MICROECONOMIA em doses: CURVA DE OFERTA
(Rodrigo Peñaloza, 26-I-2016)

Todos falam de oferta. Mas será que realmente sabemos o que ela significa? Existem duas maneiras populares de se aprender sobre a curva de oferta. A mais básica é aquela dos manuais introdutórios em que se mostra um gráfico de demanda e oferta no plano preço x quantidade. Enquanto a demanda é uma curva (ou linha) decrescente, a oferta é crescente. A explicação é feita de trás para a frente: se o preço aumenta, o ofertante se dispõe a ofertar uma quantidade maior.

O segundo nível de entendimento é o dos livros-textos de Microeconomia. Lá aprendemos que a curva de oferta da firma é o trecho da curva de custo marginal acima da curva de custo variável médio. Se é no longo prazo, não há custo fixo e, portanto, o custo variável médio coincide com o custo médio; se no curto-prazo, há diferença. Sobre curto-prazo e longo-prazo falarei depois. Apenas antecipo que curto-prazo e longo-prazo são dois extremos de um espectro contínuo de ajustabilidade às condições do mercado e cuja natureza é meramente didática, embora muita gente acredite que correspondam à realidade das coisas. Voltemos ao tema. Esqueçamos de custos fixos. Como o custo marginal acima da escala de eficiência mínima (o ponto de mínimo da curva de custo médio, que é onde custo marginal e custo médio se cruzam) é crescente, então a curva de oferta é crescente. A convexidade da curva de oferta é então deduzida a partir da condição de retornos decrescentes de escala da função de produção.

Todo economista aprende isso. Mas por que, então, alguns economistas nacionais têm teorias mirabolantes que são a verdadeira negação dessas coisinhas simples chamadas curvas de oferta e demanda? Minha única explicação é que eles não entendem o que são oferta e demanda, apenas pensam que entendem.

O que, então, é realmente a curva de oferta? Eis a terceira maneira, que não está além dos livros: está aquém, no sentido de ser exatamente aquilo que a motivou inicialmente. Ela é anterior e deve ser compreendida da forma como explicarei adiante antes mesmo de estudarmos as maneiras tradicionais dos livros-textos. A curva de oferta esconde uma interpretação muito mais profunda que as obtidas a partir das explicações acima. Ela mede, na verdade, o valor que a sociedade atribui aos recursos econômicos que são deslocados para a produção do bem em questão.

Para tornar inteligível o significado da curva de oferta, vou dar uma explicação que a conecta com o princípio da utilidade marginal decrescente. Sim, a curva de oferta é crescente e convexa precisamente por causa do princípio da utilidade marginal decrescente. “Mas, professor, utilidade marginal não é do consumidor? O que isso tem a ver com a função custo?” Calma, cara pálida. Vamos por passos.

Para produzir um bem, o produtor se vale de insumos. Esses insumos são recursos existentes na economia. Não importa se você os chama de trabalho, capital ou terra ou qualquer outra coisa. São recursos escassos que a sociedade valoriza precisamente porque são escassos. Quando o produtor produz uma unidade do bem, ele tem que deslocar recursos da economia para a produção dessa unidade. Imagine que os recursos estão disponíveis em pacotinhos de igual magnitude. Cada pacotinho é um quantum de recursos contendo bens e serviços que, aos olhos do produtor, são vistos como insumos ou fatores de produção. Para simplificar, suponha que existam 4 quanta (plural de quantum) de recursos na sociedade, como na figura 1:

Figura 1: quanta de recursos da economia.

Isso é o que a sociedade tem de recursos. Como eles são escassos, a sociedade os valoriza. É aqui que entra o princípio da utilidade marginal decrescente. Se a sociedade não tivesse nada e adquirisse o 1º quantum de recursos, isso lhe daria uma imensa satisfação, uma utilidade incremental pela qual ela estivesse disposta a pagar, no máximo, digamos, $7. Ao adquirir o 2º quantum de recursos, a sociedade também fica feliz, mas numa intensidade menor. Suponha que ela estivesse disposta a pagar por esse 2º quantum $4. Tendo adquirido o 2º quantum, ela adquire o 3º e por ele está disposta a pagar $2. O 4º quantum vale para a sociedade $1. Note que expressei a satisfação pelos quanta em termos monetários. É que estou supondo efeito-renda nulo, só para simplificar, de modo que a utilidade marginal possa ser expressa como valor monetário. Os valores que eu dei acima ilustram o princípio da utilidade marginal decrescente, como na figura 2:

Figura 2: utilidade marginal da sociedade.

Esses recursos estão, neste momento, sendo usados pelas pessoas na economia em suas trocas (produções e consumos). Você, que faz parte da economia, decide, de repente, produzir um bem. Para produzir a 1ª unidade, você tem que deslocar um quantum de recursos da economia para o seu processo de produção.

Figura 3: 1º quantum de recursos é deslocado da economia.

Dos 4 quanta de recursos de que a sociedade dispunha, ela tem que abrir mão de 1 quantum para que você produza a 1ª unidade de seu bem. Quanto valem esses recursos deslocados da sociedade? Valem $1. Você tem de ler o gráfico da utilidade marginal da sociedade de trás para a frente. Ela não está numa situação em que aos poucos adquire unidades adicionais, mas numa em que aos poucos perde as que já possui. Ela tem bastante e não se importa tanto em perder um pouco. Assim, o custo econômico social da 1ª unidade produzida é C(1)=$1. Se não há externalidades, esse custo incremental social é exatamente igual ao seu custo incremental privado. Como isso é possível? É possível desde que os preços sejam livremente determinados pelo mercado segundo a lei de oferta e demanda, pois assim os preços refletirão as valorações marginais das unidades comercializadas. Como o custo de produzir zero é C(0)=$0 (já que nada é deslocado da economia nesse caso), então o custo incremental da 1ª unidade é CMg(1)=$1.

