O HUMOR DE CÍCERO
(Rodrigo Peñaloza, 2-VI-2017)

Em Roma — e na Antiguidade clássica em geral -, era comum a consulta aos aúgures e adivinhadores antes de qualquer empreendimento. Os políticos não se furtavam a esse hábito. Se os presságios fossem bons, a empreitada tomava corpo. Os áugures tinham métodos estranhos para pressagiar. Se uma ave viesse de um lado, era bom; de outro, ruim. Se as galinhas deixassem os grãos espalhados de um modo sobre o chão, era bom; de outro, ruim (tripudia solistima). Daí que vem o termo “augúrio”, que tem uma raiz comum com o termo “avis” (ave).

Em Epistulae ad Familiares, VI.6, ao amigo que está preocupado com os augúrios de seu futuro político, Cícero escreve que ele (Cícero) também é capaz de pressagiar o futuro político, não, porém, como os áugures tradicionalmente o fazem, olhando os sinais das aves e como elas se comportam. Para prever o futuro político de qualquer um, Cícero observa dois sinais apenas: um é o próprio César; outro a situação política do momento e a razão. O cômico de sua carta repousa na comparação da fantasia das fórmulas ritualísticas de predição com a análise racional da realidade. Com a palavra, Cícero:

“Por isso, uma vez que, como os áugures e astrólogos soem fazer, eu também, áugure público, em razão de minhas prévias predições, estabeleci junto a ti a autoridade de meu augúrio e adivinhação, nossa predição deverá ter fé. Portanto, a ti vaticino não em razão de uma ave que voa, nem do canto da ave que vem da esquerda, como é o caso em nossa disciplina, nem dos presságios mais favoráveis dos grãos deixados ao chão pelas galinhas ou dos presságios ruidosos, mas eu tenho outros sinais que eu observo, os quais, embora não mais precisos que aqueles, menos, porém, têm de obscuridade e de erro. De minha parte, para a adivinhação, são considerados sinais por uma certa via dupla: uma vem do próprio César; a outra da natureza da situação política e da razão.”

Quare, quoniam, ut augures et astrologi solent, ego quoque augur publicus ex meis superioribus praedictis constitui apud te auctoritatem augurii et divinationis meae, debebit habere fidem nostra praedictio. Non igitur ex alitis volatu nec e cantu sinistro oscinis, ut in nostra disciplina est, nec ex tripudiis solistimis aut soniviis tibi auguror, sed habeo alia signa, quae observem; quae etsi non sunt certiora illis, minus tamen habent vel obscuritatis vel erroris. Notantur autem mihi ad divinandum signa duplici quadam via, quarum alteram duco e Caesare ipso, alteram e temporum civilium natura atque ratione.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.