QUANTO REALMENTE CUSTAM OS DESASTRES METEOROLÓGICOS?
(Rodrigo Peñaloza, fev. 2015)

Este ano eu li um texto de 2014 que tentava responder à pergunta: “Quanto custam os desastres meteorológicos?” (link aqui). O texto cita algumas estimativas de custos de desastres meteorológicos com a intenção de mostrar, pela magnitude dos valores calculados, a importância desse tipo de análise. O problema é que o texto, embora bem intencionado, se vale de simplificações conceptuais grandes quanto à ideia de custo econômico.

Entendo que, na falta de instrumentos mais apropriados para mensurar o custo econômico, os valores citados podem servir de proxy. Afinal, o economista deve fazer o melhor com o pouco que tem, já ensinava Harberger. Mesmo assim, os exemplos abaixo vão mostrar quão díspares essas proxies podem ser dos respectivos custos econômicos. Outra possibilidade que eu devo levar em conta relativamente ao texto é que suas fontes não tentaram, na realidade, calcular os custos econômicos dos desastres meteorológicos, apenas os custos contábeis ou o custo histórico dos danos. Nesse caso, o meu texto serve como contribuição ao leitor interessado, para que possa distinguir entre os conceitos tratados lá e cá.

Julguei, então, ser importante escrever este texto para esclarecer sobre o ambíguo entendimento do assunto, principalmente em razão, como disse, de uma simplificação comum que muita gente comete nesse tipo de análise. A ressalva é quanto ao que se deve entender por custo social econômico dos desastres meteorológicos, pois o que as pessoas chamam de custo não é custo econômico! Eu me refiro especificamente ao custo-sombra do desastre (algo como preço-sombra negativo, só pra usar um termo mais sugestivo). Não usarei aqui dados concretos sobre custos econômicos de desastres meteorológicos, mesmo porque não tenho esses dados e ouso dizer que tampouco existem para todos os casos. Seja como for, se alguma vez alguém os calcular ou vislumbrar um método de cálculo, o ideal é que não seja da forma como o texto que eu li sugere. A forma correta do ponto de vista econômico segue outros princípios teóricos, que aqui apresento de forma bem didática. Saiba o leitor, porém, que o método aqui apresentado é teórico e que, na prática, encontraríamos ingentes dificuldades para aplicá-lo.

Vou usar um exemplo bem simples. Imagine que você tem 3 ações alternativas pra tomar: A, B e C. Cada uma delas envolve coisas boas e ruins. Digamos que, quanto a A, você valoriza as coisas boas em 100 e as ruins em 70. Logo, o valor da ação A, pra você, é 30. Suponha, então, que você tenha os seguintes números:

Ação A: 
valor das coisas boas=100; 
valor das coisas ruins=70; 
valor da ação A=30.

Ação B: 
valor das coisas boas=50; 
valor das coisas ruins=30; 
valor da ação B=20.

Ação C: 
valor das coisas boas=80; 
valor das coisas ruins=65; 
valor da ação C=15.

A sua melhor opção é A, pois tem o maior valor. Qual é o custo da opção A? Alguém dirá que é 70, mas está errado! Ele está errado porque ele pensa que o custo de uma ação é intrínseco a ela. O custo da opção A é o valor da melhor alternativa à opção A, que é a opção B, que tem o segundo maior valor dentre as três opções. Assim, o custo da ação A é 20. É o valor do qual se abre mão pra executar a ação A. Quais são os lucros associados a cada ação? Considere A. Você atribui a A o valor de 30. Pra realizar esse valor, você abre mão de realizar o valor da melhor alternativa, B, ou seja, 20. Logo, você abre mão de 20 pra ganhar 30. O lucro de A é 10. O lucro de cada ação é, portanto, como na lista abaixo:

Ação A: valor=30; custo=20; lucro de A=10
Ação B: valor=20; custo=30; lucro de B=-10 
Ação C: valor=15; custo=30; lucro de C=-15

Note que os custos de B e C são iguais a 30, o valor da melhor alternativa às duas, que é A. Tudo isso reflete a economia antes do desastre. Agora imagine que um desastre meteorológico destrói a opção A. A sociedade agora só pode escolher entre B e C. O custo de B é o valor da melhor alternativa, que agora é C, ou seja, o custo de B é 15. O custo de C é 20. Assim, se refizermos os passos acima sem a presença de A, encontraremos os novos lucros:

Ação B: valor=20; custo=15; lucro de B=5
Ação C: valor: 15; custo=20; lucro de C=-5

Após o desastre meteorológico, o excedente máximo é 5. Comparando com o excedente que se tinha antes, que era de 10, a perda social é de 5 (ou seja, 5–10=-5).

Qual é o problema, então, com os valores citados no artigo? Existem três respostas muito comuns. Uns vão dizer que o custo econômico do desastre é 70, o valor atribuído às coisas ruins da ação A, que foi destruída. Isso ocorre, por exemplo, quando dizem que o custo do desastre é o quanto valiam as construções e prédios destruídos. Outros irão dizer que é esse valor de 70 mais os lucros privados que essas construções permitiam, ou seja, 70+30, o que se resume a dizer que o custo econômico do desastre é 100, o valor atribuído às coisas boas da ação A. Outros ainda vão dizer que é só 30, o valor da ação A que se perdeu. Todos errados! Se antes o excedente total era 10 e depois do desastre é 5, então o custo econômico é 5.

A simplificação que o texto do link usa é do primeiro tipo. Ao usar a palavra prejuízo, o texto trai o leitor ao provocar confusão entre prejuízo e custo econômico. Não há problema em se calcular o prejuízo. O problema é quando se confunde esse conceito com o de custo econômico. Antes que alguém argumente que todas as conexões com a ação A são afetadas pelo desastre (os empregos secundários que gera etc.), alerto que os valores das ações já incorporam todas essas conexões, pois são os valores que a “sociedade” atribui às ações. São custos e benefícios sociais. Portanto, a ambiguidade conceptual dos valores mencionados no artigo está no fato de que eles não representam o verdadeiro conceito de custo econômico. A representação seria correta somente no caso em que os custos e benefícios privados refletissem perfeitamente os custos e benefícios sociais.