“Pode-se enganar a todos por algum tempo; pode-se enganar alguns por todo o tempo; mas não se pode enganar a todos todo o tempo.” — Resenha do livro “O segredo do meu marido” — Liane Moriarty

“…Ela virou o envelope. Estava lacrado com um pedaço de fita adesiva amarelada. Quando a carta tinha sido escrita? Parecia velha, como se tivesse sido anos antes, mas não havia como saber ao certo. Imagina que seu marido tenha lhe escrito uma carta que deve ser aberta apenas quando ele morrer. Imagine também que essa carta revela seu pior e mais profundo segredo — algo com o potencial de destruir não apenas a vida que vocês construíram juntos, mas também a de outras pessoas. Imagine, então, que você encontra essa carta enquanto seu marido ainda está bem vivo…”

Comecei a ler “O segredo do meu marido” pensando que, apesar de se afastar um pouco dos meus romances habituais, seria uma outra história banal sobre mentiras, e nada muito surpreendente. Não poderia estar mais enganada. A obra de Liane Moriarty se mostrou ser um verdadeiro suspense, revelando a cada capítulo um nova trama perturbadora, tecendo um final um tanto quanto chocante e inesperado.

A história começa nos apresentando Cecilia e seus dramas familiares. A principio o leitor fica um pouco aturdido com a quantidade de informações aparentemente irrelevantes que a autora joga na narrativa, mas tudo faz completo sentido conforme a história vai revelando seu verdadeiro pano de fundo. Liane descreve quase de maneira exata como funciona nossa cabeça naqueles momentos em que nem estamos muito preocupados em pensar. Parece que tudo faz parte de seu plano de mostrar que as personagens do livro são de fato banais. Mães de família, esposas dedicadas, mulheres comuns vivendo vidas extremamente monótonas e “sem sal”.

Cecilia sempre deu tudo de si para suas três filhas e seu marido. É uma mulher dedicada ao seu trabalho como vendedora de Tupperware, e ganha muito bem trabalhando com isso, obrigada. É super ativa nas questões da sociedade e completamente apaixonada pelo seu marido. Cecilia vive uma vida de propaganda de margarina.

Após conhecer Cecilia e sua vida exemplar, nos deparamos com Tess, uma mulher que nunca pensou que havia nada de errado em seu casamento, e jurava que era super feliz com seu marido Will e seu filho Liam, convivendo pessoalmente e profissionalmente com sua prima e melhor amiga Felicity, uma ex obesa que deu uma guinada na vida emagrecendo tanto que ficou parecida com uma modelo de passarela. Um belo dia, Tess descobre que sua prima e seu marido se apaixonaram, e estão pensando seriamente em seguir uma vida a dois sem Tess e Liam presentes para atrapalha-los.

Quando estamos começando a entender a dinâmica da vida de Tess, e seu derradeiro acontecimento de traição dupla, somos apresentados a Rachel, uma mulher de meia idade, que vive sozinha e trabalha alguns dias da semana em uma escola católica na Austrália. Rachel acaba de descobrir que seu filho e sua esposa Lauren irão se mudar para Nova York, e levar seu pequeno e amado neto na bagagem, deixando Rachel literalmente abandonada, visto que ela tenta superar a mais de 20 anos o falecimento precoce de sua filha Janie, que foi morta ainda quando adolescente, e a polícia local nunca conseguiu descobrir a identidade de seu assassino.

A história muda quando Cecilia sem querer, encontra a carta escrita por seu marido, que promete entrelaçar de uma maneira tensa e irreversível a história destas três mulheres.

O segredo de meu marido é como uma árvore. No topo você se depara com várias informações sendo apresentadas sem muita conexão — muitos nomes, personagens, histórias e eventos cotidianos. Ao longo da história essas informações vão se juntando até enraizar de vez uma narrativa que entrega um final justo e fantástico. Um livro que tem tudo para ser clichê, mas que se torna uma agradável surpresa ao final.

O livro te faz refletir sobre valores, ética e moral. Até que ponto uma mentira pode definir a vida de outras pessoas, e como devemos agir quando essas mentiras são colocadas em prova, e podem novamente mudar a vida de muitas pessoas?

