William Stanley Jevons.

O DECÁLOGO DE MANKIW E A TÉTRADA DA ECONOMIA
(Rodrigo Peñaloza, 5-IX-2014)

Todos conhecemos os 10 princípios da Economia listados por Mankiw. Na verdade, todos eles decorrem de apenas quatro, como mostrarei a seguir. Antes, o decálogo de Mankiw, para quem não se lembra:

(1) As pessoas enfrentam tradeoffs.
(2) O custo de uma coisa é aquilo de que abdicamos para obtê-la.
(3) As pessoas racionais pensam na margem.
(4) As pessoas respondem aos incentivos.
(5) O comércio pode ser benéfico para todos.
(6) Os mercados são normalmente uma boa forma de organizar a atividade econômica.
(7) Os governos podem às vezes melhorar os resultados dos mercados.
(8) O padrão de vida de um país depende da sua capacidade de produzir bens e serviços.
(9) Os preços aumentam quando o governo imprime muita moeda.
(10) A sociedade enfrenta um trade-off de curto prazo entre a inflação e o desemprego.

Na minha opinião, essa é uma lista excessiva, pois todos eles decorrem de uns poucos princípios microeconômicos ainda mais básicos, que eu listaria como os seguintes:

(a) As pessoas enfrentam tradeoffs.
(b) O custo de uma coisa é aquilo de que abdicamos para obtê-la.
(c) As pessoas racionais pensam na margem.
(d) Internalização das externalidades.

Note que os princípios (a,b,c) coincidem com (1,2,3). Os princípios (5,6,8,9 e 10) decorrem de (1,2,3), isto é, de (a,b,c). De fato, se as pessoas enfrentam trade-offs (a=1), então é porque suas escolhas implicam conflitos. Isso só pode ocorrer se as pessoas desejam várias coisas e se essas coisas não estão disponíveis em quantidades que satisfaçam ao desejo de todos. Em outras palavras, se os bens são escassos e desejados. O princípio (b=2) estabelece o conceito de custo e oportunidade. O princípio (c=3) significa que os agentes econômicos são otimizadores.

Os princípios (5,6,8,9 e 10) decorrem do conceito de custo de oportunidade e do princípio de comportamento otimizador, desde que o princípio (d) seja satisfeito. Quando o princípio (d) é satisfeito, temos exatamente aquelas condições de um mercado sem falhas. Isso é assim porque o conceito de custo de oportunidade pode ainda ser subdividido entre custo privado (aquele que se dá no âmbito privado) e custo social (aquele que se dá no âmbito da sociedade como um todo). Por complementação, esse conceito implica o de benefício (privado e social).

É quando existem divergências entre os benefícios líquidos marginais privados e sociais que surgem as falhas de mercado. Em outras palavras, as falhas existem quando não há internalização das externalidades, sejam positivas ou negativas. É nessas condições que entram os princípios (4 e 7). O governo pode melhorar o mercado apenas quando ele tenta alinhar os benefícios líquidos marginais sociais e privados. O imposto de Lindahl, os mecanismos de incentivo aplicados a situações de moral hazard e seleção adversa, os mecanismos de Groves aplicados a decisões públicas, os mecanismos de leilão, todas essas coisas que estudamos em Economia Pública, Teoria de Leilões e Desenho de Mecanismo (problemas Principal-Agente etc.) nada mais são do que maneiras diferentes de o governo replicar aquilo que um mercado perfeito faria, se não houvesse divergências entre benefícios líquidos marginais sociais e privados. É importante ressaltar que essas divergências surgem por certas impossibilidades operacionais e informacionais. Por exemplo, o fato de um monopolista não conseguir discriminar preços perfeitamente faz com que ele use regras de preços sob as quais o excedente social não é maximizado. No caso limite, quando a regra de preço estabelece um preço único a ser cobrado, ele usa o mark-up. Em casos intermediários, ele usa discriminação de outros graus e/ou tarifas multipartites e/ou bundling etc. Uma firma pode não conseguir operar numa escala em que o custo marginal seja superior ao custo médio. Todos esses impedimentos são operacionais ou tecnológicos. O desenho de mecanismos surge no contexto dos impedimentos informacionais, que são naturais na economia, como o fato de eu saber mais sobre meu carro do que qualquer outra pessoa.

Os 10 princípios de Mankiw são realmente excessivos. O princípio (b=2) não implica que as pessoas pensem sempre em termos de custos de oportunidade. Quer somente dizer que esse “é” o conceito a ser usado na estrutura epistemológica da Teoria Econômica. O único princípio que é passível de descrença parcial é (c=3), a racionalidade. Porém, a racionalidade limitada não é uma negação da Teoria, pois a Teoria pode ser reescrita à luz da racionalidade limitada.

Foi com 4 números que Pitágoras explicou os 10 primeiros números. Eu coloquei a foto de Jevons no texto porque ele merece. Só isso.