Teoria da Gaiola
8 horas de trabalho: Jornada na qual você bate seu ponto na chegada ao trabalho, senta na sua mesa e faz o seu trabalho. Bate o ponto novamente na hora do almoço, come rapidamente e ainda tenta dar uma passadinha no banco, porque depois de 1 hora você precisa bater seu ponto novamente. A tarde se estende com mais trabalho e no final do dia você bate o ponto para ir para Casa, Faculdade, Pós Graduação, Academia, ou seja lá o que fizer parte da sua rotina diária.
Não é que eu não goste de fazer parte de um ciclo de rotinas, até acho que é necessário um pouco de organização para que nossa vida não vire uma bagunça generalizada. Mas não consigo acreditar que a pressão por cumprir um papel tão regrado de horas seja mais importante que cumprir metas e trazer resultados. Por quê digo isso?
Vejo muita falta de criatividade por parte dos profissionais quando a flexibilidade não cumpre seu papel de significado. Quantas organizações se importam em demasia se você fez ou não 1 hora de almoço, ou se você está ou não cumprindo corretamente suas 8 horas de trabalho, quando na verdade elas deveriam se preocupar se você está criando soluções mais inovadoras, trazendo os resultados numéricos esperados e se está trabalhando para que o posicionamento da empresa no mercado esteja positivo?
Cada vez mais os profissionais estão se tornando parte de um complexo prisionário, onde a mecânica de funcionamento de uma Gaiola vale mais do que dar a confiança necessária a uma pessoa que faz parte do seu desafio. Afinal de contas, não foi só a organização quem contratou o profissional. O profissional também contratou a organização.
Vejo algumas empresas já trabalhando na base da confiança. Você faz o seu horário, pode tirar férias quando quiser e quanto tempo quiser, você inclusive não tem nem uma mesa de trabalho, porque pode optar ou não em trabalhar do escritório, de casa ou mesmo de um café. Porque vale a pena este formato de trabalho e não o convencional de viver em uma gaiola seguindo regras iguais a uma prisão penitenciária?
Porque quando se têm liberdade, se cria e se traz mais resultados. A motivação mora onde sentimos que regras não fazem parte do pacote principal, e sim o nosso trabalho se torna de fato o ponto de atenção.
Hegel e Aristóteles com certeza eram filósofos, como toda organização por si só é uma organização. Mas Karl Marx era diferente, porém também considerado um filósofo. Marx escreveu muita coisa que tem um ar de filosofia, mas era também rispidamente desdenhoso do espírito filosófico, tendo declarado em sua famosa 11ª tese sobre Feuerbach, que “os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras, trata-se, entretanto, de transformá-lo”. Alguém poderia retrucar que seria difícil transformar um mundo que não entendemos, a não ser pelo fato de que o próprio Marx seguramente estaria de acordo. Ele não está empenhado em substituir ideias por ações irrefletidas, mas em moldar uma espécie de filosofia prática que ajuda a transformar aquilo que procura compreender.
A mudança social e intelectual andam juntas: “A filosofia não pode se realizar sem a superação do proletariado“, diz ele, “e o proletariado não pode se superar sem a realização da filosofia”.
Desta forma vale pensar que posso sim ser uma organização com regras, mas porque não posso transforma-la em um formato de regras diferente, e desta forma alcançar melhores resultados? É errado confiar nos profissionais que fazem parte do núcleo de uma organização? Se existe o medo na confiança, então porque muitas missões, visões e valores falam sobre “Todos vestimos a mesma camisa”? Ninguém veste a mesma camisa se não existe uma relação de troca, e troca basicamente se resume a confiança.
A Teoria da Gaiola só existi porque as organizações têm medo de entregar o braço aos seus funcionários, quando do outro lado por medo também, se aceita apenas receber uma mão, quando na verdade todo mundo quer de verdade o braço.
A reflexão que fica é: Somos todos Teoria da Gaiola porque todos temos medo? Até quando o medo vai nos impedir de transformar invés de sempre apenas aceitar?