Não creio que a razão da criatividade no passado tenha sido o ócio criativo. Simplesmente a vida andava numa velocidade menor. Na nossa formação não há como abrirmos mão do tecnicismo em troca de ócio criativo. O que eu acho é que, junto do tecnicismo, deve haver algo na nossa formação da qual abrimos mão há muito tempo: cultura. Deve ser algo nutrido desde a infância nas escolas. O grande problema é que o tecnicismo dominou a formação escolar das crianças em detrimento da cultura. O tecnicismo deveria vir aos poucos e mais tarde na formação, quando o aluno já estivesse para entrar na universidade. Antes disso, só cultura. Tecnicismo também é cultura, mas refiro-me a outro tipo. Quando digo cultura sou bem específico: cultura ocidental clássica, o domínio da linguagem, da retórica, a visão lata da Filosofia, os valores ocidentais da Democracia e da Liberdade, a literatura, a música, algo mais ou menos parecido com o que os antigos gregos chamavam de formação do homem, em oposição a simplesmente educação, como podemos ver na Paideia de Werner Jägger. O que dá persipicácia à mente, quando não é o brilhantismo intelectual que a poucos premia, é a cultura. Por exemplo, acredito que as crianças perdem muito tempo na escola aprendendo coisas de matemática e de ciências que não trazem muito impacto. É muito mais relevante que as crianças dominem a tabuada, que compreendam frações e proporções e dominem muito bem a geometria plana e tridimensional e, claro, a lógica. Não é preciso mais que isso para se ter potencialmente um bom aluno de matemática na universidade. O domínio da palavra e da fala requer domínio da sintaxe e, para isso, o Latim é fundamental. Tal como antigamente, mas que nosso sistema educacional aboliu. O estudo da geografia não deveria ser como os livros de hoje defendem, muitos com uma visão marxista da geografia absolutamente equivocadas. O livro de geografia do meu filho dizia que a sociedade se divide em capitalistas e proletariados. Um absurdo! Tive de reensiná-lo quanto a isso. E em meio a essa loucura ideológica, o aluno não sabe reconhecer um mapa. O aluno deveria colorir os acidentes geográficos dos continentes à mão, na força bruta, pra nunca mais se esquecer. Deve aprender a fazer contas de cabeça, exercitar a memória. Escrever redações praticamente todos os dias. Ser colocado em um debate público, instado a defender uma ideia e defendê-la como se fazia na Idade Média: o oponente expõe uma tese e o aluno reexpõe sinteticamente a tese do oponente, para mostrar que entendeu, refuta ou concorda ponto por ponto e apresenta a sua própria tese e a defende. Aí o outro faz a mesma coisa. Pra mim, esse é o caminho.