MINHA INTERPRETAÇÃO DA CARTA DE PAULO AOS ROMANOS 12:19.
(Rodrigo Peñaloza, 2014)

No Novo Testamento, na versão Almeida corrigida, lê-se, na carta de Paulo aos Romanos, 12:19: “Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira, porque está escrito: Minha é a vingança; eu recompensarei, diz o Senhor”. O termo vingança aparece em apenas outras 4 passagens do Novo Testamento. No original grego em todas essas passagens o termo utilizado é ou o substantivo ἐκδίκησις (/ekdíkesis/) ou as formas participiais derivadas do verbo ἐκδικέω (/ekdikó/).

A tradução por “vingança” não é apropriada. De fato, em Grego, o termo para vingança era τιμωρία (/timōría/), palavra relacionada a τιμή (/timé/), que significa “valor, preço a ser pago” ou ainda “castigo” ou “pena”. A vingança estava associada ao que se julgava ser a cobrança devida por conta de um ato sofrido. Em Latim, a ação de vingar deriva do verbo “vindico”, que significa “eu vingo”. É provável que esse verbo tenha sido a aglutinação da expressão “vim dico”, ou seja, “eu proclamo a força, a violência”, expressão que deu origem ao substantivo vindicta, donde “vindita” e posteriormente “vingança”, e ao infinitivo do verbo, vindicare, donde veio o nosso “vingar”. A vingança, portanto, estava associada ao exercício da força e da violência. Em nenhum caso, porém, a vingança correspondia propriamente à justiça, pois, tanto no Latim como no Grego, o termo para justiça não tem qualquer relação com as amplitudes semânticas mencionadas acima. Os latinos tinham o termo ius e os gregos tinham δική (/diké/). Depreende-se daí que a vingança não era tida como justiça, mas como um instrumento de punição segundo a justiça. Em Grego, era à justiça ou δική que se lhe outorgava o direito de prescrever o castigo ou τιμή, o que por si só já faz o agente diferir do instrumento de ação.

No Grego, em particular, para o exercício da justiça havia o termo ἐκδίκησις (/ekdíkesis/), justaposição do prefixo ἐκ (/ek/), que denota extração de dentro para fora, e do termo δική (/diké/), ou seja, trazer, para fora, a justiça ou, ainda, exercer a justiça, exatamente o termo original da versão grega. Por que, então, a tradução pelo termo vingança? A razão está na Vulgata latina. No texto latino, em todas as passagens o termo utilizado é ou o substantivo ulcus (/úlcus/), que significa ‘chaga’, usado em Lucas 21:22, ou, como nos demais 4 casos, em particular em Romanos 12,19, é sempre o verbo vindico e suas formas participiais. Daí o uso do termo vindita ou vingança.

Resta, portanto, substituir vingança por exercício da justiça e ver como muda o significado! Cabe um comentário, porém, ainda em Romanos 12:19, no que respeita ao termo “ira”, pois, ainda que mudemos vingança por exercício da justiça, o termo “ira” ainda assim contradiz o termo que proponho. Essa é uma tradução do termo ὀργή (/orgué/), que significa “ira”, mas também pode significar disposição natural. Da mesma forma, βία (/bía/), isto é, “violência”, significava também “ação contrária à ordem ou disposição da natureza”. O trecho citado não fala, portanto, na minha opinião, explicitamente de violência, mas de disposição natural. Esse conceito de violência contraposto a disposição natural vem de Aristóteles, que, em De Caelo, I, 8, distinguia movimento segundo a natureza e movimento segundo a violência: “todas as coisas, pois, estacionam ou se movem de acordo[, respectivamente,] com a natureza e com a violência” (Ἅπαντα γὰρ καὶ μένει καὶ κινεῖται καὶ κατὰ φύσιν καὶ βίᾳ). Isso quer dizer que a Natureza possui seu mecanismo intrínseco de equilíbrio.

