
O GREGO, A CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL E A INVASÃO DOS BÁRBAROS
(Rodrigo Peñaloza, jan. 2016)
Quando na Ilíada ou na Odisseia Homero usava a expressão “o cavalo”, o artigo definido mais o substantivo, a referência era sempre um cavalo particular, não a ideia universal de cavalo. O mesmo valia para o uso do artigo definido com o adjetivo. Quando era o artigo neutro plural, geralmente usado posteriormente para designar coletivos, a referência não era a ideia universal de cavalo, mas a coleção de todos os cavalos existentes naquele momento. O artigo definido tem a função de substantivar o termo a que se acopla. Os substantivos podem ser de três tipos: próprio, comum e abstrato. O artigo definido transforma um adjetivo ou um verbo em um substantivo comum ou abstrato.
Demorou muito tempo até que os gregos substantivassem o verbo pela precedência do artigo definido. Isso só foi possível quando, na mente grega, o verbo, que designava a ação idiossincrática de um sujeito, como em “Pedro pensa”, passou a ser objeto de reflexão e, de forma a tornar o verbo um substantivo do qual se predicassem suas características, designar algo como “o pensar”, donde “o pensamento” como objeto de reflexão. As formas nominais do verbo, como o particípio presente, acompanharam essa evolução: “o pensante”, “o ente”.
Quando Thales afirmou que o princípio das coisas era a água, talvez você não tenha, caro leitor, a ideia de quão significativo isso foi. “A água” como objeto de reflexão já como um termo universal. Ele não falava da água deste rio ou daquele mar, mas da água como uma ideia. Sendo substantivo referente a um universal, predicam-se dele as suas qualidades, como úmido, molhado e seco, e essas qualidades tornaram-se também substantivadas e objetos de pesquisa.
Os poetas tiveram um importante papel na transformação dos sentimentos e dos adjetivos em substantivos abstratos e, como substantivos, em objetos de reflexão. Para designar o medo usavam a personificação mítica do medo, o deus grego Φόβος (Phóbos), e aos poucos ajudaram a criar a ideia de fobia. O medo deixava de ser o meu medo ou o seu medo em uma situação de perigo para passar a ser o medo como sentimento designado por um substantivo abstrato e, portanto, passível de reflexão. Observe como os mitos exerceram o importante papel de gerar as ideias mediante a personificação, ou seja, mediante o substantivo próprio. Depois os poetas ajudaram a transformá-las em substantivos comuns e abstratos, fornecendo assim os elementos para a reflexão científica. Com o artigo definido ganhando essa importante função de substantivação, o pronome demonstrativo se concentrou em sua função de indicar o particular: “este cavalo”, “aquele cavalo”.
Quando os elementos sólidos do raciocínio estavam prontos, ou seja, a possibilidade de cogitar de uma ideia como um substantivo comum ou abstrato mediante o artigo definido e passível, dessa forma, de predicações, restou às conjunções o papel de conectá-los em silogismos. Até mesmo uma proposição atômica como “Todo homem é mortal” já era algo sólido que, junto com “Sócrates é homem”, possibilitava, pelo uso das conjunções “se” e “então”, dar sentido à proposição “Logo, Sócrates é mortal”. Não haveria raciocínio lógico com termos abstratos e conceitos científicos se a mente grega não tivesse materializado sua evolução no desenvolvimento da língua grega.
Até mesmo as diferentes explicações científicas da natureza que brotaram com Demócrito, Heráclito e Aristóteles devem sua razão de ser a uma característica peculiar do verbo grego: o aspecto. O verbo grego não se caracteriza apenas pelo tempo verbal ou o modo. Distingue-se também pelo aspecto, ou seja, para o verbo grego, uma ação pode ser concebida como um estado (o verbo está no presente), como um acontecimento (o verbo está no aoristo) ou como um resultado (o verbo fica no perfeito). Na Natureza tudo se move. Para Demócrito, o movimento existe como resultado de um movimento passado, uma concepção baseada no aspecto perfectício do verbo grego. Para Heráclito, o movimento é uma tensão atual, é o aspecto presente, o movimento em seu contínuo, fragmentado em seus movimentos isolados. Como os gregos não conseguiam aceitar a irracionalidade (no sentido aritmético de um fragmento impossível de ser expresso por uma razão entre dois inteiros), caíram nos paradoxos do movimento que tanto atormentaram Zenão, ou melhor, com os quais Zenão tanto se comprazia em nos atormentar. As grandezas tinham de ser exatas. Nem Aristóteles escapou. Para fugir aos problemas do movimento, definiu o movimento como a mudança de um ser para outro, colocando o movimento como uma potência do ente.
