“Abram os olhos e vejam tudo o que conseguirem ver antes que se fechem para sempre.” Resenha do livro “Toda Luz Que Não Podemos Ver” — Anthony Doerr

O que a guerra é capaz de fazer aos sonhadores?

Colocando a Segunda Guerra Mundial de lado, pano de fundo desta história, já que muito do progresso é resultado direto da necessidade imposta por situações de conflito, o que, de fato, fez a guerra aos sonhadores, aos engenhosos, aos inventivos e aos visionários? Talvez no final desta resenha, tenhamos essa resposta. Ou não.

O livro é dividido em treze partes com diversos capítulos curtos em cada um deles, alternando entre dois personagens: Marie- Laurie e Werner, dois jovens, entre tantos outros que viriam a ser apanhados neste triste período em que a História se tornou um pesadelo, que se viram privados da oportunidade de vir a ser tudo o que o seu potencial lhes permitisse ou o coração sentenciasse. Milhares de pessoas encurraladas em papéis que nunca escolheriam representar, os seus cursos de vida completamente alterados, os seus futuros lamentavelmente sabotados.

Marie- Laurie é uma garota que fica cega aos seis anos de idade. Alta e sardenta, ela mora com seu pai em Paris. Seu pai é o chaveiro do Museu de História Natural da capital francesa, e ela sempre o acompanha no trabalho, onde faz alguns importantes amigos, como um cientista que adora conchas e moluscos. Seu pai se preocupa a todo momento com a segurança e independência de Marie- Laurie, e constrói para ela uma maquete da cidade para que ela aprenda a ler com as próprias mãos, e conhecer cada local para que ela possa depois se locomover sozinha. Todo aniversário, Marie ganha algo especial, sempre feito pelo seu pai, e sempre acompanhado de um livro de histórias surpreendentes.

Werner Pfennig mora em Zollverein, uma cidade perto de um complexo de mineração, na Alemanha. Órfão, ele mora com a irmã Jutta em um orfanato com outras crianças e com Frau Elena, uma francesa que lhes faz mais do que simplesmente cuida-los. Ela se torna sua família. Curioso por natureza, um belo dia Werner encontra um rádio quebrado e começa a desmontá-lo. Todas as noites, ele e sua irmã escutam um programa de rádio para crianças que sempre termina com uma mesma canção: Clair de Lune, Debussy.

Maurie -Laurie e Werner crescem, enquanto a guerra começa a dar os seus primeiros indícios.

Werner neste meio tempo, desenvolve uma habilidade incrível em consertar rádios e muitas pessoas já traziam seus próprios para que ele consertasse. Como ele estava próximo a completar 15 anos, seu destino seria trabalhar na mina, onde seu pai morreu devido a um desabamento de pedras. Ironia do destino ou não, Werner recebe a visita de um homem importante que, ao ter seu rádio consertado pelo menino, decide que irá inscreve-lo para que possa estudar e servir ao Governo, ou melhor, ao glorioso e imponente Reich. Werner começa então a adentrar um universo que nenhuma pedra sobre sua cabeça poderia ser mais desestimulante.

Enquanto isso, Marie- Laurie e seu pai começam a ver os bombardeios em Paris se transformarem em algo frequente, e decidem que não irão continuar ali e colocarem suas próprias vidas em perigo. Desta forma, eles partem para Saint-Malo, uma cidadezinha da França repleta de ostras e moluscos. Um ponto importante e talvez a chave para o desfecho desta belíssima história, é que neste exato momento, o pai de Marie -Laurie recebe uma importante tarefa. O diretor do museu lhe confia guardar uma pedra preciosa, que carrega consigo uma história muito misteriosa e cobiçada por muitos. Fiquem tranquilos, voltaremos para a pedra assim que tudo começar a fazer sentido.

A narrativa segue e acompanhamos as dificuldades de Marie-Laurie e seu pai até chegarem em Saint-Malo e adaptar-se a nova cidade junto com o tio avô de Marie, Ettiéne, um homem que tendo presenciado de perto os horrores da Primeira Guerra, apresenta comportamentos excêntricos e agorafóbicos. Ettiéne abrigará a garota e seu pai em sua casa, que é repleta de rádios e histórias para crianças curiosas, enquanto Werner se destaca e cada vez mais coloca seus conhecimentos físicos e matemáticos a prova na escola do Reich.