Se nos restringirmos não só à ordem do plano material, enquanto criação divina, como o fez Aristóteles, mas nos estendermos também à ordem do plano espiritual, também enquanto criação divina, como penso, é de se imaginar se não há um mecanismo intrínseco de ajuste e equilíbrio espiritual ao qual podemos chamar justiça divina e de se perguntar se qualquer movimento de execução da justiça por parte do homem com o intuito de punir o transgressor moral, não pela ação do Direito terreno, mas sob a pretensa alegação de fazer cumprir a justiça divina pelas próprias mãos, é de se perguntar, como dizia, se isso não se configuraria, já no plano espiritual, em analogia à definição de Aristóteles, numa violência. Se esse raciocínio analógico é correto, então a vingança é um movimento de violência contra a ordem natural do plano espiritual que, por lei divina, possui seu próprio mecanismo de punição ou de ajuste do transgressor à Lei de Amor.

É somente dessa maneira que posso conceber como significativo o proferimento em Romanos 12:19, “Minha é a vingança (…), diz o Senhor”. No texto, Paulo exorta os romanos às virtudes cristãs, ele os exorta ao bem, à paz, à humildade, à hospitalidade etc. Eis a tradução de Romanos 12:9–21, constante da versão de Almeida, que aqui reproduzo apenas para compreensão do contexto:

“9 O amor seja não fingido. Aborrecei o mal e apegai-vos ao bem. 10 Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros. 11 Não sejais vagarosos no cuidado; sede fervorosos no espírito, servindo ao Senhor; 12 alegrai-vos na esperança, sede pacientes na tribulação, perseverai na oração; 13 comunicai com os santos nas suas necessidades, segui a hospitalidade; 14 abençoai aos que vos perseguem, abençoai, e não amaldiçoeis. 15 Alegrai-vos com os que se alegram; e chorai com os que choram; 16 sede unânimes entre vós; não ambicioneis coisas altas, mas acomodai-vos às humildes; não sejais sábios em vós mesmos; 17 a ninguém torneis mal por mal; procurai as coisas honestas, perante todos os homens. 18 Se for possível, quanto estiver em vós, tende paz com todos os homens. 19 Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira, porque está escrito: Minha é a vingança; eu recompensarei, diz o Senhor. 20 Portanto, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas de fogo sobre a sua cabeça. 21 Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem.”

Se Paulo os exorta ao bem, por que razão os exortaria, no versículo 19, a dar lugar à ira? À ira de quem? Não vejo coesão hermenêutica alguma na tradução oficial! Estou convicto de que o sentido era o de disposição natural ou a ordem natural das coisas ou disposição natural divina. O versículo dirá, assim: “Não exerçais a justiça a vós mesmos, amados, mas dai lugar à disposição natural [divina], pois está escrito: ‘É de Mim o exercício da justiça, Eu recompensarei’, diz o Senhor” (μὴ ἑαυτοὺς ἐκδικοῦντες, ἀγαπητοί, ἀλλὰ δότε τόπον τῇ ὀργῇ, γέγραπται γάρ, “ἐμοὶ ἐκδίκησις, ἐγὼ ανταποδώσω”, λέγει κύριος).

O que a carta de Paulo aos Romanos deixa claro é que a punição pela transgressão moral cabe ao Criador e que tal punição nada mais é que o mecanismo divino, na ordem natural das coisas, de reajuste moral inerente à Lei de Ação e Reação. A vingança é, portanto, ela mesma uma transgressão moral, porquanto a manifestação, pelo ato perpetrado, daquilo que, no fundo d’alma, substancia a ação do vingador, que é a descrença na Justiça divina.

Se esse versículo pudesse ser reescrito em um moderno modo de falar, eu o faria assim: “Amados, que o homem não cometa, com as próprias mãos, a justiça contra o próprio homem, mas que aceite a justiça divina que rege o mundo moral, pois está escrito: somente Deus pode punir o espírito. Se assim agirdes, sereis recompensados pelos sofrimentos em nome dos quais clamais o cumprimento da Justiça. Eis o que diz o Senhor”. Com essa tradução, o versículo 19 apresenta a necessária coesão hermenêutica com o sentido de todo o capítulo.

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