Você não é todo mundo

Eu acho que existe um acordo não formalizado entre as mães do mundo todo em que elas concordam em dizer essa frase para os filhos, mesmo que quando a gente ouça não faça tanto sentido. Parece razão inventada, resposta preguiçosa, verdade que ganha força na figura autoritária da mãe confrontando nossa rebeldia. É o óbvio ganhando razão e encerrando argumentos. Você não vai, não pode, não deve. Porque sim. Porque eu tô mandando. Porque você não é todo mundo.

De uns tempos pra cá eu tenho pensado nisso. Não só na minha mãe e na saudade que eu sinto dela, mas também na falta que faz a gente ouvir uma resposta de mãe de vez em quando. Eu já não preciso de permissão para sair de casa, mas queria algum consolo que aliviasse as frustrações da vida adulta. É especialmente incômodo reparar o quanto a vida-dos-outros parece caminhar num ritmo constante e a minha sempre dá volta, pára, fica perdida, não acha vaga no estacionamento.

Na minha cabeça, todo mundo sabe o que quer. Todo mundo conseguiu aquele estágio legal. Todo mundo está feliz na faculdade. Todo mundo tem um talento incrível. Todo mundo está correndo atrás do sucesso. Todo mundo está construindo relacionamentos sólidos.

Aí eu fico com medo, com vergonha, com o coração apertado por não conseguir as mesmas coisas. É nessas horas que eu preciso me lembrar da bronca.

Tá tudo bem se eu fizer diferente. As pessoas seguem caminhos distintos. A gente não pode usar os outros como medida do nosso sucesso, nem esperar os mesmos resultados sempre. Nosso valor não é medido em perspectiva. Não é uma competição. Eu não devo nada a ninguém, muito menos a Todo Mundo.

Faz parte do discurso-de-mãe dizer “não” muitas vezes. Aliás, minha mãe contava que esta foi a primeira palavra que eu falei, de tanto que eu ouvia. E por mais que pareça ruim, dizer “não” é importante. É essencial, na verdade, pra que a gente saiba dizer “sim” pra nós mesmos e minimizar o ruído que vem de fora.

Esqueça os outros. Você não é todo mundo. Ainda bem.