Mithras.

GNOSE, SILÊNCIO E REGENERAÇÃO
(Rodrigo Peñaloza, março de 2014)

Gnose vem de γνῶσις (gnōsis), que significa literalmente “conhecimento”, num sentido amplo. Foi somente a partir dos movimentos ditos gnósticos no início da era cristã que o termo gnose adquiriu o sentido mais profundo de sabedoria ou conhecimento das coisas divinas, condição necessária para a salvação.

Em muitos sistemas gnósticos cristãos, o grande poder do Pai era chamado de Silêncio — σιγή (sigé) — Incompreensível. Entre os pitagóricos e os gnósticos trimegísticos, o silêncio era condição necessária para a sabedoria ou gnose. O silêncio somente seria conhecido através da mente. Na liturgia de Mitra, o mistagogo dizia ao iniciado que, quando o vento oriental chegasse, pusesse o dedo direito sobre os lábios e invocasse o Silêncio: “E tu imediatamente ponhas o dedo direito sobre os lábios e diz: Silêncio, Silêncio, Silêncio, símbolo do deus vivo e incorruptível, guarda-me, Silêncio!” (σὺ δὲ εὐθέως ἐπίθες δεξιὸν δάκτυλον ἐπὶ τὸ στόμα καὶ λέγε· σιγή, σιγή, σιγή, σύμβολον θεοῦ ζῶντος ἀφθάρτου· φύλαξόν με, σιγή ΝΕΧΘΕΙΡ ΘΑΝΜΕΛΟΥ).

Tomei o proferimento invocatório ao Silêncio a partir do texto grego da edição dos Papyri Graecae Magicae, PGM IV, 475–750, de Karl Preisendanz. Estima-se que o texto é do século IV d.C. Na tradução foram omitidas as palavras ΝΕΧΘΕΙΡ ΘΑΝΜΕΛΟΥ (que, em letras latinas, são NEKHTHEIR THANMELOU). É que termos como ΝΕΧΘΕΙΡ ΘΑΝΜΕΛΟΥ eram palavras e nomes ininteligíveis inseridos por magos egípcios à época e que consistiam de permutações vocálicas com algum intuito mágico, de modo que não vejo muito sentido em reescrevê-las na tradução, se delas nada se sabe.

Na edição de Kroll (1894) de De Oraculis Chaldaicis, encontramos ainda sobre o silêncio: “Ea quoque quae de silentio dicta sunt hic colloco, etsi non constat utrum ad patrem solum referenda sint an ad totum mundum superiorem. Procli in Cratylum, 68,8: δηλαδὴ τòν ὑπερουράνιον τὸπον καὶ ὅσα τῇ θεοθρέμμονι σιγῇ περιείληπται τῶν πατέρων (cf. in Alcebiadem. 364, 2; in Timaeos 167c)”. Vide Kroll (1894): De Oraculis Chaldaicis, Breslauer Philologische Abhndlungen (VII,1.), p. 16. Traduzindo, “Aqui coloco todas as coisas que foram ditas do silêncio, ainda que não seja certo se é para serem referidas somente ao Pai ou se a todo o mundo superior”. Kroll cita aqui os comentários de Proclo ao Crátilo de Platão.

Observe que “Silêncio”, na expressão traduzida da liturgia de Mitra, é um vocativo. Igualmente nos Mistérios Eleusinos, o ἐπόπτης (epóptēs) ou o espectador dos Altos Mistérios, era despedido, após a explanação dos símbolos, com as palavras κόγξ (konks) e ὄμπαξ (ómpaks), palavras que vinham do sânscrito Kanska Aum Pakscha, que significam o objeto de nossas buscas, Deus, Silêncio, ou ainda Louva a Divindade em Silêncio [Albert Pike (1872), “Morals and Dogma”, p. 422]. De acordo com os Oráculos Caldeus, o único modo de se atingir a sabedoria ou silêncio ou gnose, uma gnose que já era tida como diferente do conhecimento, era pelo recriar-se ou regenerar-se a si mesmo [George Mead (1908), “Chaldaean Oracles”, pp. 34–36].

Assim, a gnose, como a compreendiam os místicos da Antiguidade, não seria jamais objeto de busca se o iniciado não se comprometesse com a sua perpétua recriação e regeneração moral e espiritual. Uma condição necessária para tanto era o mergulho no Silêncio, que, para mim, é como eles simbolizavam a natureza divina oculta n’alma. Em outras palavras, a gnose enquanto conhecimento das coisas divinas, era obtida justamente pelo auto-conhecimento.

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