Eu mereci a doença pra parar e escrever

no primeiro texto pessoal do ano, pensei em escrever sobre um cara que só blefa comigo. só aparece para me dar migalhas. com ele é tudo tão pouco, fútil e problemático. não há motivos para escrever sobre essas expectativas, que são apenas minhas. então não vou falar dele. ele é segundo plano como deveria.

hoje desejo falar sobre luz. sobre como é difícil contê-la. a luz - no caso a minha, ou apenas a considero como, mas é 'o outro' - ela é negra, porque é um eclipse. é o sol desaparecendo pela lua, a metáfora está correta, é bem isso mesmo.

imagino o sol pulsando o calor, aquelas flamas, o que quer que seja. ele me parece impulsivo e intenso, delirante. ele é pleno e soberano em si. enfim, as características do sol, o outro, já sei elas todas e não vou enumerá-las numa persistência. não tenho tempo para ser paciente e dona de minúcias. por hora, também não vou olhar para mim. antes, me debruço sobre a lua.

mas, calma. não quero adiantar as coisas, nem a fala da lua. porque ela é muito mais sutil, percebe? ela não tem luz própria e não diz quando se aproxima. apenas quando o sol a ilumina. portanto, pretendo satisfazê-la em sua descrição, mas não agradá-la. isto é o que eu não posso. porque ela é sempre a última a saber, ou a primeira, mas não aparenta porque é chegada em surpresas. para mim, desde o primeiro sinal ela sabe porque acompanha o sol e a terra. a lua é stalker. nunca está à frente ou atrás. ela está colada no compasso sem dar um passo em falso. conpreende? a lua sabe o meu cheiro e agora, enfim, chegou a hora de falar sobre quem sou.

nesse eclipse, sou a sombra e vivo ali escondida. na condição dessa metáfora sou mesmo sombra, mas solo sou muito mais. sendo solo, eu sou terra. ora nutrida, ora fodida. isso faz parte da vida e está bem. eu compreendo e aceito. na condição de sombra, entretanto, não sou nada disso. ela não tem vida, não é nada se não ofuscada, divida entre um e outro. nesse lugar, mal sei onde começo e termino. e eu nasci para ser sombra? para estar no meio em nome de que? de luz, da luz infinita, daquele assombro incrível quando me toca?

disse que não falaria sobre o cara das migalhas. pois bem, não falei dele, mas do sol, da sombra e da lua. todos têm nomes próprios. e eu ali no meio, migalha, novamente. por isso parei, tipo, pedi para sair, mas não durmo mais. e vivo nas beiradas tentando ser terra sem ser mãe - cansei disso afinal.

vou falando em metáforas para não ficar tão claro no futuro, quando espero já ter esquecido disso, daquilo, mas não de mim. meu intuito é estar fincada aqui, saturnina porém viajante. a terra apenas se lembra bem porque não pode esquecer totalmente. por isso me engano, de engano em engano… eu vivo procurando escapar. quando volto está tudo o mesmo. e eu adoeço como numa deliberação do corpo que pede: 'para e pensa’.

curada, sigo em equivoco novamente. so what’s next?