MICROECONOMIA em doses: DEPRECIAÇÃO E OBSOLESCÊNCIA
(Rodrigo Peñaloza, 25-I-2016)

O que tenho observado ao longo dos anos em minhas relações com grupos de economistas e interessados em Economia é que existe uma deficiência intelectualmente quase-insuportável de conhecimentos microeconômicos elementares, mesmo entre economistas “famosos” que ganham a fama graças mais à condescendência de seus contatos jornalísticos na Imprensa Livre e na imprensa comprada do que por seus méritos propriamente acadêmicos. Isso digo daqueles que costumam criticar a Microeconomia sem dela ter aceitável conhecimento ou recusar por incompreensível preconceito a sua ajuda.

O propósito desta série é, portanto, essencialmente didático. Quero explicar conceitos básicos, conceitos que alguns possam não ter claros em mente ou mesmo conceitos de cuja insciência sequer estejam cientes. Sim, pois há uma diferença epistêmica entre saber que não se sabe e não saber que não se sabe. E essa diferença epistêmica não é um termo coloquial, é também um termo técnico sobre o qual, se a fortuna me sorrir, também eventualmente falarei.

Resolvi intitular esse meu esforço de “MICROECONOMIA em doses”. Por quê? Porque, do meu ponto de vista, o economista nacional está fraco e o tônico fortificante chama-se Microeconomia. O tônico causa ojeriza a muitos, porque dele fazem ideia equívoca, tantas são as bobagens que lhes têm sido enfiadas cérebro adentro por professores tão despreparados para apreciar devidamente os méritos analíticos da Microeconomia quanto um sapateiro para lidar com os problemas elétricos. É em doses indolores porque não sabe a óleo de fígado de bacalhau. É o que espero. Sei, porém, que não atingirei a todos, mas me regozijo em saber que pelo menos alguns chegarão a aproveitar as doses ministradas. Se me vierem com doses de outras abordagens, até as aceitarei, mas não me servirão, porque, contrariamente aos que, não sendo microeconomistas, ainda assim se aventuram a falar bobagens com ares de microeconomistas, eu, contrariamente àqueles, como dizia, sou apenas um microeconomista que tem por princípio não se aventurar a palpitagens sobre o que sei que não sei. Por exemplo, não entendo Macroeconomia. Não entendo e ponto! Deixo-a aos meus colegas que sabem muito mais do que eu e dela fazem excelente uso e nos proporcionam excelentes análises com as quais, apesar de tudo, me locupleto de bom grado. Até na Academia existe uma divisão natural do trabalho. Que o público saiba disso. E que saiba reconhecer também quando um acadêmico finge ou quando mente.

Nesta minha primeira tentativa, vou explicar a diferença entre depreciação e obsolescência. Depreciação econômica, diga-se, pois esta difere muito das técnicas de depreciação contábil. São ideias simples e a referência que eu fortemente sugiro é o artigo “Cost”, de Armen Alchian. Lá ele explica muitas coisas, inclusive a depreciação, embora apenas mencione a obsolescência e sobre a qual tive de incluir aqui as minhas próprias reflexões, que julgo obviamente fazerem sentido. Afinal, foi pra isso que estudei.

Imagine que um carro novo da marca X custe hoje, aos preços de mercado, $100.000 e que o mesmo carro da marca X com um ano de uso custe hoje, aos preços de mercado, $90.000. Então a depreciação é de $10.000 e a taxa de depreciação é de 10% ao ano (para o primeiro ano de uso).

Assim, se P(1) e P(0) são os preços, HOJE, de um certo bem hoje (período 1) e com um ano de uso (ou seja, o bem era novo no período 0), respectivamente, então a depreciação é definida pela diferença ΔP=P(1)-P(0). A depreciação é um valor monetário e não deve ser confundida com a taxa de depreciação, que é a queda percentual do valor, ou seja, d=ΔP/P(0)=[P(1)-P(0)]/P(0). Além disso, P(0) NÃO é o preço pago pelo bem novo no período 0, mas é o preço que o mercado está disposto a pagar HOJE (período 1) pelo bem produzido no período 0. Essa diferença conceptual é fundamental e ilude muitos consumidores que têm dificuldade em realizar transações econômicas porque não aceitam que o mercado valorize seu bem, hoje, diferentemente do quanto ele pagou por ele ontem. Não importa o quanto você pagou. Esqueça! Isso é custo passado e é irrecuperável. É um sunk cost.

