

DO MOTTO ALQUÍMICO “IGNE NITRUM RORIS INVENITUR”
(Rodrigo Peñaloza, jan. 2016)
“O sal do orvalho é extraído pelo fogo”. Existe aqui uma alusão aos três princípios alquímicos fundamentais: sal, enxofre e mercúrio. Necessário, portanto, é imiscuir-nos em seu significado alquímico. Entretanto, a própria interpretação alquímica do sal não é uniforme, tendo evoluído substancialmente conforme o interesse espiritual mais ou menos explícito ou consciente do alquimista. A interpretação que me servirá de base é, como mostrarei adiante, a de Jacob Boehme.
Esses princípios foram introduzidos por Paracelso em sua obra Philosophia ad Athenienses, de 1564, e por ele denominados tria prima (“os três princípios”). É claro que ele via esses princípios como espirituais, não como materiais. De fato, no Livro I de seu De Natura Rerum, Paracelso escreve:
“Aqui também seria necessário falar sobre a geração dos metais, mas visto que no libreto sobre a geração dos metais escrevemos satisfatoriamente sobre isso, muito brevemente aqui trataremos do assunto e apenas rapidamente indicaremos as coisas que no dito libreto omitimos. Desse modo, sabei que todos os sete metais nascem da tríplice matéria, seguramente do mercúrio, do enxofre e do sal, embora por cores distintas e peculiares. Quanto a isso, Hermes não poucas vezes disse que todos os sete metais — e similarmente as tinturas e a pedra filosofal — provêm e são compostos das três substâncias, as quais ele chama de espírito, alma e corpo, mas ele não mostrou de que modo isso devia ser compreendido ou o que quis efetivamente dizer, conquanto provavelmente também tivesse conhecido os três princípios, mas não fez deles menção, razão porque não digo que ele errou, mas somente que ocultou. Porém, para que estas três substâncias distintas sejam entendidas corretamente — o espírito, a alma e o corpo –, deve-se saber que nada mais significam senão os três princípios, quais sejam, o mercúrio, o enxofre e o sal, a partir dos quais todos os sete metais são gerados, pois o mercúrio é o espírito, o enxofre é a alma e o sal é o corpo, o metal (acerca do qual Hermes também fala), realmente entre o espírito e o corpo, é a alma, a qual decerto é enxofre, pois une esses dois contrários — o corpo e o espírito — e os transforma em uma única essência”. (Hic quoque opus esset dicere de generatione metallorum, sed quoniam in libello de generatione metallorum satis de eo scripsimus, brevissime hic rem tractabimus, et tantummodo quae in dicto libello omissimus hic breviter indicabimus, hoc modo sciatis quod omnia septem metalla nascantur ex triplici materia, nempe ex mercurio, sulfure et sale, attamen distinctis et peculiaribus coloribus. Ob id Hermes non male dixit, ex tribus substantiis omnia septem metalla nasci et componi, similiter et tincturas et lapidem philosophorum, illas tres substantias nominat spiritum, animam et corpus, sed non indicavit quomodo hoc intellegendum sit aut quid per hoc velit, quanquam fortassis etiam tria principia scivisse, sed non facit eorum mentionem, quare non dico eum hic errare, sed tantum reticuisse. Ut autem istae tres substantiae distinctae recte intelligantur, nempe spiritus, anima, corpus, sciendum est, quod nihil aliud significent nisi tria principia, hoc est, mercurium, sulphurem et salem, ex quibus omnia septem metalla generantur, nam Mercurius est spiritus, sulphur est anima, sal est corpus, metallum vero inter spiritum et corpus, de quo et Hermes dicit, est anima quae quidem est sulphur, quod ista duo contraria corpus et spiritum unit et in unam essentiam mutat). [Paracelsus, De Natura Rerum, 1573, Liber I, pp. 21–22].
Foi a analogia com a tríade espírito-alma-corpo que atraiu vários cientistas para as ideias de Paracelso, embora muitos também vissem com certa ressalva a possibilidade de manipulação desses princípios pelas “mãos” humanas, porquanto apenas Deus poderia criar a partir dos três princípios.
Esses três princípios representaram uma verdadeira ruptura em relação aos antigos princípios herdados dos gregos e condensados por Aristóteles: terra, água, ar e fogo. Os quatro elementos aristotélicos serviram de base para a explicação do sistema cosmológico da Antiguidade, para os alquimistas medievais, que deles se utilizavam para explicar a composição da matéria, e para os médicos, que os usavam para explicar as doenças mediantes os humores. A mudança desse paradigma de quatro para três princípios fundamentais colocava em cheque toda a base das ciências antigas.
