“A morte de Sêneca”, de Jacques-Louis David, 1773.

ENSINAMENTOS MORAIS DE SÊNECA
(Rodrigo Peñaloza, 19-II-2016)

Como bom estoico, Sêneca usa a Natureza como a grande “magistra”. A Natureza ou a Vida nos dá constantemente benefícios, mesmo que não compreendamos quais sejam ou, compreendendo, prefiramos nos queixar. Com isso, ele nos exorta a fazer o bem sem esperar recompensas, pois o sábio faz o bem pelo bem em si, não pelos frutos que possam dele advir. Os frutos de que o sábio usufrui são apenas o bem em si.

O termo “benefício”, fazer-o-bem, não tem em Sêneca necessariamente conotação religiosa. É o fazer-o-bem geral do Homem, é o seu fino trato nas relações humanas, é a sua gentileza e elegância, é a expressão de suas virtudes de paciência, tolerância e desprendimento. Em De Beneficiis, Lib. I, cap. 1, trechos 11–12, Sêneca escreve:

Quam multi indigni luce sunt! Tamen dies oritur. Quam multi, quod nati sunt, queruntur! Tamen natura subolem novam gignit ipsosque, qui non fuisse mallent, esse patitur. Hoc et magni animi et boni proprium est, non fructum beneficiorum sequi, sed ipsa et post malos quoque bonum quaerere. Quid magnifici erat multis prodesse, si nemo deceperit ? Nunc est virtus dare beneficia non utique reditura, quorum a viro egregio statim fructus perceptus est.

Traduzindo: “Quantos são indignos da luz? Entretanto, o dia nasce. Quantos, nascidos, se queixam? Entretanto a natureza gera novos rebentos e esses mesmos que preferem não existir ela padece para que existam. Eis o que é próprio dos bons e dos de boa índole: não perseguir os frutos do bem-fazer, mas o bem-fazer em si e procurar os bons mesmo depois de encontrar os maus. Que de magnífico seria para muitos ser útil se por ninguém fosse enganado? Ora, é virtude dar benefícios de cuja retribuição não temos certeza, o fruto dos quais é imediatamente percebido pelo homem de bem”.

Na mesma obra, De Beneficiis, VII.32, Sêneca ainda escreve um dois mais belos ensinamentos morais com que me defrontei:

Non est magni animi beneficium dare et perdere; hoc est magni animi: perdere et dare.

Assim se traduz: “Não é prova de grandeza d’alma fazer o bem sem esperar retribuição; a prova de grandeza é esta: não receber nada e ainda assim fazer o bem”.

Isso sai do senso comum e nos incita a uma atitude verdadeiramente ativa frente à questão. A desilusão da ingratidão não raro nos afeta o ânimo. Diante dela, cessamos o benefício e prosseguimos em outros caminhos. Não estamos preparados para reagir positivamente diante da afronta ou do desprezo. Não receber nada e ainda assim fazer o bem implica beneficiar o próximo mesmo sem jamais termos sido beneficiados. Significa fazer o bem mesmo quando, como se diz na gíria popular, se está “no fundo do poço”. Sob a condição de estarmos bem segundo nosso ponto de vista, a decisão de fazer o bem sem esperar recompensas soa como um mergulho em águas seguras, principalmente diante do que Sêneca propõe na oração seguinte, que é, não tendo recebido coisa alguma, ainda assim fazer o bem. Isto sim um exercício da mais profunda coragem. Quando a ingratidão nos assola, como reagimos? Cessamos e partimos ou ainda assim continuamos a fazer o bem ao ingrato? Como ponderar sobre qual atitude é a mais virtuosa?

Talvez este outro trecho, em De Beneficiis, VII.28.3, nos dê a luz necessária:

Fortasse vitium de quo quereris, si te diligenter excuseris, in sinu invenies.

Traduzo: “Se diligentemente te escusares, talvez encontres no fundo de ti mesmo o vício de que tanto te queixas”.

Esse vício que acusamos n’alma dos ingratos e de cuja ingratidão extraímos a justificativa para lhes recusar a continuação dos benefícios que províamos existirá, porventura, antes, em nós mesmos? Quem somos nós para recusar fazer o bem?

Imagine, leitor, se em nossas escolas tivéssemos a educação clássica que tínhamos até décadas atrás e que nos foi roubada pelos reformistas do Ministério da Educação para que pudessem ganhar dinheiro com seus livros “didáticos”, reformistas que diziam que, se escolas mistas eram o futuro, então o Latim já não seria necessário à formação do cidadão, pois meninas não seriam clérigos.

Hoje, quando desaprendemos a falar e a raciocinar, quando perdemos o senso da Beleza e desaprendemos o que de estética deve haver no discurso, nos modos, na música, nas artes e na arquitetura, a Educação Clássica se faz premente. Precisamos do Latim de volta e precisamos reaprender com Sêneca ensinamentos básicos para viver bem. Quantos dirão que não? Entretanto eu digo que sim.