Qual é o preço que você deve cobrar por essa 1ª unidade? Deve ser o preço que cubra o valor do qual a sociedade abriu mão: P=$1. Nem adianta cobrar mais, pois a receita incremental não seria igual ao custo incremental e, portanto, não seria uma boa ideia: você teria tomado a decisão errada.

Você agora quer produzir a 2ª unidade. Como você já deslocou um quantum de recursos da economia, privando-a de um pacotinho, tem de deslocar um segundo quantum.

Figura 4: o 2º quantum de recursos é deslocado da economia.

Para a sociedade, esse 2º quantum vale $2. Esse valor é o custo marginal social da 2ª unidade: CMg(2)=$2. De fato, com a 2ª unidade deslocada, a sociedade já abriu mão de $3=$1+$2. Com apenas a 1ª, ela tinha aberto mão de $1. A diferença é $2.

Qual é o preço que você deve cobrar por essa 2ª unidade? Deve ser o preço que cubra o valor incremental do qual a sociedade abriu mão: P=$2.

Você agora quer produzir a 3ª unidade. Como você já deslocou 2 quanta de recursos da economia, privando-a de dois pacotinhos, tem de deslocar um 3º quantum.

Figura 5: o 3º quantum de recursos é deslocado da economia.

Para a sociedade, esse 3º quantum vale $4. Esse valor é o custo marginal social da 3ª unidade, CMg(3)=$4, e, pelas mesmas razões anteriores, o preço que você deve cobrar por essa 3ª unidade é P=$4.

Finalmente, você quer produzir a 4ª e última unidade. Como você já deslocou 3 quanta de recursos da economia, privando-a de três pacotinhos, tem de deslocar agora o 4º quantum.

Figura 6: o último quantum de recursos é deslocado da economia.

Para a sociedade, esse 4º quantum vale $7. Esse valor é o custo marginal social da 4ª unidade: CMg(4)=$7 e, pelas mesmas razões anteriores, o preço que você deve cobrar por essa 4ª unidade é P=$7. A sociedade ficou sem nada, voltou à estaca zero. Se ela pudesse reaver um pacotinho, seria o 1º pacotinho em relação a zero. Como vimos, esse 1ª pacotinho (tal como o 1º copo d’água no deserto) vale $7 para a sociedade.

Ecce! Temos, finalmente, a sua curva de oferta (ou de custo marginal privado, que coincide com o custo marginal social):

Figura 7: curva de oferta.

Observe como a curva de oferta é o reflexo especular da curva de utilidade marginal da sociedade sobre os recursos escassos disponíveis. A conexão é entre a curva de oferta e a valoração marginal que a sociedade inteira atribui aos recursos escassos disponíveis. A ideia de custo marginal como explicadora da curva de oferta é uma ideia intermediária. Ela é a parte visível, mas por trás dela está a sociedade. No fundo, ler a curva de oferta dessa maneira equivale também a compreender o que é a função custo econômico, cuja diferença em relação ao custo contábil torna-se assim patente. A valoração marginal que a sociedade atribui a cada pacotinho condensa o valor que a sociedade atribui a tudo aquilo que pode resultar do uso ótimo de cada pacotinho. Se você desloca um pacotinho e o vende por um preço igual a essa valoração marginal, você está simplesmente deixando a sociedade indiferente entre (a) usar esse pacotinho para os usos que ela tinha em mente e (b) deixar esse pacotinho na sua mão para que você produza um bem que ela valoriza tanto quanto o pacotinho deslocado.

Do outro lado temos a demanda, uma curva decrescente. Ao preço de equilíbrio P* corresponderá uma quantidade de equilíbrio Q*. Esse preço é o custo marginal social dessa última unidade produzida. Todas as unidades produzidas antes desta última unidade geraram excedentes de troca que foram repartidos entre o ofertante e os demandantes. A sociedade então ganhou! Agindo no seu interesse privado, sem pensar na sociedade, você fez um bem à sociedade, gerou excedente de trocas, satisfez necessidades de alimentação, de lazer, de cultura, de produção.

Eu já ouvi muito professor dizer que a teoria da produção é apenas o recíproco da teoria da demanda. Matematicamente existe, sim, essa simetria, mas economicamente são dois processos fundamentalmente distintos. A demanda tem uma natureza essencialmente privada. Já a produção, além de seu caráter privado, possui também uma natureza social, que se manifesta na relação entre a curva de oferta privada e a valoração marginal da sociedade sobre os recursos deslocados para a produção do bem. Como dizia William Stanley Jevons e, depois dele, John Bates Clark, a produção é um fenômeno social e, por isso, distinto da demanda.

Tudo irá bem até aparecer um iluminado dizendo que seu lucro tem que ser limitado, porque lucrar é intrinsecamente mal, confundindo egoísmo econômico com vício moral. Talvez o iluminado seja até capaz de escrever um artigo dizendo que Microeconomia é coisa de asno. Pura hipermetromoria.

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