Para entender a magnitude dessa mudança, é suficiente mostrar que Tomás de Aquino, cuja palavra era final e tinha tanta autoridade quanto a de Aristóteles em quaisquer campos da ciência e da filosofia, tinha ainda em mente a divisão quaternária do universo. Há, porém, alguns pontos de interseção com o que Paracelso iria defender no futuro. Comparando o De Natura Rerum de Paracelso com o Tractatus de Lapide Philosophico (“Tratado sobre a Pedra Filosofal”), de Tomás de Aquino, identificam-se duas concordâncias: (a) o mercúrio como materia prima, o elemento mais fundamental (o espírito) e (b) a leitura espiritual, não-literal, da Alquimia. Com efeito, Tomás de Aquino diz que, depois de buscas infrutíferas nos livros, teria encontrado os segredos da transformação apenas após um busca para dentro de si mesmo, tendo assim encontrado os princípios da natureza:
“A transformação dos metais também pode ser pela arte, para que o ser de um metal seja transmudado no ser de outro. Aquela potência pode razoavelmente ser levada a ato, como Aristóteles ou Avicena dizem: ‘Saberiam os artífices da Alquimia que uma espécie nunca pode ser verdadeiramente transmudada, mas que isso só acontece depois que a redução se torne em matéria-prima’. Porém, essa matéria-prima de todos os metais, segundo o que se diz, é próxima do mercúrio, mas a matéria é água remota. Mas ainda que essa redução seja muito unida à matéria, e até mesmo útil, a natureza é ajudada pela arte. Isso é difícil e é por cuja dificuldade que muitos foram feitos de bobos, desperdiçando em vão, por essa ciência, sua juventude e as faculdades, seduzindo, depois, reis e príncipes, e por essa razão perdendo a esperança na verdade dessa ciência. Não a pesquisam nem desejam saber. Com efeito, todos os livros errôneos, todas as fatuidades e todas as diversidades de operações foram escritas por estes ignorantes, de tal forma que, operando por esses mesmos meios, se todas as tuas coisas examinasses, alcançarias acerca da ciência um efeito praticamente nulo. Eu, realmente considerando todas essas coisas e de que modo os reis levaram a cabo operações sutis e que quase nunca ou nunca puderam alcançar a perfeição, acreditei que essa ciência nada fosse. Mas voltando-me para dentro de mim mesmo, considerei os livros de Aristóteles e Avicena sobre os segredos dos segredos e, pela razão, os encontrei vazios. Declaram quaisquer fatos ou ciência confusamente e de algum modo enigmaticamente. Considerei os livros que os contradizem e neles encontrei loucuras similares”. (Transmutatio etiam metallorum sit et per artificium, ut esse unius metalli in esse alterius transmutetur: Sane potest illa potentia deduci in actum, quamvis Aristoteles vel Avicenna dicant: Sciant artificies Alchemiae nunquam species vere transmutari posse, sed postea sequitur, nisi fiat reductio in primam materiam: Materia autem prima secundum quod dictum est omnium metallorum propinqua est argentum vivum, sed materia est remota aqua. Sed cum haec reductio sit multum coniuncta naturae, imo quasi utilis, natura per artificium adiuvatur, et ex hoc difficilis, et ex huiusmodi difficultate multi stulti facti sunt, per hanc scientiam expendentes iuventutem suam, et facultates in vanum, seducentes postea reges et principes, et hoc adeo ut reges desperando de veritate huius scientiae eam non perquirant nec scire appetant, tot enim libri erronei, totque fatuitates, totque operation[u]m diversitates ab istis ignorantibus scriptae sunt, ut cum omnia tua operando per ipsa expenderis, de scientiae desperando effectum minime consequaris. Ego vero omnia considerans, et quomodo reges habuerunt operationes subtiles, et vi[x] aut nunquam potuerunt ad perfectionem pervenire, credidi hanc scientiam nihil fore. Sed ad me reversus, consideravi libros Aristotelis seu Avicennae in secretis secretorum, et inveni eos vacuos ratione, quantumcunque factum sive scientiam confuse et in aenigmate aliqualiter declarant. Consideravi libros contradicentium eis, et inveni eorum alienationes similes: consideravi et principia naturalia, et inveni per ipsa posse fieri). [Thomas Aquinas, Tractatus de Lapide Philosophico, IV].
