CÍCERO, SÊNECA E A AMIZADE
(Rodrigo Peñaloza, 04/março/2015)

Podemos buscar em Cícero e Sêneca, dois grandes sábios da Antiguidade, profundas lições sobre a Amizade. Sêneca, em sua obra De Tranquilitate Animi, XVII-3, diz: “Também para dentro de si há muito que deve ser recolhido, pois a conversação bem composta dos dissímiles disturba e renova as paixões e excita o que quer que [haja] de debilidade na alma e nem bem curado. A solidão e a companhia, estas devem ser misturadas e alternadas. Aquela em nós cria a vontade de [estar entre] os homens, esta [cria a vontade de estar] conosco, e uma será remédio para a outra: a solidão cura o ódio da turba e a turba é a cura para a solidão do tédio”. [1] Por outro lado, diz Cícero em De Amicitia, XI-37: “… como a promotora da amizade foi a reputação da virtude, difícil é manter a amizade se da virtude te tenhas afastado”. [2]

Sêneca admite que aqueles que são diferentes de nós têm também uma conversa bem composta, equilibrada, e que de alguma forma causa em nós um impacto, uma mudança que promove a renovação da alma, no sentido de melhorar as nossas deficiências e sanar em nós aquilo que não temos resolvido internamente. O sábio equilibra a solidão e a companhia dessas pessoas que, sendo diferentes, ainda assim lhe fazem bem. Se ao homem em sua privacidade não apetece a multidão, ele deve, entretanto, saber escolher de dentro da multidão aqueles que o tornam melhor e não o deixam sentir-se só. É uma regra de seleção da verdadeira amizade, de respeito às diferenças dos amigos e de respeito à necessidade que o homem tem de também estar só consigo mesmo.

Já Cícero nos alerta que é difícil manter a amizade se o amigo se tenha afastado da virtude. Quer ele dizer que o critério da virtude não é apenas o critério de seleção, mas é também o critério de manutenção da amizade. No que diz respeito à amizade, a virtude é a condição necessária para o seu nascimento e a falta dela é condição suficiente para o seu fim.

Juntos, Cícero e Sêneca nos ensinam que a escolha dos Amigos deve ser equilibrada, pois ao Homem também inere a necessidade de estar só, e que a Amizade deve pautar-se integralmente pelo critério da virtude.

Porém, mais do que exigir do próximo a virtude que sustém a amizade, o Homem deve interrogar-se a si mesmo se de seus próprios atos e pensamentos emana aquela mesma virtude que ele requer do amigo, pois tão ruim quanto ver afastar-se o amigo que, tendo enveredado pela senda do vício, tornou-se indigno de nossa amizade, é saber que nós mesmos, incautos e invigilantes, esquecidos das virtudes que se substanciam nos sentimentos mais nobres que fluem de nossos corações e que imerecidamente propagamos aos sete ventos como as características do Homem de bem, tornamo-nos, na verdade, os reais indignos da amizade alheia.

[1] Multum et in se recedendum est: conversatio enim dissimilium bene composita disturbat et renovat affectus et quicquid imbecillum in animo nec percuratum est exulcerat. Miscenda tamen ista et alternanda sunt, solitudo et frequentia. Illa nobis faciet hominum desiderium, haec nostri, et erit altera alterius remedium: odium turbae sanabit solitudo, taedium solitudinis turba.

[2] … cum conciliatrix amicitiae virtutis opinio fuerit, difficile est amicitiam manere, si a virtute defeceris.

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