Note que o termo “depreciação” só tem sentido se o preço de mercado cai com o uso do bem, isto é, se P(1)<P(0). Se o preço aumenta com o uso, então o termo recíproco é apreciação. O termo “uso” também é ambíguo, pois um bem pode se apreciar sem ser usado no sentido comum do termo, mas apenas sendo mantido como sua propriedade e não de outra pessoa. O exemplo clássico é o vinho. Você adquire a garrafa de vinho e a guarda. Se o vinho for bom, seu valor de mercado aumentará com o tempo. Uso, neste caso, não se refere a tomar ou não o vinho, mas ao fato de a garrafa que você adquiriu já ser sua, de ela já ter sido comprada por você. Mesmo que permaneça fechada, ela já deixou de ser “0 Km”. O mesmo vale para a depreciação. Você entra na loja e compra um carro novo. Depois que você assinou o cheque e pegou o recibo, seu carro já se depreciou, mesmo que você nem o tire da garagem da loja. Seu valor de mercado já caiu pelo simples fato de o direito de propriedade ter sido transferido pela primeira vez a um comprador. Um outro caso (a mim sugerido por Fernando Hadba) é o dos demo cars, aqueles carros que são usados para test-drives. São usados, mas sem transferência inicial de propriedade. “Uso”, portanto, é um termo que tem várias qualificações, pois inclui o uso físico do bem, a transferência de propriedade ou uma mistura dos dois.

Se você compra um carro da marca X hoje com a intenção de vendê-lo daqui a um ano, você faz uma estimativa de qual será seu valor daqui a um ano. A estimativa é sempre subjetiva, é a sua impressão das coisas. Porém, se você tem à disposição uma série histórica de valores do carro X para diversos anos de uso e se você considera que todos os fenômenos que afetam a economia “normalmente” continuarão a afetá-la como sempre fizeram, “sem nada de novo no front”, então você pode usar essa série histórica como um estimador da depreciação do seu carro em um ano e, assim, planejar seu fluxo de ações no tempo.

Só que daqui a um ano, quando o futuro já tiver chegado, se o preço do carro com um ano de uso não for o P(0) que você observa hoje, mas um preço P*(0) diferente, então você terá que se contentar com P*(0). Pode ocorrer que o mesmo carro X tenha tido depreciações de um ano de uso diferentes em períodos consecutivos diferentes. Por exemplo, suponha que em 2012 um CRV 0 Km novinho custasse $100.000 e que um semi-novo com um ano de uso custasse, no mesmo ano de 2012, $90.000, sendo a depreciação de $10.000, mas que em 2014 o CRV 0 Km novinho custasse $95.000 e que um semi-novo com um ano de uso custasse, no mesmo ano de 2014, $89.000, sendo a depreciação de $6.000. Então, qual depreciação de um ano que você considerará HOJE ao comprar um CRV 0 Km com a intenção de vendê-lo em um ano? Nenhuma delas! É que o P(1) que você deve levar em conta HOJE é o preço do CRV novo HOJE e o P(0) que você deve levar em conta HOJE é o preço do CRV com um ano de uso HOJE.

Um aspecto importante quanto ao “valor” do carro X é que os preços de mercado refletirão adequadamente o valor econômico que a sociedade atribui ao carro X, quaisquer que sejam seus anos de uso, somente se os preços de mercado forem livremente determinados.

Em suma, se P(1) e P(0) são os preços, HOJE, de um certo bem hoje (período 1) e o mesmo bem hoje com um ano de uso (adquirido no período 0), respectivamente, então a depreciação, que é definida como ΔP=P(1)-P(0), é uma espécie de primeira derivada do preço como função do tempo: é a variação por unidade de tempo, HOJE.

