“Quem foi que disse que fazer o que manda o coração é uma coisa boa? É puro egocentrismo, um egoísmo de querer ter tudo e nunca ter nada.” Resenha do livro “A Garota no Trem” — Paula Hawkins

“Um para tristeza, duas para alegria, três para menina. Três para menina. Fico empacada no três. Não consigo passar disso. Minha cabeça está repleta de sons, minha boca, repleta de sangue. Três para menina. Posso ouvir as aves, as pega-rabudas — estão rindo, debochando de mim, um crocitar estridente. Um bando. Mau agouro. Posso vê-las agora, negras contra o sol. Não as aves, outra coisa. Alguém está vindo. Alguém está falando comigo. Veja só. Veja só o que você me obrigou a fazer.”

Como todo bom thriller psicológico, A Garota no Trem vem com uma promessa de ser uma intensa leitura, onde tudo que parece e se fala realmente não é o que se parece e o que se fala.

Tudo começa quando somos convidados a entrar na vida de Rachel, e ver o mundo através de seus olhos. Nossa primeira protagonista está com a sua vida literalmente pausada, e nada de novo acontece com e para ela, a não ser lembranças de um passado feliz que foi destruído por causa de uma traição.

Sem emprego e viciada em álcool, seus dias são todos iguais. Ela acorda com ressaca, vai para Londres de trem numa tentativa de despistar sua companheira de apartamento, se senta na janela e observa as casas ao redor, inventando nomes para as pessoas cotidianas que ela vê nas varandas de suas casas, e imaginando suas lindas e plenas vidas, enquanto remoí os pensamentos do que o seu ex marido Tom estaria fazendo com sua nova esposa Anna e sua filhinha recém nascida.

Imaginar ficções na cabeça talvez não seja o maior problema de Rachel, pois dependendo do nível de seu alcoolismo, e no livro acompanhamos muitos mais baixos do que altos de seu vicio, ela comete algumas loucuras como aparecer na sua antiga casa ou ligar para seu ex marido e sua nova esposa, implorando para que Tom lhe conceda um pouco de atenção. Somos literalmente levados a sentir pena deste personagem, a julgando como uma coitada que destruiu seu final feliz por causa de várias taças de vinho e tônicas com gim.

Em uma de suas voltas de Londres por trem, Rachel olha para uma casa específica, um lugar que ela costumava amar olhar porque sentia que o casal que ali morava possuía um tipo de amor que ela tinha com seu ex marido antes dele troca-la por uma mulher menos problemática que ela. No entanto, ao invés de uma cena de amor como em um filme de romance, ela vê algo diferente, algo que pode explicar muito dos fatos que ocorreram depois que a mulher que morava naquela casa foi dada como desaparecida pelos jornais locais.

Envolvida emocionalmente mais do que deveria, Rachel decide que precisa fazer alguma coisa para descobrir o que aconteceu com Megan, nossa segunda protagonista desta história, que ganha alguns bons capítulos, que também nos levam a julga-la como uma mulher totalmente confusa, perdida e com um passado extremamente nebuloso.

Neste ínterim, somos levados a conhecer Ana, a mulher que foi amante de Tom enquanto o mesmo foi casado com Rachel, e a atual e aparentemente recatada esposa e recente mãe de uma adorável criança. O livro não se cansa de nos levar aos julgamentos, certo?

A obra de Paula Hawkins se parece um quebra-cabeças cujas peças foram arrastadas pelo vento e que pouco a pouco vão conseguindo se reunir. A maneira que a autora optou para mostrar para os leitores a solução vai mudando o ponto de vista da narrativa entre as três protagonistas. A principio não entendemos muito bem o que a autora quer dizer reunindo os olhares destas mulheres tão diferentes, mas logo que as peças começam a se encaixar, tudo parece muito bem colocado. Destro destas alternâncias de narradores, há também uma divisão entre os turnos de cada dia que podem fazer parte tanto do presente quanto do passado. Parece confuso de inicio, mas realmente é uma combinação peculiar e que no final dá muito certo.

Mais o que afinal trata este livro? A Garota no Trem fala sobre Manipulação e Egoísmo. Explico melhor abaixo.

A chantagem emocional é uma forma de controle que recorre basicamente à culpa, obrigação e ao medo para conseguir que outra pessoa haja de acordo com os interesses de quem chantageia. Uma maneira de manipular a vontade alheia é provocar sentimentos negativos, dos quais a pessoa chantageada parece não poder sair, a menos que faça aquilo que o chantagista quer. É como uma porta, que desejamos entrar, mas depois não conseguimos mais sair.

Geralmente associamos a manipulação com pessoas maquiavélicas, retorcidas e egoístas. Entretanto, na prática, todos nós recorremos alguma vez a algum tipo de chantagem emocional. Uma pessoa exerce o papel de manipuladora sempre e quando tenta controlar o que a outra pessoa diz ou faz, exige algo e não fornece alternativa de escolha ou detona a autoestima alheia. O objetivo da chantagem emocional costuma ser ganhar o poder em uma relação.

E é exatamente através da manipulação que nossas três protagonistas formam um vínculo pessoal entre elas. Independente do que as leva a serem deixadas enganar pela manipulação, a conclusão que se chega é que só nos permitimos entrar em uma porta quando decidimos por vontade própria abri-la, e a porta muita vezes é aberta porque queremos mais do que podemos ter.

Rachel, Megan e Ana abrem portas por desespero, por almejarem demais, e simplesmente por cobiça. E quando elas o fazem, encontram do outro lado a consequência destes atos. Você já deve imaginar que o que ambas encontraram do outro lado da porta é a manipulação, pronta para devora-las, porque vamos dizer a verdade, se não temos a chave para abrir determinadas portas, porque vamos contra o que podemos, e abrimos mesmo assim, sem sermos chamadas? A manipulação só toma conta de quem não está preparado, e ela pode vir de terceiros, ou pior, de dentro de nós mesmos.

Assim como as três protagonistas, nós nos julgamos ímpar e somos pares. Preferimos o controle, a manipulação do jogo, do jogo que joga sozinho com cada um de nós, a vida.

Em suma, é um livro que trata de ilusões sendo destruídas, de verdades ocultas, bem como, do quanto as pessoas a nossa volta, ou nós mesmas, exercem poder quando de alguma forma brincamos com nossas fraquezas.

É o tipo de história que deve ser lida sem expectativas prévias, para que assim possa se surpreender e repensar como realmente cada ação gera uma reação, e que nem todo mundo é realmente o que diz ser. E aqui estou falando de nós próprios. Perceba que quando falei que o livro nos leva a julgar os personagens, me peguei pensando no final, se na verdade não seria eu me deixando levar pela manipulação da própria autora. E se eu me permiti ser manipulada, preciso me preocupar que estou abrindo portas desnecessárias na minha vida? A se pensar.

Obs.: O livro virou um filme, e deixo abaixo o trailer do mesmo para que possam conhecer um pouco sobre a história. Posso entregar apenas que este livro não tem um final feliz, mas tem uma belíssima reflexão sobre o que projetamos de nós próprios no mundo, e do quanto nossas escolhas precisam ser precisas para que nenhuma porta seja aberta de forma errada e a manipulação tome conta de nossas vidas.

Tudo começa sempre dentro de nós mesmos, certo?

https://www.youtube.com/watch?v=kmQ1WcX425E

E você? Se acha preparado para encarar a sua própria manipulação?

Minha nota: 7,0