A guerra avança e Werner é recrutado como soldado raso, combatendo uma guerra mais limpa e mecânica devido a sua aptidão natural para operar rádios. O destino de ambos acaba por se cruzar, como se assim estivesse destinado, pois é em Saint -Malo que Werner escuta um pedido de socorro pelo rádio, através de uma canção já tão conhecida por ele e sua irmã Jutta.

No meio do destino traçado para que este encontro acontecesse, está entre eles um valiosíssimo e amaldiçoado item. Um diamante de 133 quilates, conhecido como Mar de Chamas, azul como o mar, como uma cintilação vermelha no seu núcleo. O Mar de Chamas carrega consigo uma lenda que o portador da mesma viveria para sempre, porém muitas desgraças aconteceriam ao seu redor e com as pessoas que ama. Lenda ou não, entendemos no final que o portador do seu próprio destino somos nós próprios.

Desde cedo, tanto Marie-Laurie como Werner demonstraram inteligência e perspicácia acima da média, bem como uma extrema curiosidade sobre o que os rodeia, procurando o conhecimento de forma constante. A paixão de Marie-Laurie por aprender, tateando cuidadosamente um objeto e saciando a sua curiosidade com perguntas é notável (“tocar verdadeiramente em algo é ama-lo”), e Werner com as suas infinitas dúvidas sobre o funcionamento das coisas e habilidade para reparar aparelhos, chega a ser presenteado com a oportunidade de evoluir nos estudos.

A Segunda Guerra Mundial tem vindo a ser romanceada um cem número de vezes, sob milhares de perspectivas, recorrendo aos mais diversos personagens e imensos pontos de interesses. Ainda assim, Toda Luz Que Não Podemos Ver está muito longe de ser apenas mais um romance. Ganhador do Pulitzer de Ficção em 2015, este livro traz uma visão simples do que significa cada ser humano em um contexto altamente desafiador, e quais as consequências que cada um terá a partir do momento que se foi definido um destino através de simples e práticas escolhas.

Destino e lendas fazem sim parte desta história, mas o principal não é se apegar a estes dois temas, e sim que mesmo existindo um destino e uma lenda, Marie e Werner fizeram escolhas, e estas escolhas definiram o seus destinos (trágicos ou não), e o destino de todos os outros personagens que compõe de forma muito bela o desfecho de uma história de uma vida inteira de dois brilhantes e curiosos seres humanos.

Gostaria de compartilhar uma pequena história, e encerrar através deste reflexão o que significa escolhas perante a talvez uma vida já pré traçada para acontecer:

“Certa vez um homem caminhava pela praia numa noite de lua cheia. Pensava desta forma:

Se tivesse um carro novo, eu seria feliz;

Se tivesse uma casa grande, eu seria feliz;

Se tivesse um excelente trabalho, eu seria feliz;

Se tivesse uma parceira perfeita, eu seria feliz.

Neste momento ele tropeçou em uma sacola cheia de pedras. Ele começou a jogar as pedras uma a uma no mar cada vez que dizia:”Seria feliz se tivesse”.

Assim o fez até que somente ficou com uma pedra na sacola, que decidiu guardá-la. Ao chegar em casa percebeu que aquela pedra tratava-se de um diamante muito valioso. Você imagina quantos diamantes ele jogou no mar sem parar para pensar?”

Assim são as pessoas que jogam fora seus preciosos tesouros por estarem esperando o que acreditam ser perfeito ou sonhado e desejando o que não têm, sem dar valor ao que têm perto delas.

Se olhassem ao redor, parando para observar, perceberiam o quão afortunadas são.

Cada pedra deve ser observada, pois pode ser um diamante valioso. Cada um de nossos dias pode ser considerado um diamante precioso, valioso e insubstituível. Depende de cada um aproveitá-lo ou lançá-lo ao mar do esquecimento para nunca mais recupera-lo.

Por isso que Toda Luz Que Não Podemos Ver é exatamente sobre ter o poder de escolher quais são as pedras preciosas que devemos guardar, dispensar, ignorar, receber ou doar. Marie-Laurie e Werner tiveram seus destinos traçados com o único objetivo de saber exatamente qual luz os guiaria em suas escolhas. Aquelas que eles não puderam ver, mas apenas sentir.

E você, como anda jogando suas pedras?

Minha nota: 9.0

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.