Minha queda pelo outono

Estava a caminho de um lugar qualquer, movida pela pressa de ser mais rápida que o tempo, quando, de repente, o vento soprou e a mágica do outono aconteceu: folhas caindo. Diante de um espetáculo desses, a gente deveria parar e pensar: é por essas e outras que vale a pena viver. Não parei, porque o tempo é invencível, mas pensei…
Pensei na queda das folhas na paisagem daquela rua pela qual passo, no mínimo, quatro vezes por dia. Pra você que passa, eu digo: fique! Estamos passando demais… do ponto. E, assim, nossa passagem é quem passa… despercebida. 
Pensei naquelas cores desbotando e nos dizendo: é só um ciclo. Depois de colorir, é hora de se soltar. Desgarrar-se da árvore mãe, libertar-se e promover mais um espetáculo. O show continua, mesmo quando a platéia — só -passa.
Pensei em nossas quedas, que por vezes fazem nosso ciclo girar mais rapidamente. Não se sinta tonto; há piores: os que nunca encerram ciclos.
Pensei em todos os nossos tipos de quedas. De ditadores, de governos, de cabelos, da bastilha, dos muros - e que muralha essa que construímos -, de aviões, de balões, da monarquia, da sua tia, da nossa pressão.
E pela queda d’água, caí de amores! Mas recebi um conselho que foi tiro e queda: “Caia fora antes de cair aos prantos”. Caia na gandaia! Ela caiu do céu e caímos na gargalhada! Cai cai, balão…
Na infância, quando caíamos, não sabíamos nada de cicatrizes. O choro durava enquanto durasse a dor - ou a manha. Agora o choro parece fazer durar a nossa dor - enquanto houver amanhã.
Nossa queda cheia de personalidade, inflada pela importância que recebe. Como dura. Como é dura. Nossas quedas são também naturais, mas pouco têm da beleza do cair daquela folha no outono. Teria a pressa “desnaturalizado” nossa queda? Fadando-nos a fracassados temporais que arrancam todas as folhas antes de o outono chegar? Estamos nos preparando para colorir o mundo ou simplesmente ofuscar o colorido de outrem? Vamos além: a quem interessar, é claro, é escuro, é degrade. Somos assim, eu e você(s), folhas caindo fora da estação.
 Quando caímos, fazemos cair quem segura nossas mãos. Alguns apenas se desequilibram e seguem adiante. Mas há quem se jogue ao chão pra suavizar a nossa queda. Há também quem puxe alguém só pra não cair sozinho. Caíram por engano. 
 Depois da queda, é hora de se prender ao que de bom restou — às vezes, só você mesmo. Arraigar-se. Aprisionar a força para, então, levantar.
A vida não é um show, mas é contínua enquanto você continua sendo a única platéia do seu drama.
E pensei também em todas as vezes que caí, que fracassei, que me perdi e tropecei, que levei gente à queda, que demorei a levantar, que demorei a ajudar alguém a se levantar. Pensei com pena, mas sem pesar. Foi caindo que aprendi a admirar as coisas simples da vida, como cruzar uma avenida e, sem poder parar, pensar:
 É por essas e outras que vale a pena viver?
 Não. É por mim mesmo e não pela minha plateia. É, caiu o acento.

19/10/2016 — Dublin, Irlanda