Animal fofinho da internet.

MICROECONOMIA em DOSES: TEOREMA DE ALLEN-ALCHIAN
(Rodrigo Peñaloza, 15-X-2016)

O título bem que poderia ser ECONOMIA DA FOFURA. Continuando a série Microeconomia em doses, neste texto vou mostrar como a Microeconomia pode explicar o fato de a internet estar repleta de vídeos de animais fofinhos. Você mesmo, leitor, já deve ter dado, coração enternecido, o seu like a centenas desses vídeos.

Antes, porém, preciso trazer à luz um princípio básico da Teoria dos Preços, que é como os antigos economistas, desses que quase não existem mais, chamavam a Microeconomia. O preço final é uma soma de preços-sombras de etapas entre a fonte e o destino. A cada etapa, o preço vai sendo acrescido do respectivo preço-sombra (ou multiplicador de Lagrange). O exemplo mais simples é o custo de transporte. Isso é típico de lojas que compram no atacado para vender no varejo. O preço do bem no varejo é mais alto do que no atacado porque ele embute o preço-sombra do transporte ou da intermediação entre fonte e destino. Outro exemplo é o preço da energia elétrica em horários de pico de consumo. Enquanto a demanda é baixa, a tarifa da energia reflete o custo marginal operacional da produção de energia. Quando a demanda sobe no início da noite, a empresa produtora atinge a capacidade instalada e, por isso, acrescenta ao custo marginal operacional da energia o preço-sombra da capacidade instalada. É por isso que existe horário de verão. Não é para economizar energia: é para distribuir o consumo no início da noite de modo a evitar que se atinja a capacidade instalada e, com isso, evitar cobrar a tarifa mais alta de verão. Quando houver investimento em infra-estrutura e aumento da capacidade instalada, não precisaremos mais de horário de verão.

A chave para entender a economia da fofura e de muitas outras coisas é o Teorema de Allen-Alchian. Refiro-me a William Allen e Armen Alchian, dois dos maiores economistas do século XX e que tiveram a honra de ser esquecidos pela Academia Sueca. Arnold Harberger e William Baumol vão pelo mesmo caminho. O Teorema de Allen-Alchian é também conhecido como a Terceira Lei da Demanda.

Considere um bem que pode ser de boa qualidade ou de qualidade ruim. O Teorema de Allen-Alchian explica como a distribuição do bem de qualidades substitutas é afetada pelos custos fixos. Como mencionei acima, para o comerciante que compra no atacado para vender no varejo a uma distância fixa, o preço-sombra do transporte é um custo fixo. Não entenda esse custo fixo como o custo fixo que você aprende no livro-texto, ou seja, como o custo fixo em que se incorre independentemente da quantidade produzida. Não é isso! O adjetivo fixo significa apenas que o preço final de cada lote do bem inclui o custo incremental de transporte. Subentende-se que a distância entre a fonte e o destino é fixa. Embora na aparência se confunda com um custo fixo, é, na essência, distinto. É, portanto, como uma parcela discreta do custo incremental. Para o produtor, o custo marginal é o custo marginal de produzir a unidade. Para produzir, ele não paga transporte. O transporte configura-se noutra atividade econômica, ou seja, outra etapa. O custo de oportunidade da realização dessa etapa é o valor do transporte. Como esta etapa se resume à ação binária de transportar ou não, o preço-sombra é o custo incremental do transporte, com aparência de fixo. Pode ser o mesmo independentemente da quantidade comprada no atacado, mas é variável conforme o número de viagens da origem para o destino.

Convido o leitor para um vinho. Suponha que todos os consumidores de vinho têm as mesmas preferências e renda. Uma garrafa de vinho bom custa $100. A de um vinho ruim, $40. Se você consome o vinho no local em que foi produzido, você vai pagar $100 pelo vinho bom e $40 pelo vinho ruim. A quantidade que você consome de cada vinho deverá ser tal que sua taxa marginal de substituição entre vinho bom e ruim se iguale aos preços relativos, 100/40=2,5. Pra você, uma garrafa de vinho bom equivale a 2,5 de ruim (ou não tão bom assim, pra sermos mais flexíveis).

Imagine agora que as duas garrafas são transportadas para um local distante. O custo de transporte é $20. O mesmo custo aplica-se aos dois tipos de vinho. Entendeu o sentido do “fixo”? Nesse local distante, os preços dos vinhos serão $120 e $60. Agora, a quantidade que você consome de cada vinho será aquela à qual a taxa marginal de substituição é igual a 120/60=2. Cada garrafa de vinho bom agora equivale a duas de ruim.

O vinho bom ficou relativamente mais barato para o consumidor distante. Como os consumidores são idênticos em termos de preferências e renda, a distribuição de consumo de vinhos bons e ruins no local distante é diferente da distribuição no local de produção. Os consumidores distantes vão consumir mais vinhos de boa qualidade. Os consumidores locais tenderão a consumir os vinhos piores. Quanto mais distante o local de consumo, maior a proporção do bem de boa qualidade relativamente ao bem ruim, pois o bem de boa qualidade torna-se relativamente mais barato do que nos locais mais próximos à produção. Ecce theorema!

