Solteira sim, sozinha muitas vezes.

Mulher. 28 anos. Solteira. Sem filhos.
Essa breve descrição pode levar a vários julgamentos, inclusive nenhum. Mas adianto que não sou a personagem romântica desesperada para casar ou a personagem baladeira vida loka e, infelizmente, o mais próximo da personagem independente&cosmopolita é quando compro café no posto ou busco minhas roupas na lavanderia.
Sei que tem muita gente solteira por aí, não importa o gênero ou preferência sexual. Tem gente que lê textos autoajuda nas web,faz suas preces, vai na cartomante, se benze, vê filmes com a Anne Hathaway e pensa “aah quando for pra ser, vai ser!”.
Eu estou solteira há um tempo considerável “ — ah eu também to solteira há dois anos! Sei bem como é”- você pode pensar. Mas não não, quem escreve aqui é praticamente uma profissional no assunto.
Digamos que minha carreira solo (re)começou há menos tempo que uma vida, mas bem já deu tempo de ver uma Copa do Mundo e uma Olímpiada. Posso dizer que existe uma rede de amigos, conhecidos e parentes, que vão comemorar o dia que eu marcar o famigerado “ + 1” em convites de gala — se isso fosse um filme — na vida real eles ficariam satisfeitos só de ver uma cadeira extra na nossa mesa de bar.
Gloria-deus-sem-or-jesus eu vivo em uma bolha social sem pressão para casamentos & filhos, a grande maioria dos amigos ainda gasta boa parte do dinheiro em entretenimento pessoal, e não investindo em bens duráveis, como seria o esperado na vida adulta. Mas enfim, sou uma privilegiada no quesito ~ pressão social ~.

Mas com o passar do tempo nós, serumaninhos, ficamos mais exigentes, menos pacientes e mais maniaticos. O que significa que fica cada vez mais difícil achar um “match” que valha a pena. | Pausa para falar sobre os apps de relacionamento: eles funcionam sim! Conheço casais-tinder-happn e tem até bebê-tinder-happn nascendo neste mundo. Porém, para algumas pessoas, serve só como uma espécie de videogame mesmo.| Mas como estava dizendo, quanto mais rola a timeline da vida, mais você sabe reconhecer se aquela pessoa é do tipo que vale a pena futuramente gastar seu tempo pensando nela ouvindo Raça Negra / Jorge&Mateus / Sam Smith / Los Hermanos/ Insira-aqui-a-cafonice-de-sua-preferência.
Fomos criados por uma geração que antes dos 30 anos tinha emprego estável, dois filhos e cantava “oh happy day” com o comercial de margarina.
Como mulheres, fomos criadas para ter sucesso profissional, independência financeira, viajar… ganhar o mundo! Mas no meio de tudo isso lembrar de ter filhos, achar um belo homem pra ser seu par e também não esquecer que “homem não gosta de mulher fácil”! Sabemos que essas expectativas foram ultrapassadas e muita coisa mudou desde o final dos anos 80, mas — como se não bastasse a pressão genética — o cinema e a televisão ainda nos bombardeiam com personagens que só se completam quando encontram um par perfeito com quem possam dividir a vida. Com tantas mensagens externas, acaba sendo inevitável que o estado civil influencie diretamente suas inseguranças, ansiedades e autoestima. E você acaba se questionando eventualmente (considere álcool como um catalisador): o que afinal você tem de errado? Qual é o seu problema? Por que com você o timing nunca é perfeito? Por que na sua vida nunca rola aquela cena em câmera lenta, troca de olhares e uma bela canção na trilha sonora? Sabe porquê? Porque o problema pode realmente não ser você, e sim o outro lado.

Um rápido diálogo com uma amiga outro dia: — Onde será que andam as pessoas legais hein? — As pessoas legais tão aí, casando, tendo filho… enquanto a gente ta fazendo o que? Tá aqui sendo convidada pra ser madrinha de casamento, de filho… enchendo a cara!
A verdade é que a gente tá fazendo muitas coisas (e enchendo a cara também ocasionalmente). Meu tempo solteira foi (e é) importantíssimo pra eu descobrir quem sou eu no rolê da vida. Do que eu gosto. Se alguém aí viu Noiva em Fuga (maravilhosa Julia Roberts nos anos 90, recomendo) sabe que mais importante do que ter um par ideal na vida, é saber que tipo de comida você prefere. Saber qual é a playlist da sua trilha sonora, como John Cusack no sensacional Alta Fidelidade.
Acho que ser solteira(o) é aprender a conviver consigo mesma, criar hábitos chatos e deliciosos, curtir ver Netflix de pijama tanto quanto curte uma balada ou um bar com os bests até de manhã. É fazer muita coisa errada, conhecer muitas pessoas incríveis, conhecer muitas pessoas erradas também. Aprender a diferença entre sexo, carência e afeto. Conhecer a pessoa certa na hora errada (nem sempre a sua hora errada).
É aprender que liberdade e solidão ficam na mesma prateleira do supermercado. E tudo bem. Talvez esse texto ajude a minha personagem a ser solteira pra sempre, mas eu vou ficar bem. E você também.