É somente agora que podemos falar de obsolescência. Voltemos ao P*(0) mencionado acima. O que ele significa economicamente? Você comprou o carro novo há um ano atrás e seu preço foi P(1)=$100.000. Naquele momento, o preço do mesmo carro com um ano de uso era P(0)=$90.000 e, com base nisso, você calculou, naquele momento, que a depreciação do carro que você estava comprando seria, em um ano, de ΔP=P(1)-P(0), ou seja ΔP=$10.000. Só que HOJE você se dá conta de que o preço do seu carro (que hoje tem um ano de uso) é P*(0)=89.000. A depreciação que você enfrenta hoje é maior: é de $11.000. A obsolescência é, portanto, esse acréscimo de $1.000 na depreciação. Seu carro com um ano de uso vale menos HOJE do que valeria se tudo isso estivesse ocorrendo, não hoje, mas há um ano. A essa queda do valor do carro semi-novo se dá o nome, como disse, de obsolescência.

Note que a obsolescência corresponde, na verdade, a um aumento da depreciação. Mas não é um aumento qualquer. É um aumento que não foi antecipado, é um aumento que foi descoberto HOJE! O termo obsolescência é sugestivo, pois decorre da plausível explicação para a queda inesperada (no sentido estatístico do termo) do valor de mercado do carro semi-novo. É que talvez novos carros tenham sido lançados no mercado e, com isso, a valoração que a sociedade atribuía a esse carro semi-novo se reduziu, pois as pessoas, tendo à disposição um produto novo e mais atraente, refazem suas preferências e passam a valorizar menos aquele semi-novo específico.

Desconheço se há um termo recíproco de obsolescência para o caso de redução inesperada da depreciação, como quando um carro velho com N anos de uso, por alguma razão passa a valer, HOJE, mais do que o mesmo carro velho com os mesmos N anos de uso valia no período anterior. É claro que esse fenômeno não é incomum, mas se alguém souber qual o termo, ficarei feliz em saber.

A tentação para modelar a obsolescência como um choque aleatório sobre a depreciação é grande. A tentação é modelar a depreciação como a diferença ΔP=P(1)-P*(0), em que P*(0)=P(0)+e(1), em que e(1) é um choque corrente sobre o valor do semi-novo de tal forma que, se e(1)>0, então a obsolescência fosse a diferença e(1)=P(0)-P*(0) e em que P(0) fosse o valor de um semi-novo estimado estatisticamente e P*(0) fosse apenas a realização dessa variável aleatória. O problema com essa tentação é que ela é parcialmente incorreta, ou melhor, é incompleta. Ela pressupõe que toda nova invenção ou surgimento de um produto melhor e que torne obsoleto o carro X é antecipada e recebe, assim, uma probabilidade de ocorrência. Nesse sentido, quando você compra o carro novo hoje pra revendê-lo em um ano, você deve comparar as suas avaliações subjetivas de ganhos futuros com a depreciação esperada que você calcula hoje com base nessas probabilidades que você atribui, hoje, às possíveis depreciações (no período de um ano a partir de hoje) resultantes, cada uma, de diferentes surgimentos de novas marcas ou modelos de carro que venham a tornar o seu carro um veículo obsoleto em um ano. (Aliás, a pronúncia correta é “obsoléto”, não “obsolêto”). Se você pensar assim, então a obsolescência será nada mais que o erro negativo de previsão. A distribuição do choque aleatório e(1) deveria ser fortemente concentrada em valores negativos.

Porém, a obsolescência também tem sentido se não puder ser antecipada. Por natureza, a obsolescência assim considerada é o que os estatísticos chamam de surpresa. Ela não se sujeita, nessas condições, a um tratamento probabilístico ou de risco. No máximo, no máximo, poderia ser tratada sob uma abordagem de incerteza knightiana ou de outras abordagens não-probabilizáveis (com probabilidades subaditivas, por exemplo, como no caso da incerteza knightiana).

Temos sempre a expectativa de surgimento de modelos melhores que venham a tornar obsoletos os carros já existentes, mas eventualmente devemos admitir que coisas inesperadas podem ocorrer. O termo “inesperadas” tem um sentido técnico, obviamente. São eventos dos quais você não sabia e sobre cuja insciência você era insciente.

Não sei, leitor amigo, se você entendeu o que eu quis dizer com tudo isso aí em cima. Mas se não entendeu, pelo menos agora sabe que não entendeu. Já é um primeiro passo. Eu, de minha parte, contento-me em saber que pelo menos tentei repartir meu parco conhecimento.

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