Já pensou porque o café brasileiro de alta qualidade é mais consumido lá fora do que aqui? Não é porque o produtor não gosta do consumidor nacional. É que o custo de transporte torna o café bom relativamente mais barato para o consumidor internacional. O produtor, então, vislumbra o consumidor internacional como mais disposto a pagar pelo café bom que o consumidor nacional.

O que se passa com os vídeos de animais fofinhos na internet é exatamente o raciocínio inverso do exemplo acima. Para uso inicial do teorema de Allen-Alchian aos gatos na internet, veja o blog marginal revolution, de Tyler Cowen (sugestão do Leo Monasterio). Para entender o modo microeconômico de pensar de gigantes como Armen Alchian, veja o livro dele com o Allen, Exchange and Production: Competition, Coordination, and Control. A versão original do livro, da década de 1960, é University Economics. Votando ao tema, o custo do transporte corresponde ao custo de disponibilizar o vídeo na internet. Esse custo incremental, mesmo que pequeno, existe, não é nulo, como algumas pessoas ignorantes dos princípios mais elementares da Economia tentam difundir. O consumidor do local distante é, neste caso, praticamente o mundo todo. Se o autor do vídeo faz o upload em Itapuruçu do Tranindé, o custo de transporte para qualquer lugar do mundo é o mesmo. Talvez não para a Coreia do Norte.

Muito bem. Troque a palavra vinho por vídeo na internet. Antigamente, quando não havia internet, o preço pago para ver um vídeo de animais fofinhos era alto. A internet, porém, reduziu a parcela do preço correspondente ao transporte. O caminho vai da situação de consumo distante para o consumo no local de produção… ou quase isso. Consequentemente, o consumo do produto de qualidade ruim tende a ser maior do que o de boa qualidade. Isso deve estar intuitivamente claro para o leitor. Se o acesso a vídeos na internet fosse pago, as pessoas tenderiam a comprar mais vídeos úteis e intelectualmente estimulantes do que as porcarias que vemos por aí.

O Teorema de Allen-Alchian também explica porque, no que concerne ao atual debate econômico no Brasil, as pessoas preferem compartilhar vídeos mentirosos de artistas iludidos, artigos ideológico-partidários de fontes sabidamente ruins ou colunas de economistas despreparados, em vez de compartilhar as opiniões de pessoas mais bem preparadas.

Se o leitor aprendeu um pouco mais da Microeconomia, dou-me por satisfeito.

_______________________
Por favor, leia também:
* On the notion of wrong decision in the Greek tragedy: the epistemic rôle of uncertainty, risk and ignorance
* A República Romana e os instrumentos de crédito
* O mercado de escravos em Roma e o problema da seleção adversa
* O bolsa-família do Império Romano
* Entre a insciência e a literatura
* Cur viris liberalibus sit incohaerens capitis praedicare poenam
* Competição perfeita: o que é isso?
* Microeconomia em doses: curva de oferta
* Microeconomia em doses: custo de eficiência
* Microeconomia em doses: depreciação e obsolescência
* Microeconomia em doses: curto-prazo versus longo-prazo
* Microeconomia em doses: obsolescência programada
* Microeconomia em doses: valor de Shapley
* Externalidades e o teorema de Coase
* The deteleologization of Joseph McMill
* Insula Itamaracá
* O princípio platônico e o livre-arbítrio
* Microeconomia contra a Lei Pelé
* Como desenhar contratos sob seleção adversa
* Microcredit: a Bosnian tragedy
* FIES: quando vale a pena? (No blog do EconomistaX)
* Reinterpretando o índice de Gini
* Marshall e Walras sobre lucro zero
* The top 10 Economics books of the past century: what is the problem?
* Reflexões sobre o lucro segundo Schumpeter, Clark, Knight e Kirzner
* Dilemma captivorum
* De monade
* Bellum iaponicum
* Microeconomia da variação da renda nacional
* Jevons on clearing houses
* O decálogo de Mankiw e a tétrada da Economia
* Teoria dos jogos versus estatística
* Russel’s paradox and Greek ontology
* “Res perit domino” ou “codex civile est nobis dolori” ou ainda: do Direito ineficiente 
* On the Greek origins of the idea of spontaneous order versus deliberate order
* Egregora
* εἲς μούσαν τῆς χρωμογραφίας
* De coloribus verborum
* Minha interpretação da carta de Paulo aos romanos 12:19
* On the rationality of the Golden Rule or: why Eve should not be blamed alone for the fall
* A fine example of true irony: Friedrich Hayek on constructivist rationalism
* On the concept of soul among the Greeks
* O paradoxo da nave de Teseu
* On Thoreau’s Essay on Walking
* Terra Brasilis
* A conundrum about Proto-Indo-European

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Rodrigo Peñaloza’s story.