Rodrigo, muito bom seus textos, parabéns!
Nerdy Neandertal
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Bom ponto, “Nerdy”, se é que lhe posso chamar assim. Só devemos tomar cuidado para não permitir que sob o escopo dessa concepção mais ampla de racionalidade que você propõe possa se abrigar algo como “qualquer coisa é racional”, pois, caindo as emoções sob o escopo da racionalidade, teríamos um conceito que, de tão amplo, acabaria não explicando coisa alguma. Parece-me que, se o objetivo tem a ver com as experiências mais urgentes e, digamos, mais “comuns” para a sobrevivência, a racionalidade no sentido estrito que a Economia adota, ou melhor, a Epistemologia, já basta. O importante é entender que a racionalidade assim descrita não exclui a importância das emoções para a sobrevivência. Outra coisa importante também é não confundir a explicabilidade lógica dos efeitos das emoções sobre a sobrevivência com algum tipo de “racionalidade”. O fato de uma emoção específica ser importante para a sobrevivência não faz dela algo “racional”. O próprio termo “racional” traz o segredo de seu significado. Vem do Latim “ ratio”, que significa razão, no mesmo sentido que nos vem à mente quando dizemos A::B assim como B::C (A está para B assim como B está para C). Racionalidade aplica-se, portanto, ao nosso raciocínio discursivo. Olha aí mais uma vez a “ratio”, na palavra raciocínio. Os gregos diziam “lógos”. Tenho uma analogia pra explicar como vejo a questão. O discurso racional, a racionalidade, é um encadeamento finito que parte de regras finitas de sintaxe, operadores lógicos e “letras”. O mundo da racionalidade é como uma malha de pontos conectados por nós. Os pontos são proposições. Os nós são os encadeamentos entre elas. Um silogismo, uma demonstração matemática, um raciocínio e mesmo uma “explicação científica” são apenas caminhos finitos de conexões entre nós com os quais entendemos as relações entre os nós, sejam de causalidade ou de relação num sentido mais amplo. Entretanto, o mundo real, o mundo em que vivemos e que concebemos, é uma tela contínua sobre a qual impomos a malha (a rede) da racionalidade. É evidente que a malha não explicará todos os pontos da tela contínua subjacente, ou seja, que a racionalidade não explica a totalidade das coisas. Como conhecer então pontos da tela que não estão na malha, pontos cuja possibilidade sequer imaginamos? A resposta é a intuição. Os grande matemáticos já reconheciam isso, especialmente Poincaré. A intuição é uma forma de conhecimento. Note que falo de conhecimento ao qual se chega sem a necessidade do “raciocínio”. Às vezes simplesmente sabemos de algo porque sabemos, sem poder explicar o porquê. Bonaparte soube na hora que sua amada morrera e começou a chorar. Como é isso? Intuição. Ele não elaborou qualquer discurso racional em sua mente pra chegar a esse conclusão. Ele apenas “soube”. Se mais tarde a ciência “explicar” esse fenômeno por meio de um discurso racional, adquire-se mais um ponto na malha. Note, porém, que a explicação racional não se confunde com o fenômeno observado. São apenas possibilidades distintas da natureza humana. Logo, não coisas excludentes! A predileção pela racionalidade não contradiz as emoções. A malha se torna cada vez mais fina e com mais nós e mais conexões, mas a tela onde repousa é contínua, é infinita. Isso se observa também na Linguística. Um termo tem uma denotação específica, mas uma polissemia infinita. Umberto Eco tem obras clássicas sobre isso. O análogo disso na Economia aparece em duas instâncias: no mainstream aparece na ideia de racionalidade limitada; na escola austríaca aparece na ideia de ordem espontânea versus ordem deliberada, de Hayek, mas que na verdade vem da Grécia antiga. Tenho um texto sobre isso aqui no blog, caso se interesse em ler. Obrigado pela participação.

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