Aos santos do pau oco, aos abnegados de todas as religiões, aos probos e moralistas de plantão, principalmente os que se vestem de puros e éticos, em codinomes criativos nos conflitos inúteis nas redes e nos fóruns de discussão virtual, tenho uma má noticia para compartilhar com vocês: Enganar, fraudar e mentir são uma forma evolutiva de sobrevivência. Porém quando cultivamos, cometemos e escondemos uma mentira, isso traz um efeito devastador sobre nossas vidas.

O pecado vira um segredo, que como consequência vira uma mentira, e este conjunto de substantivos passam a trabalhar o tempo todo contra nós, e nos fazem absurdamente mal. Muitos se fecham em copa, e não falam com absolutamente ninguém sobre seus segredos, e esta, acreditem, é a solução encontrada por muitos para tentar em vão colocar uma pedra em cima de seus pecados, mas sabemos que quanto mais tentamos escondê-los, mas complicada fica a situação para nós. É como se a vida fosse nos colocando obstáculos, para que nosso segredo não se mantenha tão em segredo assim.

Não sou muito fã da Bíblia, mas existe uma passagem que diz “Aquele que tenta esconder seus pecados jamais prospera, mas aquele que confessa, alcança a misericórdia.”

Os segredos podem destruir um casamento, uma carreira profissional promissora, ou mesmo uma vida inteira. Fora a destruição, junto vem a culpa de saber que o segredo poderia ter ajudado ou prejudicado outras pessoas, e você é o único que tem o poder de mudar vidas ao seu redor, simplesmente porque escolheu sozinho e de forma egoísta não assumir seus próprios erros.

Para mim, o livro fala justamente sobre por que é tão difícil assumir os próprios erros. Essa afirmação, além de intrigante, é também muito reveladora. Quando somos criticados ou quando alguém aponta alguma falha nossa, buscamos nos esconder atrás das muralhas da nossa própria mente. Tendemos a erguer o escudo e nos defender dos ataques alheios, mesmo sabendo que falhamos e agimos de forma errada. Nossa mente se fecha, ativa mecanismos neuro — defensores como se fosse uma verdadeira aranha armadeira, encurralada pelo seu pior inimigo, e pronta para dar o bote. Afinal a frase de que somos nossos próprios inimigos, é mesmo verdadeira, concordam?

Assumir os próprios erros soa, aos ouvidos alheios e para nós mesmos como fracasso. O fracasso fere nosso ego, e nos diminui perante uma sociedade que vive debaixo da máscara da mentira. Aqui volto para o inicio da reflexão, onde menciono que mentir é uma ferramenta de sobrevivência. Vivemos em um mundo mascarado de mentiras, onde ouvir certas verdades chega a ser um insulto ao nosso próprio orgulho. Somos muito apegados aos elogios, e nos esquecemos de que são as criticas que na verdade nos fortalecem e nos edificam. É preferível mil vezes ouvir uma verdade que doí, a uma mentira que literalmente mata.

Assumir nossos próprios erros é abdicar da autossuficiência que nos prende. Sentir-se dono da verdade ou mesmo achar que sabe tudo é a pior ignorância que um homem pode ter. Quem nunca errou, também nunca descobriu algo.

Por que é tão difícil para um pai ou para uma mãe assumir seus erros diante de seus filhos? Por que é tão difícil assumirmos nossos erros perante nossas esposas e maridos? Por que será que o feedback assusta tanto as pessoas? Vergonha? Medo? Culpa?

Posso afirmar que neste livro você vai se deparar com muitos dilemas que envolvem os sentimentos de vergonha, medo e culpa, mas no final a lição que fica é que os fortes transformam seus erros em insumos para suas vitórias e aprendizados, e os fracos vivem sob os escombros dos seus próprios erros.

“Consciência é como uma pedra de três pontas, se agimos mal, a pedra rola, e a consciência doí. Mas se continuarmos agindo errado, a pedra esmerilha e já não há mais dor.”

Minha nota: 9,0

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