Os originais disponíveis trazem operationem e vis na passagem acima onde inseri operation[u]m e vi[x], mas parece-me claro que operationem e vis trazem erros tipográficos, pois, da forma como estão, as frases ficam sem sentido, de modo que substituí-as por operation[u]m (“das operações”) e vi[x] (“com custo”, “com dificuldade”, que eu traduzi por “quase nunca”, num paralelismo com as palavras seguintes, aut nunquam, obtendo, assim, “quase nunca ou nunca”), que dão mais sentido ao texto. “Água remota” significa um elemento próximo à água, mas não deste mundo.
Tomás de Aquino usa o termo argentum vivum (ἄργυρος χυτός) ou “prata viva” para designar o mercúrio. São nomes diferentes para a mesma substância. Essa evidência está em Plínio, o Velho, que em sua obra Historia Naturalis, XXXIII-20, escreveu:
“No mármore e naquelas [substâncias] que não podem ser incandescidas, [o douramento] é untado com clara de ovo, e, na madeira, mediante uma composição de glúten, a que chamam leucóforo. O que isso seja ou de que modo se faça, ensinaremos em lugar apropriado. Terá sido legítimo o cobre ser aurificado pela prata viva ou certamente pelo hidrárgiro, acerca dos quais, trazendo à luz a natureza deles, teremos chance de nos dedicar” (Marmori et iis, quae candefieri non possunt, ovi candido inlinuntur, ligno glutini ratione conposita; leucophorum vocant. quid sit hoc aut quemadmodum fiat, suo loco docebimus. aes inaurari argento vivo aut certe hydrargyro legitimum erat, de quis dicemus illorum naturam reddentes).
“Leucóforo” significa aquilo que traz a brancura ou albedo. O mercúrio também é dito hidrárgiro (que significa “prata líquida”), prata viva ou azougue.
Os tria prima de Paracelso foram uma extensão da antiga teoria enxofre-mercúrio dos metais, generalizada de forma a servir de explicação para toda a natureza. Jābir ibn Hayyān (c. 721–815) foi quem empregou a teoria enxofre-mercúrio para descrever os metais, embora supostamente ela tivesse sido introduzida pela primeira vez por um autor desconhecido que se auto-intitulava Balinas. Segundo essa teoria, os metais são compostos por diferentes proporções de um enxofre sófico e um mercúrio sófico. Sófico (sophicus) é um adjetivo relacionado a sabedoria (sophia ou σοφία). Em seus trabalhos procurou quantificar a Alquimia por métodos aritmológicos. No mundo latino era conhecido por Geber. Paracelso, depois de aplicar os tria prima aos metais, aplica-os também aos minerais e semimetais:
“Sobre a geração dos minerais e semimetais nada mais se saiba senão o que no início foi dito sobre os metais, porque nascem, de modo similar, a partir daqueles três princípios — mercúrio, enxofre e sal –, conquanto não dos perfeitos, como os metais, mas do mercúrio, enxofre e sal mais imperfeitos e mais tênues, ainda que com as suas cores distintas”. (De generatione minerarum et semimetallorum nihil aliud sciatur quam quod initio de metallis dictum est, nempe quod simili modo ex tribus illis principiis nempe mercurio, sulphure et sale nascantur quanquam non ut metalla ex perfectis sed ex imperfectioribus et tenuioribus mercurio, sulphure et sale et tamen cum suis distinctis coloribus). [Paracelsus, De Natura Rerum, 1573, Liber I, pp. 24–25].
A intenção de Paracelso (e dos alquimistas em geral) era, portanto, encontrar os fundamentos da transformação de todas as coisas na natureza. Os princípios do mercúrio e do enxofre foram obviamente tomados emprestados da antiga doutrina mercúrio-enxofre dos alquimistas árabes, mas o terceiro princípio, ou seja, o do sal ou corpo, foi introduzido pelo próprio Paracelso. Ele advogou a ideia de que esses três princípios existiriam em todos os seres e poderiam ser separados por uma “análise” (que ele chamava de spagyria) alquímica e recuperados ou extraídos. Essa é uma diferença essencial entre Paracelso e a Alquimia medieval latina, representada particularmente por Tomás de Aquino e Alberto Magno e dominante nas universidades, segundo a qual os ingredientes de uma mistura (os quatro elementos inclusive) não poderiam ser extraídos e recapturados integralmente, porque se perderiam no processo de mixis.
