Minha resposta à “Nota de repúdio da Federação Nacional dos Estudantes de Economia” ao “Manifesto pelo fim da obrigatoriedade do registro de economista”

Futuros colegas,

Alegro-me de vê-los envolvidos no debate sobre a profissão de economista. Devo, entretanto, posicionar-me com relação à nota de repúdio (aqui) que li. Ao permitirmos que o curso de Economia seja escolha de quem realmente valoriza a graduação em Economia — e não apenas de quem a necessita por força de lei para o livre exercício futuro — , a qualidade do ensino e do aprendizado será maior, tal como vocês aprenderam nos cursos de Economia. De fato, ao alocarmos o ensino da Economia aos estudantes que a valorizam mais, o número de economistas graduados tenderá a ser o socialmente eficiente (obviamente ponderando-se todas as mudanças ao longo do caminho), livrando-nos daqueles que, sem interesse e com notório despreparo, entram no mercado protegidos por diplomas que não correspondem ao que deles se exige, além de não prejudicar, como hoje ocorre, aqueles que, conhecedores do assunto, gostariam de atuar na área e não podem. Resolveremos também um sério problema de moral hazard por parte de professores desincentivados, pois, dada a maior exigência que os alunos terão sobre a qualidade do ensino com vistas à concorrência de profissionais de outras áreas, os professores terão de exercer o esforço maior para ensinar bem. Portanto, não é correta conclusão de vocês de que a retirada da restrição ora vigente reduzirá a qualidade do ensino. Acrescente-se: “e” do aprendizado. Ao contrário, aumentará. Como vocês sabem, a toda restrição artificial e extra-mercado ao uso de recursos, inclusive os humanos — nos quais vocês se inserem — , corresponde um preço-sombra que eleva os preços para além dos seus verdadeiros custos marginais sociais, privando-se a sociedade de unidades que poderiam ser comercializadas mas que não são em virtude da restrição. Esses excedentes perdidos são precisamente os excedentes que poderiam ser criados por profissionais que deixam de atuar por não terem o diploma de graduação, além do desperdício social com a formação de economistas escudados pelo diploma, mas mal-formados. Portanto, como economista, não posso concordar que a Federação Nacional dos Estudantes de Economia se posicione contra os princípios mais elementares da profissão que seus membros abraçaram e, conscientes ou inconscientes do correto significado dessa posição, prejudicar, assim, a sociedade brasileira, que tem custeado, com sacrifícios muitas vezes ingentes, a formação de vocês, pelos menos daqueles matriculados em escolas públicas, não vendo outra razão para tal incongruência senão o desastroso ensino que joga na sociedade economistas desconhecedores da própria Teoria Econômica. Com a sinceridade de quem tem a experiência do magistério e também do exercício da profissão fora da universidade, conclamo os estudantes que compuseram ou aprovaram a nota de repúdio que reflitam seriamente sobre o que têm aprendido e não façam da profissão de economista o mero instrumento de práxis ideológica ou a mera repetição desse lugar-comum tão bem sintetizado no termo “luta”, um lugar-comum que tem sua razão de ser em meio a quem desconhece os detalhes da profissão, mas que são inaceitáveis para quem escolheu estudar os fenômenos econômicos sob a luz da epistéme e não da dóxa. A luta pelo fortalecimento da profissão não deve ser a luta retrógrada pelo corporativismo, mas realmente pela qualidade do profissional e isso implica assumir-se como economista de verdade, com a íntima convicção de que sabe o que está fazendo e sem medo da competição em sua área de atuação. Se um de nós perde para outro no mercado, então o problema não é o outro, mas de quem foi preterido. Infelizmente, o Brasil ainda sofre os deletérios efeitos de costumes e tradições seculares arraigados nas perversas relações entre o público e o privado, nas concepções paternalistas de guildas e governos como senhores absolutos de nossas ações e, principalmente, nesse medo visceral que temos da concorrência e que nos tem mantido perenemente no grupo dos países subdesenvolvidos. Os Conselhos podem e devem continuar atuando, como muitos o fazem com admirável excelência, em atividades extremamente benéficas, como cursos de reciclagem, publicação de periódicos de conjuntura, divulgação científica, publicação de preços comumente cobrados, usando-os como sugestões das valorações marginais de mercado etc. O que se pleiteia é somente a racionalidade no âmbito da restrição corporativista, sem qualquer prejuízo das atividades benéficas à classe. A Educação é nosso único caminho e, para isso, os incentivos privados devem estar bem alinhados com os benefícios e custos sociais. Pigou tem uma belíssima obra sobre as consequências desse desalinhamento e sua leitura vale mais que qualquer manual.

Rodrigo Peñaloza, Ph.D. 
Professor de Economia
Universidade de Brasília, UnB

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