O apego às grandezas exatas, ou melhor, às grandezas mensuráveis, era uma característica da mente científica do grego. Esse apego não foi o resultado de uma incapacidade de extrapolar as limitações do racional. Foi, antes, o sentimento de que havia a necessidade de mensuração das coisas. Dou um exemplo. A ideia de bem foi ganhando universalidade até que, com Platão (e o artigo definido), atingiu seu ápice, todas as coisas boas tendo, assim, apenas uma participação na ideia de Sumo Bem. Como mensurar esse grau de participação? Surge assim o que hoje chamamos de modelo. Explico-me. Epicuro substitui o eixo a ser mensurado por algo mensurável: o prazer. Eis a régua! O prazer não é o Bem, mas é mensurável. Seria bom que os economistas entendessem que a ideia de utilidade se insere nesse espírito científico grego que reconhece na mensuração a régua da ciência, que não é do bem-estar em si de que se fala na Economia, mas da sua régua dada pela utilidade. Os austríacos não quiseram fazer essa substituição e assumem, com razão, que a utilidade é imensurável e com isso rejeitam os modelos baseados nas comparações interpessoais de utilidade. É uma escolha. A metodologia austríaca, nesse sentido, é uma alternativa científica tão legítima como a ortodoxa. É importante enxergar o que subjaz as duas posturas.
Voltemos ao assunto. Essas considerações acerca do papel da Língua Grega na formação da mente científica e filosófica ocidental saíram da mente brilhante de Bruno Snell (1896–1986), o helenista que teve a honra de ser o sucessor do mais ilustre helenista alemão do início do século 20, Ulrich von Wilamovitz-Moellendorff. O artigo de Bruno Snell, de 1960, “The Forging of a Language for Science in Ancient Greece” (The Classical Journal, 56(2): 50–60) é um clássico e é donde tirei a exposição acima.
Todo o modo de ser da cultura ocidental tem sua origem nos gregos. A contribuição dos gregos não está apenas na Filosofia, na Literatura ou na Língua. Está, antes, no modo de ser! Os gregos simplesmente moldaram o nosso de ser. Esse modo de ser inclui, entre outras coisas, como a ideia de liberdade e de indivíduo, a formação do espírito científico pari passu com a Língua Grega. Os Romanos foram inteligentes o suficiente para aprender com os Gregos os fundamentos da cultura helênica e, com suas contribuições pragmáticas, moldar com eles a Civilização Ocidental. Não me reporto aqui à influência judaico-cristã, que foi enorme no campo da vida moral e espiritual, até mesmo filosófica, mas somente aos aspectos essenciais da ideia de espírito científico, liberdade, privacidade e Democracia.
Infelizmente, como tomamos o nosso modo ocidental de ser como dado, não temos a devida perspectiva daquilo de que somos feitos. Quando li o artigo de Snell, inserido na coletânea “A Cultura Grega e as Origens do Pensamento Europeu”, da Editora Perspectiva, comprovei algumas reflexões em que havia mergulhado há muito tempo sobre o mesmo tema: o da Língua Grega como expressão de um modo de ser ao qual devemos tudo ou praticamente tudo. Minhas considerações se concentravam em dois pontos: o dual e os imperativos aoristo e presente.
Os números que conhecemos dos pronomes pessoais (ou as pessoas do verbo) são dois: o singular (eu, tu, ele(a)) e o plural (nós, vós, eles(as)). Essas pessoas aparecem nas flexões número-pessoais do verbo, como em am-o, am-as, am-a, am-amos, am-ais, am-am. Se refletirmos um pouco mais sobre o significado simbólico dessa característica, perceberemos que, no plural, o indivíduo se dilui no múltiplo, ou seja, a privacidade se dilui (e desaparece) no público. Se você diz “eu”, “tu” ou “ele(a)”, você consegue identificar a pessoa de quem você fala e seu interlocutor também. Se você diz “nós”, “vós” ou “eles(as)”, não necessariamente.
Pois bem, em Grego há o dual, que é um pronome pessoal intermediário entre o singular e o plural. Se você quer dizer “vocês dois” ou “eles dois”, o verbo se flexiona mediante uma desinência número-pessoal específica do dual. É como se entre as sequências “am-o, am-as, am-a” e “am-amos, am-ais, am-am” existisse uma sequência “am-XX, am-YY”, em que as desinências XX e YY indicassem duas pessoas (vocês dois ou eles dois). Note que não existe uma desinência número-pessoal para a ideia de “nós dois” porque a expressão “nós dois” já pressupõe um diálogo entre você e eu e não é necessário que identifiquemos a nossa individualidade para nós mesmos! Já sabemos que somos “certos indivíduos específicos”. Embora o dual exista em alguns outros idiomas não indo-europeus (como os semíticos), foi na Grécia que, segundo penso, o dual era a expressão linguística de uma diferenciação muito nítida na mente grega entre o público e o privado. O dual é símbolo de um múltiplo em que o indivíduo, ao contrário do plural, não se dilui, não perde sua privacidade. Se são eles dois ou eles três, não importa. O importante é que o dual permite a identificação na multiplicidade, é o privado preservando sua relevância no público.