Os três princípios, então, podem ser assim definidos:


Spagyria é a junção de dois verbos gregos: σπάω (eu extraio) e ἀγείρω (eu coleto, eu reúno). Do verbo ἀγείρω vem o substantivo ἄγῠρις (ajuntamento, reunião). Pronuncie ágyris, com y soando como o u francês ou o ü alemão. O g soa como em gato. Note que é daí que vem a palavra “ágora”, que designava o fórum grego ou praça central em que os cidadãos se reuniam para votar. O adjunto adnominal de restrição, ἀγύρεως (do ajuntamento, da reunião), é fundamental para a formação da palavra nos outros casos (suas funções sintáticas). O acusativo singular (“a reunião”, na função de objeto direto) é ἀγυρέᾱ. Assim, o proferimento “eu extraio a coleção” [dos elementos] é σπάω τὴν ἀγυρέᾱ, que, sem o artigo, se torna σπάω ἀγυρέᾱ, que se pronuncia spáō agyréā, donde a pronúncia latinizada spagyria. Durante muito tempo, esse foi um termo sinônimo de Alquimia.
Na teoria de Paracelso, mercúrio significa a qualidade da volatilidade, é tudo que se eleva como vapor, um licor. Enxofre significa a qualidade da untuosidade, é tudo que ferve, um óleo. Sal significa a qualidade da estabilidade, é o que permanece nas cinzas, um álcali.
Nos textos rosacruzes e nos escritos de Jacob Boehme, o Sal significa a Pedra Filosofal e o caminho que leva até ela são uma metáfora para Cristo e o caminho rumo à Sua perfeição. O que possibilitou a associação do Sal ao Cristo por Jacob Boehme foi a identificação entre sal e sapientia. Cristo é o sal sapientiae, o sal da sabedoria, tal como em Mateus 5, 13: Vos estis sal terrae (Ὑμεῖς ἐστε τὸ ἅλας τῆς γῆς, Vós sois o sal da terra). Existe, portanto, uma diferença hermenêutica significativa entre Paracelso e Boehme quanto ao sal. Evidentemente, o motto alquímico é bem mais condizente com Boehme que com Paracelso, se bem que a essência das duas interpretações seja a mesma, essência que, no meu entender, pode ser resumida na ideia de ressurreição.
O sal alquímico enquanto representação do Cristo é a luminosidade dos corpos (a albedo), “a scintilla animae mundi (a centelha da alma do mundo) aprisionada nos abismos tenebrosos do mar, e aí mesmo gerada como lux do alto e como um rebento feminino” [Carl Jung, Mysterium Coniunctionis]. A obtenção do sal, seja por escavação ou evaporação, evoca processos de extração e de inflamação, no sentido de necessidade de purificação pelo sofrimento. O sal é visto como cura.
O orvalho, para a Alquimia, é um sinônimo de aqua sapientiae (água da sabedoria ou água mercurial da sabedoria). Incorporando não só o entendimento, mas também os sentimentos, o orvalho alude à “capacidade da psiquê humana de restaurar e reanimar a personalidade desidratada pela inconsciência de sua substância anímica” [Martin, K. (Ed.): O Livro dos Símbolos: Reflexões sobre Imagens Arquetípicas. Taschen, 2012, p. 74]. Ros também pode significar lágrima, de modo que nitrum roris também pode ser o “sal da lágrima”. Mesmo com esse outro possível significado, ros representa a alma humana em sofrimento, tal como descrita pela segunda câmara. De fato, a permanência no mal, nas trevas e na ignorância, representada pela primeira câmara, se dá em razão da inconsciência que o homem tem de sua alma. Na segunda câmara, a consciência da alma traz o sofrimento pelo mal perpetrado, sofrimento simbolizado pela lágrima. Esse mecanismo psíquico de dor é o meio pela qual a alma se reanima em direção a sua natureza espiritual superior e a restaura, ou seja, a cura, também simbolizada pelo sal.
Na literatura alquímica à época de Paracelso, há um consenso quanto ao sal ser um elemento essencial para a análise, ou seja, para a separação e extração dos elementos. Por conseguinte, a extração do sal do orvalho se dá pela ação do fogo, do calor.
Pelo fogo, pelo sofrimento moral e psíquico, o sal da sabedoria é extraído do orvalho ou da lágrima, é nascido da alma, com um sentimento que se mistura ao de descoberta. O sal da sabedoria é também a cura da alma em sofrimento. A linguagem alquímica é apenas o meio simbólico pelo qual esse ensinamento é transmitido, ou melhor, apreendido pelo próprio alquimista. Não associo o fogo diretamente à ideia de sofrimento, mas antes ao processo psíquico de transformação íntima, consciente ou não, do ser.