MICROECONOMIA em DOSES: custo de oportunidade
(Rodrigo Peñaloza, 8/4/2017)

Para se entender o conceito de custo de oportunidade, há-de se entender primeiramente a diferença entre custo e escolha. Toda ação é percebida por quem a executa como contendo atributos desejáveis e indesejáveis. O indivíduo racional finalmente executa determinada ação quando, após um processo psicológico, ele julga que o valor dos atributos desejáveis supera o valor dos atributos indesejáveis. Esse raciocínio está associado à ideia de que o valor da ação é dado pela soma do prazer (com valor positivo) com o sofrimento (com valor negativo) inerentes à ação. Ao construir uma casa na serra, um indivíduo pode julgar que os atributos indesejáveis são identificados com o esforço físico que terá de dispender para a construção da casa, enquanto que os atributos desejáveis podem ser identificados com o bem-estar de possuir uma casa segura com vista para a mata e o rio. Ele considera, por conseguinte, que o valor da casa é positivo. Essa noção de valor é inerente à própria ação (notem que não disse inerente ao bem). O leigo em geral toma o custo de uma ação como sendo o valor atribuível aos atributos indesejáveis que lhe são inerentes. Nenhuma relação existe entre o valor associado à escolha do indivíduo e outras escolhas possíveis.

O custo de oportunidade, ao contrário, é um conceito relativo. O custo de oportunidade de uma ação só faz sentido se se consideram todas as alternativas possíveis a essa ação. Ele é definido como o valor da melhor alternativa à ação. Imagine que o indivíduo tem diante de si duas ações possíveis: a ação A e a ação B. Os atributos desejáveis e indesejáveis inerentes a cada ação são medidos monetariamente conforme a tabela abaixo:

Na linguagem popular, o “custo” da ação A é $IA. Na linguagem econômica, o “custo de oportunidade” da ação A é $(DB-IB). E o “custo de oportunidade” da ação B é $(DA-IA). Vemos, assim, que são conceitos distintos. O valor atribuível a uma ação pode diminuir devido ao aumento do valor dos atributos indesejáveis. Entretanto, seu custo de oportunidade pode permanecer o mesmo.

Imagine que seu amigo possui um sítio, herança de família. Portanto, ele não paga aluguel pelo sítio. No sítio seu amigo cria aves para vender ovos. Para manter as aves produzindo ele gasta mensalmente $1.000. Isso inclui gastos com ração, gastos com cuidados veterinários e manutenção do sítio. A receita mensal de venda dos ovos é de $1.500. Como ele não é economista, ele poderia crer que seu negócio é lucrativo, pois todo mês ele ganha $500 de receita líquida.

Você, porém, como economista, teria de convencê-lo do contrário: ele está perdendo dinheiro! De fato, o aluguel da terra é de $650 por mês. Esse é o custo de oportunidade do uso de seu sítio. Mesmo que ele seja o dono do sítio e não tenha que pagar aluguel a outrem por ele, esse custo de oportunidade deve ser levado em conta. Se ele se desfizesse do negócio e simplesmente arrendasse a terra ao preço de mercado, todo mês ele ganharia $650. Como ele optou por ganhar $500 e abriu mão de $650, ele está tendo um prejuízo de $150 por mês.

Mas seu prejuízo é maior ainda! Se ele investisse os $1.000 que gasta todo mês no mercado financeiro, ele ganharia, digamos, $1.050, caso a taxa real de juros fosse de 5% ao mês. Esse é o custo de oportunidade do capital. Se ele não trabalhasse no próprio sítio, sua segunda melhor opção seria trabalhar numa firma de sua cidade, ganhando um salário mensal de $2.300. Esse é o custo de oportunidade do trabalho.

Coloquemos esse exemplo no contexto de valor e custo. A alternativa A é a produção de ovos. Para seu amigo, os atributos desejáveis são medidos pela receita de venda dos ovos. Os atributos indesejáveis são medidos pelo custo contábil de produção dos ovos. O valor do sítio é, portanto, de $500. A alternativa B é o arrendamento da terra, junto com o investimento financeiro e o trabalho na firma, cujo valor é de $650+$1.050+$2.300. Por simplicidade, chamaremos a alternativa B simplesmente de arrendamento. Não importa como se decompõe esse valor entre atributos desejáveis e indesejáveis, embora tenhamos medido os atributos desejáveis da alternativa B como sendo o valor do aluguel da terra, etc., sem atributos indesejáveis.

Temos, assim, a seguinte tabela com os valores e os custos de cada opção:

Você diria a seu amigo que a opção economicamente correta seria arrendar a terra e que ele está tendo um prejuízo de $3.500 por mês.

