

BACCHUS E O VINHO
(Rodrigo Peñaloza, 2-IV-2016)
Há um tempo, num restaurante, vi um cara tomando vinho tinto. Fazia aquela pompa de quem já fez curso de sommelier. Debaixo do terno tinha até um colete! Vanglória de quem reduz as inúmeras experiências planetárias à fortuna ocasional de uma existência efêmera diante da imortalidade da alma. Analisar o vinho listando suas propriedades aromáticas, uva, safra e seja mais o que for é, pra mim, uma elegância aparente, uma elegância seca.
A degustação do vinho não tem lógica, não é um ato racional. O vinho é uma bebida que tem deus. Aliás, um deus cuja principal característica é enlouquecer aquele que se esconde da própria sombra sob o véu da racionalidade. Um deus que nasceu da luz e da sombra, da luz de Zeus e da sombra de Perséfone no Hades. Um deus de céu e inferno. Bacchus ou Dionysos, filho de Zeus (divino) e Semele (mortal), na versão grega do mito; filho de Zeus (deus de luz) e Perséfone (deusa dos infernos), na versão cretense.
Diz o mito que Zeus engravidou a mortal Semele. Hera, esposa de Zeus, movida pelo ciúme, convenceu Semele a pedir que Zeus se lhe mostrasse em todo seu esplendor. Quando Zeus o fez, Semele morreu fulminada pela luz imensa e insuportável. Comovido, Zeus recolheu o feto e o inseriu em sua coxa, onde foi então gestado. Bacchus ou Dionysos é, assim, um deus nascido da imortalidade e da mortalidade, do divino e do profano. Na versão cretense, Bacchus é filho de Zeus e Perséfone, deusa do submundo e das trevas. Desta vez a vingança de Hera se dá pelos Titãs. Ela pede aos Titãs que dilacerem o bebê Bacchus. Ele é dilacerado pelos Titãs, que comem nacos de sua carne, menos o coração. Zeus então insere o coração do filho em sua coxa e o gesta. Renasce assim Bacchus: na primeira vez nasce das trevas de Perséfone, na segunda nasce da luz de Zeus.
Em qualquer versão do mito, Bacchus é dual, é luz e sombra, é morte e vida, é a alma em todo seu espectro psíquico, desde a luz mais insuportável até a escuridão dos infernos mais profundos. Tomar um vinho tinto é uma experiência psíquica e absolutamente pessoal, transcende a racionalidade, é puro sentir. Essa experiência está no gole em si, mesmo que seja um só. É ser a vítima de uma tragédia grega, um sacrifício ritualístico, tal como nas Bacchantes, de Eurípedes. Não leu as Bacchantes? Leia e arrepie-se de terror.
O vinho não foi inventado, foi um presente divino aos homens. Em todas as mitologias o vinho é uma descoberta, nunca o fruto de uma invenção e de uma racionalização. Bem o contrário do uísque, que é uma bebida inventada, é uma bebida racional. Quem quiser racionalizar, que racionalize o uísque, mas não o vinho. Não há nada errado, contudo, em racionalizar o vinho. O que há é a incompletude, é a redução ao superficial e aparente, é ater-se ao aspecto menor de seu significado.
A elegância de degustar um vinho está em submeter-se ao seu significado psíquico: luz e sombra, animus e anima, Olimpo e Hades. Não há resultado que daí se vislumbre e antecipe. Tive vontade de dizer, mas não disse: “Se você quer conhecer o vinho, meu caro, esqueça tudo que estudou e solte essa gravata”. Ao tomar o vinho, apenas seja.