Goya. Uma obra de arte que expressa uma crítica social.

Sobre a exposição do Santander
(Rodrigo Peñaloza, 11-IX-2017)

Todos temos liberdade de expressão. Entretanto, a liberdade de expressão não deve ser usada para justificar a arte como a liberdade de expressão de qualquer coisa, como se a arte fosse o lugar próprio do relativismo absoluto, se é que esse oxímoro tenha qualquer significado compreensível. Existe, sim, uma hierarquia estética que caracteriza a arte. Se alguém tem dúvida disso, basta voltar a Aristóteles, à Poética. Para uma referência nacional, para os que assim preferem, o próprio Ariano Suassuna tem uma obra excelente: Iniciação à Estética.

Uma performance “contemporânea” em que uma pessoa defeca na foto de alguém em público ou em que uma bolina a outra numa roda, enfiando o dedo no ânus, não é arte. Liberdade de expressão não é a essência da arte, mas sim a beleza estética e o movimento da alma. O termo “beleza” obviamente não deve ser tomado no sentido popular de “gosto padronizado numa cultura”, mas de aproximação espiritual com a essência de algo pelos sentidos, daí o epíteto “estética”. Muitas expressões que chamamos de “artísticas” definitivamente não são arte, são apenas expressões de natureza política ou ideológica, no sentido de serem expressões contra certas normas sociais com as quais os ditos “artistas” não concordam. Categorizar essas expressões como “arte” é um acinte a séculos de pensamento filosófico sobre a noção de arte e de estética.

O problema é que essas expressões de revolta sócio-política, além de serem esteticamente feias, grosseiras, repugnantes e de não serem arte, se configuram, as mais das vezes, em meras ofensas e desrespeito às diferenças. Com a desculpa de darem espaço às diferenças, o que a exposição fez foi justamente retirar o espaço daquilo que ela pensa criticar. O que une os dois grupos, pró e contra a exposição, é que nenhum dos dois está falando de arte. É apenas um caso em que um ofende o outro. Arte existe numa pintura de Goya, numa tocata de Bach e numa ode de Píndaro. Numa hóstia escrita com a palavra ânus eu vejo uma grosseria. Se meu filho entrasse numa Igreja e gritasse ânus ou um palavrão, eu puxaria sua orelha e o repreenderia, por uma razão muito simples: ninguém sai por aí ofendendo os outros. Se ele dissesse que foi uma expressão “artística”, eu diria que ele não entende nada de arte.

Se há peças, na exposição, com beleza estética suficiente para que sejam tidas como obras de arte, eu não sei, nas as vi. Mas as que vieram a público, pra mim, não são arte, são grosserias. O que o Santander fez não foi montar uma exposição de arte, mas sim montar um tablado de ofensas públicas mútuas pra ver o circo pegar fogo sob a desculpa de promover a arte. Quanto ao repúdio de grupos religiosos às obras ofensivas, afirmo que eles têm o mesmo direito de exporem seu repúdio quanto os “artistas” que expõem essas obras na mostra. Nisso consiste a liberdade de expressão. Portanto não vejo mal algum nas manifestações de repúdio. Inclusive assinei uma, pois sou livre para repudiar aquilo que considerei ofensas. As pessoas têm, sim, também o direito ao repúdio. O que a liberdade de expressão nos garante é que as mágoas recíprocas não transpassarão as fronteiras da integridade física: nisso consiste a liberdade de expressão, não na permissividade de qualquer coisa que se queira fazer. Que ideia errada temos da Liberdade! Pelo que sei, ninguém até agora bateu em ninguém por causa disso. Estamos, portanto, dentro do âmbito da liberdade de expressão e definitivamente discordo que as manifestações de repúdio se configurem em restrições à liberdade de expressão. Pelo contrário, apenas a confirmam.