Não convém parar a análise neste ponto. Afinal, temos que entender todas as nuances. Seu amigo pode dizer-lhe que o sítio tem um valor sentimental muito grande, pois herdou de seu pai. Desfazer-se dele por um mês seria equivalente a uma perda de $3.800. Esse é o valor mínimo que ele exigiria para arrendá-lo, de forma a compensar monetariamente o fato de manter-se distante do sítio por um mês. A nova tabela seria, então:

Nesse caso, seu amigo teria razão em optar pela produção de ovos. E você, errado.

O custo de oportunidade de uma ação é, portanto, o valor da melhor alternativa de que se abriu mão. É esse o conceito de custo que deve ser usado na teoria econômica. O preço w de um fator de produção na quantidade z é o custo de oportunidade da utilização da última unidade desse fator. Se essa última unidade fosse alocada da melhor maneira possível para um uso alternativo, então w é a mensuração exata do valor adicional que essa alocação alternativa provocaria.

Um aspecto importante do custo de um unidade de um fator é a sua não-uniformidade conforme o uso que se faz dessa unidade. Em outras palavras, os usos alternativos de cujos valores se abre mão dependem do uso cujo custo se está calculando. George Stigler (The Theory of Price, 1966) ilustra esse aspecto com um exemplo bastante simples:

(a) O custo econômico de um acre de terra para o uso agrícola é o valor que o acre produziria em usos alternativos ao uso agrícola, exempli gratia, um condomínio residencial, uma área de lazer como um parque privado etc.

(b) O custo econômico de um acre de terra para o agricultor que produz trigo é o valor que esse acre produziria em plantios alternativos, como o de aveia, milho etc., bem como em outros usos não-agrícolas.

(c) O custo do acre de terra para o produtor de trigo é o valor que a terra produziria estivesse sendo ela usada por outros plantadores alternativos, bem como seu uso para outros fins não-agrícolas.

O caráter subjetivo dos custos econômicos torna-se patente. Do ponto de vista objetivo, só o que se tem é o acre de terra. Mesmo que existam vários produtores, cada um deles tendo um acre de terra e cada um deles tendo que decidir o que fazer com a sua respectiva unidade, o custo do acre dependerá do fim que cada produtor tem em vista.

Suponha que há dois produtores de trigo, A e B, vizinhos, cujas terras são perfeitamente homogêneas em termos de qualidade e propriedades orgânicas, além de terem a mesma produtividade marginal. Ambos plantam a mesma espécie de trigo e usam a mesma tecnologia de produção. Cada um deles quer adquirir um acre adicional adjacente às suas respectivas terras. Esses acres adicionais em nada diferem do resto da terra. Embora a produtividade marginal do acre de terra para cada produtor seja menor do que a produtividade do acre imediatamente anterior, as produtividades marginais dos produtores A e B, como supusemos, são iguais entre si, de modo que o acre adicional de A em nada é diferente do acre adicional de B. Mesmo assim, o custo do acre adicional pode ser diferente para cada um deles. O produtor A está diante da escolha entre plantar trigo nesse acre adicional, o que lhe daria um valor de $10, ou alugar o acre para um produtor familiar ao preço de mercado, o que lhe daria um valor de $7. Portanto, o custo do acre adicional para o produtor A é $7, que é o valor do aluguel do qual ele abriu mão, a sua segunda melhor alternativa. O produtor B inicialmente estaria diante das mesmas escolhas, mas há uma característica que o separa do produtor A: a localização. O acre adicional do produtor B está em frente a um parque ecológico e, em razão disso, ele tem a opção de construir ali um estacionamento que lhe daria um valor de $8, alternativa que se apresenta ao produtor A. Assim, B pode plantar trigo e obter um valor de $10, tal como A, ou pode, alternativa e diferentemente de A, construir um estacionamento por um valor de $8. Observe que alugar o acre pro $7 também é uma alternativa para B, mas não é a segunda melhor opção. É a terceira. Logo, tanto A como B decidem plantar trigo, mas seus custos não são iguais. O de A é $7 e o de B é $8. A homogeneidade do acre é rompida pela característica da localização.

Se o exército paga um soldo alto ao oficial que é engenheiro, isso não torna a defesa nacional economicamente mais cara, pois o custo do oficial engenheiro não é o soldo que se lhe paga, mas o seu salário alternativo como civil. Se não há qualquer alternativa entre a de ser engenheiro do exército com soldo elevado e ser engenheiro no setor privado recebendo o maior salário possível no setor privado, então o soldo pode aumentar tanto quanto seja possível até o ponto em que o próprio exército se defronte com a alternativa de pagar o soldo elevado ou gastar esse dinheiro em outra alternativa. Como diz Stigler, o soldo mais elevado do soldado só envolve um custo econômico para a sociedade na medida em que isso conduza ao emprego de mais coletores de impostos.

