança. Duas semanas depois, Porter rompe os ligamentos do joelho esquerdo num jogo pela MLS.

Na semifinal, o adversário era o Alajuelense, time costarriquenho duas vezes campeão da Concacaf. Em casa, o Impact abre vantagem de 2 a 0. Na Costa Rica, a equipe canadense se depara com a euforia e a hostilidade da torcida local. O jogo termina 4 a 2 para o Alajuelense. Pelos gols marcados fora de casa, o Impact avança à grande final contra o gigante América do México.

Na história da competição, o América soma cinco títulos, o último deles conquistado em 2006. Se vencer este ano, o clube se iguala ao Cruz Azul (também do México), vencedor de seis edições. A discrepância entre Impact e América vai além da tradição no futebol. A folha salarial do clube canadense não chega aos US$ 5 milhões, enquanto a do América alcança US$ 50 milhões.

“Sabemos que somos os azarões, mas somos os azarões desde o início do torneio e ainda estamos aqui”, disse o treinador Frank Klopas na coletiva após o primeiro jogo da final.

Goleiro contratado a 48 horas do jogo

Para elevar a dramaticidade desta história, na final o Impact não poderá contar com seu goleiro titular, Evan Bush, punido por acúmulo de cartões amarelos. Bom, nada mais natural do que acionar o goleiro reserva, não? Não. O goleiro substituto seria Eric Kronberg, não fosse sua participação na primeira fase do torneio pelo Kansas City, outro time da MLS.

Os dirigentes concordaram que o terceiro goleiro, de apenas 19 anos, carece de experiência para encarar um desafio dessa dimensão. Então, a 48 horas da final, o clube contratou um novo goleiro. Escolheram o alemão Kristian Nicht, de 33 anos. Nitch já foi emprestado ao Impact este ano, mas pertencia ao Indy Eleven, time da North American Soccer League (NASL), espécie de segunda divisão do futebol norte-americano.

Sobram elementos para fazer desta quarta-feira uma noite inesquecível. É geral a consciência de que essa oportunidade é única e que o clube deve tirar proveito dela dentro e fora de campo.

Logotipo adotado desde a entrada na MLS, em 2012

“É extraordinário, eu fico muito feliz pelo clube, eles vão marcar a história. Mas é preciso garantir que haja um após. Existem novas perspectivas, mas não sei como isso vai se sustentar a longo prazo. Meu único medo é que depois disso, mesmo que tenhamos alcançado um outro patamar, tudo volte como antes”, avalia o ex-jogador Patrick Leduc.

“Acho que agora as pessoas se dão conta de que não estamos mais na segunda divisão e que o espetáculo vale a pena. Ouso acreditar que isso vá se traduzir num público maior nos jogos da MLS e mais respeito nas mídias tradicionais”, prediz o torcedor Eric Chenoix.

A magia do futebol encontra terreno fértil na América do Norte. Alguns comparam a história do Impact com a de Cinderela. Montreal só espera que a meia-noite não chegue antes da hora.