Não foram essas manifestações de repúdio que instaram o Santander ao fechamento da exposição. O motivo é outro: o Santander está mais preocupado com o impacto financeiro sobre a sua imagem do que com qualquer teor “artístico” do debate ou a questão da liberdade de expressão. Muitas pessoas encerraram suas contas. A imagem de promotor de pedofilia e zoofilia pesa sobre o banco. Não importa se algumas pessoas discordam que as obras sejam de pedofilia ou não. O que importa é que o banco julgou que são mais relevantes as opiniões de quem acha que são. Ponto! Junte-se a isso a lembrança da demissão da economista que previu os efeitos da eleição de Dilma em 2014 e teremos aí um caldeirão de motivos fortes o suficiente para assustar qualquer banco quanto às manchas em sua reputação. Um banco do porte do Santander não é empresa de se curvar a meras opiniões. Ele se curvou à possibilidade de perder dinheiro com isso em razão das opiniões que se mostraram mais convincentes em termos de sua inserção na sociedade. Nesse sentido, nada há de anormal ou de coerção, mas o resultado natural da liberdade de expressão. Entre agradar a uns ou outros, o banco preferiu agradar uns e não outros. Os que perderam a batalha podem achar ruim, mas não podem acusar o lado vencedor de coerção. Tudo no mercado tem grupos com posições opostas e o balanço dessas forças díspares é que faz o pêndulo pender para um lado e não para o outro. O que tenho visto são pessoas que reclamam das reações sob a alegação de que as reações são contra a liberdade de expressão, mas ao mesmo tempo essas pessoas negam aos ofendidos o direito de expressarem seu repúdio. Tudo bem, pode-se discordar do que seja arte, mas todos concordamos quanto à liberdade. Mas não há meia liberdade. Se há liberdade para um artista se expressar (mesmo que eu julgue ofensa e você não), deve haver também a liberdade de os ofendidos reagirem. E deve haver a liberdade do banco em decidir sobre o que vale mais a pena ou não. E deve haver a liberdade de as pessoas fecharem suas contas. Isso é liberdade. O banco ponderou as “opiniões”, como qualquer empresa faria. Afinal, ninguém quer perder dinheiro. Mas daí a dizer que os ofendidos “coagiram” o banco é “viajar na maionese”, desculpem-me a expressão. O banco ponderou os custos e benefícios e preferiu fechar a exposição. Tão simples quanto mudar a capa do leite condensado pra vender mais. Quem pensa que as reações “coagiram” o banco a fechar a exposição e a submeter-se a uma violação da liberdade de expressão engana-se redondamente.

Eu achei as obras esteticamente feias. Achei-as grosseiras e ofensivas e absolutamente não as considero obras de arte. Não têm harmonia, unidade e claridade. Tanto quanto os “artistas” tiveram a liberdade de escrever ânus numa hóstia, julgo que as pessoas têm o mesmo direito de repudiarem e de considerarem essas expressões como ofensas grosseiras. O que pensariam se eu me postasse na rua em frente à janela de alguém e gritasse ofensas à família? Receberia no mínimo um balde d’água na cabeça. Mas não! Os grupos ofendidos saíram à janela e gritaram “Isso é uma ofensa! Respeitem-nos, por favor”. Há neles tanto respeito à liberdade de expressão quanto o respeito concedido a priori à liberdade na qual a exposição julgou se apoiar.

O que há de comum aos dois grupos é que a questão central não é sobre se houve ou não restrição à liberdade de expressão, pois não houve! A questão não é se as obras são de arte ou não, pois definitivamente não são! Mas isso é problema semântico do curador da exposição. A questão é outra: uma coisa é a crítica, outra bem diferente é a ofensa. E como vivemos numa sociedade livre, não podemos nos esquecer de que o conceito de liberdade não coincide com a ideia de que tudo é possível. A liberdade se estende maximalmente de modo a garantir a estabilidade social. Crítica social pode ser feita com arte, mas o que eu vi não é arte. O que eu vi foram ofensas. E se vivemos numa sociedade livre, os ofendidos têm o direito de reagir. Se o Santander acatou os pedidos de repúdio, foi porque o Santander é livre pra judicar da situação como bem preferir e assim o preferiu. Não houve em momento algum qualquer coerção sobre o banco. O que houve, sim, foi uma exposição infeliz com algumas obras grosseiras e ofensivas e o banco, agora, sofre as consequências. No mundo livre, o homem livre assume as consequências de seus atos.

O que eu penso é: “Que o Santander agora agüente as conseqüências. Se disserem que o repúdio à exposição é uma violação da liberdade de expressão, eu afirmo que não é, que, pelo contrário, é também liberdade de expressão. E, ademais, de gustibus non disputandum, sobre gostos não se discute, mas que o adágio nunca se referiu às obras de arte, antes a questões de gosto pessoal sobre coisas comuns (como o gostar de amarelo e não de azul), o que me leva ao ponto final, qual seja, ali não há arte. Simples assim. Há ofensas e os que reclamam das reações dos ofendidos deveriam compreender que no conceito de liberdade de expressão há um elemento de reciprocidade que lhe é essencial, ou seja, sem o qual a liberdade perde sentido”.

O quadro acima é de Goya, é uma crítica à guerra que envolveu os cidadãos espanhóis contra os invasores franceses sob o comando de Napoleão. O quadro foi pintado em 1814 para homenagear os espanhóis fuzilados em 1808 por ordem do Marechal Murat, cunhado de Napoleão. Os franceses podem ter se sentido ofendidos. A diferença com o caso da exposição do Santander é que a obra de Goya é arte. Se Goya, em vez de pintar o quadro, tivesse escrito a palavra “merde” sobre a bandeira da França, ele jamais diria que isso era arte, pois, de fato, não seria. Equiparar os berros de Yoko Ono a um largo de Vivaldi em termos artísticos sob o pressuposto de que qualquer expressão da alma é arte é negar as potencialidades da natureza humana. Ser uma obra de arte evidentemente não significa ser uma obra bem-comportada, que não questione os valores, que não crie ódios e revoltas. Porém, nem toda obra irreverente ou de crítica social ou que gere ódios merece ser chamada arte, pois não é tampouco a irreverência e a crítica aos valores que caracterizam a arte. Esses são aspectos acidentais, não essenciais.

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