O que esses exemplos mostram é o quanto o raciocínio leigo sobre o significado de custo econômico é equivocado. Embora simples, o conceito de custo econômico é sutil.

Somente quando a homogeneidade é absoluta, não apenas quanto às propriedades da terra, mas também quanto às características hedônicas, localização etc., é que os custos econômicos, no exemplo acima, serão iguais. Uma indústria é um conjunto de firmas que produzem um bem homogêneo. O significado de homogeneidade do produto fica de antemão bem mais claro. Isso lança luz, porém, sobre o significado de outra coisa: a agregação de custos entre diversos produtores. Ao estimar uma função de custo setorial, fecham-se os olhos para essas diferenças. Assim, qualquer função agregada deve ser interpretada como uma média estatística, caso esses fatores de heterogeneidade sejam tidos como aleatórios. Essa era a visão de Marshall, para que a economia no seu estado normal incluía os padrões usuais de aleatoriedade.

Sob a condição de homogeneidade, portanto, desde que entendida em toda sua abrangência, como alertado acima, pode-se dar objetividade ao custo de oportunidade mediante o preço de mercado da melhor alternativa.

O custo de oportunidade da utilização de um recurso econômico qualquer no longo prazo pode claramente ser diferente de seu custo de oportunidade no curto prazo. Cada vez que um estudante dedica uma hora do seu dia para estudar economia, ele está incorrendo um custo de oportunidade. Possivelmente sua segunda melhor opção fosse ocupar essa hora tomando cerveja, mas depois que se formar, sua segunda melhor opção passará a ser um bom emprego no governo ou no setor privado. O que explica a diferença entre custo de oportunidade no curto e longo prazo é o fato de que, no longo prazo, o rol de alternativas é sempre maior do que no curto prazo.

A formalização final do conceito de custo de oportunidade deve-se a Frank Knight em um artigo de 1928 (“A suggestion for simplifying the statement of the general theory of price”, Journal of Political Economy, XXXVI: 359), baseado na tradição da Escola Austríaca, representada principalmente por von Wieser. Aliás, o próprio Frank Knight reporta que sua posição era compartilhada mesmo por Philip Wicksteed, um dos maiores expoentes do marginalismo na virada do século XIX para o XX. O conceito de custo de oportunidade é um conceito objetivo (sob ampla homogeneidade) e tornou-se a posição ortodoxa desde então. O custo de oportunidade é um conceito objetivo na medida em que o custo pode ser estimado por observadores externos via preços de mercado. Apesar de os indivíduos imputarem valores subjetivos distintos, o que conta é a valoração coletiva, isto é, da economia como um todo. Os preços de mercado refletem justamente essa valoração coletiva porque são as valorações dos indivíduos que estão na fronteira entre sair do mercado e entrar: os agentes que oscilam entre a infra-margem e a supra-margem.

Alguns anos mais tarde, porém, Frank Knight arrependeu-se, de certa forma, da maneira como definiu o custo de oportunidade, muito embora sua revisão não tenha se tornado popular entre os economistas (vide James Buchanan, Cost and Choice, 1969, cap. 1). Basicamente, Knight teria argumentado que existem vantagens e desvantagens não-pecuniárias que não são levadas em conta pela definição de custo de oportunidade em termos do valor econômico da melhor opção alternativa. De fato, o valor de mercado dos recursos deslocados para a produção de uma unidade adicional de produto ou o valor do produto alternativo não teriam relevância para o tomador de decisões. Esse valor não seria uma medida de seu custo, do custo do tomador de decisões. Em outras palavras, Knight retoma a ideia de que custo é um conceito subjetivo.

Para entendermos melhor o que foi dito, imaginemos que temos duas alternativas, digamos duas ações distintas A e B, e que devemos escolher uma delas. Se escolhemos a ação A, como será possível dizermos que seu custo de oportunidade é o valor da ação B se, ao deixarmos de tomar a ação B, simplesmente abrimos mão de experimentar o valor subjetivo que a ação B proporciona? O segredo dessa dúvida é admitir que a ação B, toda vez que é tomada, traz custos e benefícios subjetivos que não se repetem necessariamente. Toda vez que a ação B é tomada, o indivíduo tem sentimentos distintos relativamente a ela.

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