A mesma diferenciação entre público e privado aparece nos comandos, no imperativo. O comando “Levantai, meus filhos!”, dito pelo pai aos filhos que, estando sentados, devem levantar-se para continuar caminhando, é de uma natureza essencialmente distinta do comando “Levantai, meus filhos!”, dito, digamos, pelo Pai (Criador) aos filhos (criaturas) que, estando caídos em sofrimento, devem levantar-se para continuar caminhando. Embora eu tenha dado um exemplo judaico-cristão de Criador-Criatura, o que quero, na verdade, é ilustrar a natureza distinta de cada comando. No primeiro caso, a ordem é local, é privada. Cumpre-se o comando naquele momento e, depois disso, deixa de ter validade. O segundo comando tem caráter de lei, é público. É um chamamento que clama por cumprimento constante a partir de então. Em Grego, o primeiro comando é dado no imperativo aoristo, o segundo no imperativo presente. Em outras palavras, o modo do imperativo pode ser subdividido, entre outros, nos aspectos do aoristo e do presente mediante desinências modo-temporais próprias. Mais uma vez a linguagem revela um modo de ver as coisas: a diferenciação entre as esferas pública e privada que havia na mente grega.
Não surpreende, portanto, que tenha sido a cultura grega, nenhuma outra, quem criou a ideia de Democracia, de indivíduo e de liberdade. Foi somente depois da Renascença, que reviveu a cultura clássica greco-latina, que as ideias de Liberdade e Democracia continuaram seu desenvolvimento e culminaram na sociedade moderna ocidental. Isso se deu pelo aprofundamento das reflexões sobre o Direito Natural do Homem (privado) frente ao Direito das Nações (público, ius gentium).
Vivemos hoje, na Civilização Ocidental, uma invasão de bárbaros. São aquelas pessoas que não se enquadram no modo de ser de natureza grega do Homem ocidental e não compreendem que não é possível voltar atrás e retirar do indivíduo privado a sua relevância na esfera pública. São aquelas pessoas que clamam por um governo agigantado que regule nas minudências mais descabidas a vida privada do cidadão, aquelas que pensam poder controlar o mercado e a sociedade como quem controla as peças em um tabuleiro de xadrez, roubando ao cidadão a Liberdade conquistada nos últimos séculos mas germinada em nossa psiquê coletiva desde nossas origens gregas.
Para essas pessoas, aquilo que elas consideram ser a sociedade ideal por elas desenhada (e obviamente na qual elas são os chefes) deve engolir o indivíduo e diluí-lo no público tal como uma formiga é diluída na sua comunidade, fazendo do Homem uma peça sem rosto numa engrenagem por elas próprias idealizada como um Sumo Bem que somente a eles é dado conceber. Querem fazer da sociedade ocidental uma sociedade teocrática análoga aos califados árabes na qual os califas são os auto-intitulados intelectuais de esquerda que insistem em justificar a expansão da esfera pública pelo aniquilamento da esfera privada sob o pretexto de levar as almas dos fiéis ao Paraíso do bem-estar. Não conseguem entender que são os bárbaros no sentido grego do termo: todo aquele que não é grego é bárbaro. O que temos a aprender do Oriente é a espiritualidade, é a manifestação civil da moral íntima. Nunca, jamais, as suas formas opressoras de governo, como os da China ou de alguns países muçulmanos em que a teocracia substitui a democracia. Vivemos uma invasão de bárbaros dentro de nossas próprias fronteiras. A sociedade livre ocidental é greco-romana, é grega. Quem clama por sua destruição é, por definição, bárbaro. Bárbaro é o legislador que regula o sal na mesa do restaurante. Bárbaro é Nicolas Maduro. Bárbara é Kirchner, bárbara é Dilma Rousseff. Bárbaros são os economistas que pregam a regulação do mercado até as entranhas da alma e violando a privacidade. Bárbaros são os partidos totalitários que usam as Instituições do Estado em prol de uma autocracia partidária e bárbaros são aqueles que os defendem. São todos bárbaros.